Entre a desinformação e a insanidade – Chico Whitaker

Dia 9 de setembro último foi publicado na coluna Tendencias e Debates da Folha de São Paulo um primeiro bloco de um artigo com o titulo acima, que tinha escrito escrevi um mês antes. Coloco aqui, agora, o artigo inteiro. Pretendo desenvolvê-lo ainda mais, a partir do que está ocorrendo atualmente em Fukushima. Agradeço a quem tiver dados e disposição para me ajudar nesse trabalho.

Entre a desinformação e a insanidade

Chico Whitaker, 10 de agosto de 2013

Quando falamos, no Brasil, dos riscos das usinas nucleares, as pessoas nos olham como se fôssemos ETs desgarrados, perguntando-se, quase penalizados, o que nos teria acontecido para abordarmos assunto tão fora de hora e lugar…

E nem foi há tanto tempo que aconteceu o desastre de Fukushima! Mas nosso instinto de auto defesa logo empurra más lembranças para o esquecimento. Assim é que cada vez menos gente se recorda das 19 gramas de césio-137 que em 1985 foram retiradas, num ferro velho de Goiânia, de um aparelho de radioterapia irresponsavelmente abandonado e que mataram, até se descobrir que eram radioativas, dezenas de pessoas, provocando amputações e doenças diversas em centenas de outras.

Mas porque falar de acidentes de tão pouca probabilidade, e tão distantes no tempo e no espaço? Em vez de se deixar impressionar com esses e outros ecoterrorismos, não é mais urgente se preocupar com problemas brasileiros como a desigualdade de renda e social, a violência, a corrupção, as múltiplas insuficiências do transporte coletivo e dos serviços públicos em geral, denunciados nas manifestações de junho último? Ou porque não conversar sobre as coisas bonitas e prazerosas que também acontecem neste nosso clima ameno, ou sobre futebol?

O que acontece é que aqueles que tem a sorte (ou o azar) de serem informados um pouco mais (só um pouco já assusta) sobre o que aconteceu em Chernobyl em 1986 e continua a acontecer em Fukushima desde 2011 não podem dormir tranquilos. Menos ainda quando constatam de um lado a desinformação da grande maioria e de outro a insanidade dos que promovem o uso de reatores nucleares para produzir energia elétrica – esse modo extremamente perigoso de esquentar agua e produzir vapor para girar turbinas.

Isto é o que ocorre com um punhado de cidadãs e cidadãos brasileiros que, entre a desinformação e a insanidade, tenta persistentemente se fazer ouvir. Querem chamar a atenção das autoridades políticas – que em princípio devem cuidar do bem comum – para a tragédia que poderia atingir os mais de 30 milhões de pessoas que vivem nas cidades do Rio e de São Paulo e suas regiões – a maior concentração urbana do país – se acontecer a infelicidade de um acidente em Angra dos Reis como os de Chernobyl ou Fukushima.

Mas são como vozes que clamam no deserto, enfrentando tanto enormes interesses econômicos nacionais e internacionais que lucram com o nuclear como interesses militares que ainda sonham com o Brasil Grande: com submarinos atômicos e armas nucleares, como se este fosse o preço a pagar – alto demais… – para o Brasil integrar o seleto clube de detentores de bombas que compõem o Conselho de Segurança da ONU…

Nesse quadro é triste tomar conhecimento da escandalosa decisão da Caixa Econômica Federal (que deveria atender necessidades sociais) de emprestar dinheiro para a conclusão da terceira usina nuclear de Angra dos Reis. O governo brasileiro tinha, para isso, pedido um empréstimo a bancos europeus. Estes exigiram que o Brasil mostrasse que estavam sendo respeitadas, nessa usina, as normas de segurança da Agencia Internacional de Energia Atômica (AIEA), respondendo ao questionário da “prova de resistência” proposta por essa Agência.

Nosso governo não teve condições de fazê-lo e o empréstimo europeu não saiu. Mas numa clara demonstração de irresponsabilidade social e autismo político, esse cuidado com a vida de tanta gente pareceu desnecessário à Caixa. E nem a Lei de Acesso à Informação a fez dignar-se a responder a uma Carta Aberta, assinada por 127 cidadãs e cidadãos brasileiros, que a questionava a esse respeito.

