Renê Roldan

PARTILHANDO SONHOS E INQUIETUDES

Amigo e mestre Chico: Saúde e paz. Aproprio-me do belo pensamento do saudoso mestre Paulo Freire para iniciar essa clandestina viagem que fiz dentro de seu inquieto sonho> “Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes” É exatamente nesse mundo tão carente de pessoas que pautem suas vidas por práticas coerentes que tive a honra de conhecê-lo. Tive o enorme prazer de junto contigo e outras criaturas fantásticas participar na luta para a transformação do sonho, que virou realidade, que virou lei, a 9840 – Contra a Corrupção Eleitoral, de 28/08/1999.

Logo no início desse seu novo sonho, uma inquietude chamou-me a atenção: “de como se organiza todo o modo de existir de nossa classe política”, e lança-nos o desafio para superarmos dois imensos obstáculos, que na sua visão, atravancam nossa história.  No primeiro o de mudarmos a forma de relacionamento entre o Executivo e o Legislativo, e no segundo o de repensar nossa cultura face ao sistema econômico capitalista que vivemos. Os efeitos colaterais de uma cultura tão contaminada pelo capitalismo, como é o nosso caso, coloca sob suspeita de forma quase que genérica, o caráter das relações interpessoais. Tudo tem um preço, um interesse.

Com relação ao campo em que a política pública é tratada, por inúmeras vezes durante a última campanha eleitoral, dialogava com a minha esposa toda vez que a televisão mostrava os candidatos nos palanques ou mesmo andando pelas ruas. Dizia-lhe sobre o grande perigo em matéria de política suja ali representada naquelas figuras que apareciam ao redor do candidato. Para mim, quer nos palanques, quer andando pelas ruas, quer nos diretórios, quer nos gabinetes, a grande maioria dos chamados “quadros” – que com raras exceções -, não passam de “urubus” sedentos de carniças.

Minha primeira grande decepção, com essa corja, aconteceu quando Luiza Erundina foi eleita. Tão logo terminou o horário de votação eu e outros militantes que estavam fazendo boca de urna – naquela época podia – nos dirigimos para o diretório para comemorar. Lá chegando partilhamos da euforia que tomava conta de todos por conta da surpreendente vitória. Afinal, era o primeiro passo do PT no poder público.

Eis que uma liderança vem ao meu encontro e sem rodeio nenhum me faz a seguinte oferta: ”Onde você quer trabalhar?” Inocente e sem entender respondi que deveria haver algum engano. Suas colocações logo em seguida me fizeram perceber que começava ali um “loteamento” de cargos, e que o sentimento que até então havia me movido, de longe, não era igual ao da grande maioria dos que lá estavam.

O que eu construí em matéria de participação cidadã ao longo de minha vida teve e tem um olhar plural, para fora, para o próximo, preferencialmente para o mais fraco. Hoje já não tenho nenhuma dúvida de que as “células cancerosas” que você diagnostica e que infestam a política, em especial o legislativo, têm um nome. São aqueles e aquelas sanguessugas que parasitam dentro dos diretórios dos partidos, os chamados “quadros”. No seu texto você coloca que “o presidente da república não pode mexer uma palha sem uma autorização legal, e que mesmo tendo a chave do cofre o segredo está nas mãos do legislativo”. Cá entre meus botões fico pensando se o problema esteja somente na autonomia para agir!  Penso em conselhos de representantes do povo, que sem nenhuma remuneração financeira devessem ser consultados toda vez que o cofre tivesse que ser aberto. Quando não se tem rabo preso com ninguém nada dá medo, e a denuncia passa a ser a maior arma para qualquer pessoa, especialmente para aqueles/aquelas que ocupam cargos públicos.

No século passado Hannah Arendt nos alertava de que “todo poder concentrado nas mãos de um só homem/mulher esta fadado a crise”. É o caso da expectativa criada com relação ao caso da 11ª vaga de ministro para o STF. Ainda que o ocupante da vaga votar a favor dos anseios de todo o povo brasileiro dando fim a história da Lei do Ficha Limpa, preocupa muito saber que a justiça no puro sentido da palavra dependa de uma pessoa escolhida por outra e não por toda uma nação.

Voltando a questão do caráter que envolve as relações interpessoais no mundo contemporâneo percebo muita indiferença em grande parte das pessoas, especialmente no que se refere a questões que envolvem as políticas públicas. Na minha modesta visão aponto como uma das grandes culpadas as religiões, e de forma especial, a católica. Faço essa colocação porque grande parte da formação de minha consciência crítica desenvolveu-se nos trabalhos sociais fomentado por uma igreja – no caso a católica – comprometida com a base de nossa sociedade, formada na sua maioria pelos mais pobres e excluídos, onde o amor a Deus passa necessariamente pelo meu próximo, especialmente o mais fragilizado socialmente.

Lamentavelmente o que vejo hoje é uma igreja centrada na figura do padre, de caráter meramente caritativo (entenda caritativo no sentido de assistencialista), discriminadora de todos aqueles/aquelas que ousam correlacionar fé com política. Esse tipo de religião, no meu entendimento, é gerador de indiferença e individualismo. “Eu encontrei Jesus”. Quem não encontrou que se dane, para não dizer outra coisa. O pior é que como formadora de opinião, aqueles e aquelas que se abastecem espiritualmente com esse tipo de religião, influenciam a grande maioria. Teodor Adorno já dizia que “a apatia da classe dominante contagia, torna o indivíduo insensível a tudo, e o absurdo é tratado como rotina no cotidiano

Superar o capitalismo é inaugurar uma nova cultura, totalmente diferente dessa em que vivemos. Essa que ai esta fincou suas garras até na relação com Deus.  Até o ato caridoso da esmola, no capitalismo virou negócio, virou moeda de troca, virou propina. Sonhar em superar a desigualdade no Brasil, e por que não dizer no mundo, é inverter a partir da base familiar a lógica da troca compensatória. Lembro-me de quando me tornei pai pela primeira vez. Ao nos entregar a criança, a enfermeira chefe do hospital disse-nos: ”Esta criatura sai daqui original de fabrica”. E completou: “Evitem a chupeta, pois é a primeira compensação carregada de ilusão e mentira que o mundo civilizado oferece”.

Duas questões que você coloca concluem seu sonho: Outro mundo é possível? Podemos ter esperança? Minha formação cristã e a utopia em que minha fé se apóia me convencem a afirmar que sim. Outro mundo é possível sim, desde que nossa esperança não seja de espera, mas, como dizia o grande educador Paulo Freire, do verbo esperançar, fazendo as coisas acontecer, a partir de nossos pequenos hábitos do cotidiano. Um dos caminhos talvez possa ser o da economia solidária, que propõem uma inversão a essa lógica capitalista impregnada de cobiça que estamos imersos até o pescoço. Outro caminho é o que segue na linha de pensamento do mestre Fabio Konder Comparato e do documento 91 da CNBB: o de mobilizarmos a sociedade para semearmos juntos uma democracia participativa.

O desafio é superar a inércia, com fé ativa, contagiante e espalhando sementes de desejo de desejar uma cultura onde todos caibam, levando em conta o que diz o teólogo Jung Mo Sung: “sonhos não podem manter por muito tempo um sistema funcionando, enquanto o egoísmo pode”.

É na poesia de Raul Seixas que encontro a força solidária para partilhar contigo essa inquietude: “Sonho que se sonha só é sonho só, é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade”. Conte conosco e confie em Deus.

 

São Paulo, 06 de janeiro de 2011

Renê Roldan


 

 

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