Igualmente preocupante é a possibilidade da Presidenta Dilma ir ao Japão assinar um acordo nuclear para trazer tecnologia e equipamentos de lá, quando nossos irmãos japoneses estão entrando em pânico ao não conseguir evitar vazamentos radioativos em Fukushima…

Não seria de estranhar que nas próximas manifestações de rua em nosso país surgissem cartazes com as palavras “Pela Vida: Xô Nuclear!”

Mas que riscos efetivamente existem?

Não há obra humana 100% segura, já o dizem os próprios cientistas de bom senso[1]. Foram falhas humanas, de projeto e de equipamento que provocaram os grandes acidentes ocorridos com usinas nucleares, entre tantíssimos “incidentes” sem vítimas ou com menos vítimas: o de Three Miles Island, nos Estados Unidos, em 1979, e os “severos” de Chernobyl, na União Soviética, em 1986 e de Fukushima, no Japão, em 2011. Para complicar no caso de Angra dos Reis, os militares que iniciaram nosso programa atômico escolheram um lugar particularmente delicado para implantar as usinas: uma praia a que os indígenas locais davam o nome de “Terra Podre” (Itaorna), situada a igual distância das duas maiores cidades brasileiras.

As usinas são bombas atômicas dormentes. Sua explosão não provoca, como as bombas, a morte imediata de centenas de milhares de pessoas e a total destruição das cidades, como vimos em Hiroshima e Nagasaki. Mas, como as bombas, espalha partículas radioativas que destroem a vida humana durante muito tempo. Em Chernobyl essa difusão de partículas foi 400 vezes maior do que em Hiroshima, com uma nuvem radioativa que cobriu toda a Europa. Em Fukushima a radioatividade está se espalhando ininterruptamente no ar e no Oceano Pacifico, com o até agora incontrolado vazamento da agua utilizada para manter refrigerados o coração fundido dos reatores e a piscina onde se guarda o combustível usado, altamente radioativo.

Foi diante dessa ameaça que o governo norte-americano parou em 1979 a construção de novas usinas e determinou que se reforçasse a proteção das 104 então existentes (com mais sólidos “edifícios de contenção” das partículas expelidas de um reator que eventualmente explodisse). A AIEA propôs essa norma para todo o mundo, mas parece não ter sido seguida em Chernobyl ou Fukushima. E muito menos no Brasil, cujas usinas foram construídas (e Angra III está sendo construída) com projetos da década de 70 que não foram atualizados…

Qual a segurança que nos é oferecida no Brasil? O plano de evacuação em caso de acidente cobre míseros 5 quilômetros em torno das usinas, quando a cidade de Angra, com seus 170.000 habitantes, está a 15 quilômetros e a evacuação feita em Fukushima compreendeu um raio de 30 quilômetros (ao mesmo tempo em que os cidadãos norte-americanos vivendo no Japão foram instruídos pelo seu governo para se afastarem 90 quilômetros…). Entende-se porque o governo brasileiro não foi capaz de responder à “prova de resistência” proposta pelos europeus. É o tipo de situação em que quase caberia uma intervenção das Nações Unidas, em nome da defesa da Humanidade.

Mas o problema não é somente o da possibilidade dessas explosões. Os reatores desintegram átomos de urânio para produzir calor, e nesse processo nascem novos tipos de átomos radioativos. O mais perigoso desses “filhos” do urânio, produzidos artificialmente pelos reatores, é o Plutônio (ou Deus dos Infernos, na mitologia grega), que só existe na natureza a nível de traço e que leva 24.100 anos para perder a metade de sua radioatividade (as pirâmides do Egito têm em torno de 2.500 anos…). Um único miligrama de Plutônio é fatal para um ser humano.

Ora, a produção desses elementos radioativos é ininterrupta com o funcionamento dos reatores, gerando grandes quantidades desse “lixo atômico”. O que fazer com ele? No fim de 2006 a França, país cuja matriz energética é extremamente dependente dos seus reatores nucleares, tinha 294,2 toneladas de plutônio estocado, apesar de seus cientistas até já terem descoberto uma forma de reciclá-lo – mas uma só vez e em pequena quantidade…[2] E estão sendo construídos 320 km de tuneis a 500 metros de profundidade, para guarda-lo “para a eternidade”, como eles dizem.[3]

Dentro da atual tecnologia, esse “lixo” é retirado dos reatores como combustível usado e é depositado em piscinas permanentemente refrigeradas (para que não venha a explodir) no prédio dos reatores. Na piscina do prédio do reator que explodiu em Fukushima já estão acumuladas 264 toneladas de combustível usado, contendo dez vezes mais césio-137 do que o que se propagou em Chernobyl – o mesmo elemento radioativo do qual 19 gramas infelicitaram Goiânia. No Japão se teme que “algo pior possa ainda acontecer”, segundo o título de reportagem de publicação francesa[4] sobre as piscinas do reator que explodiu.

E em Angra? Temos também nossas perigosas piscinas, não há remédio, uma vez que os reatores estão funcionando… Mas que se saiba nem sombra de projeto de tuneis ou outra solução para o depósito definitivo (qualquer solução será sempre extremamente cara, mais talvez do que as obras da Copa do Mundo…). Quase cinicamente, nossos nucleocratas falam em fazer licitações entre municípios que disputem a “vantagem” de permitir que lixo atômico seja neles depositado…

Da ignorância inicial à desinformação intencional

A radioatividade, que se torna uma ameaça permanente pela possibilidade de difusão dos elementos radioativos produzidos continuamente pelos reatores nucleares (ao desintegrarem átomos para gerar calor), é um fenômeno da natureza descoberto há pouco mais de cem anos. Com ela desde sempre convivemos, sem nem perceber, porque não é detectada por nenhum de nossos cinco sentidos. Nem a “natural” que vem do solo em doses não prejudiciais, nem a que vem do cosmos e hoje obriga os tripulantes dos aviões – a maior parte deles aliás pouco conscientes disso… – a voar por períodos de tempo limitados, para que tais radiações não lhes façam mal. Mas quando as usinas nucleares nos entregam toneladas de “lixo atômico”, a questão muda de figura. E a desinformação passa a ser um problema.

Tal desinformação não é um dado novo. Ela marcou a própria história da radioatividade, pela ignorância que inicialmente existiu sobre seus efeitos no corpo humano, quando os cientistas pareciam gostar de se tornarem aprendizes de feiticeiro. Foi a manipulação de elementos radioativos que levou à morte por leucemia a cientista polonesa Marie (Marya Sklodowska), que descobrira a radioatividade com o físico francês Pierre Curie, seu marido, pelo que receberam o Prêmio Nobel de 1903. O mesmo ocorreu com Irène, filha do casal e também física, que, igualmente com seu marido (Frederic Joliot) ganhou o Prêmio Nobel de 1935, por descobrir a forma de criar artificialmente elementos radioativos, com o que se abriu de vez, por assim dizer, a jaula do diabo.

Mas Pierre Curie, ao discursar no recebimento do Prêmio Nobel, já falou dos efeitos benéficos da radioatividade assim como dos seus riscos: “Pode-se pensar que o rádio em mãos criminosas poderá tornar-se muito perigoso, e aqui pode ser levantada a questão se a humanidade se beneficia em conhecer os segredos da Natureza, se ela está pronta para lucrar com isso ou se esse conhecimento não lhe trará prejuízo”.

Durante muito tempo, no entanto, a radioatividade foi vista só como um remédio para muitos males e um fenômeno interessante para muitos usos. Foi pouco a pouco que se pensou em seu controle. Como quando por exemplo descobriu-se que operarias de uma indústria norte-americana contraíram doenças por afinarem com os lábios os pinceis com a substância radioativa que tornava luminescentes os números e ponteiros dos relógios que fabricavam.[5] Ou quando se tornaram necessários, na Guerra Fria, Tratados Internacionais de interdição de testes nucleares, ao se constatar que as explosões espalhavam muita radioatividade: um primeiro em 1963 autorizando somente os testes subterrâneos, e um segundo em 1996, proibindo-os completamente.[6]

Entre os mais de 2.000 testes feitos até então, 400 foram realizados pela União Soviética no Cazaquistão. Hoje um importante militante da luta mundial contra armas nucleares é um pintor desse país, Karipbek Kuyukov, que segura seus pinceis com a boca porque não tem os dois braços: sua mãe, moradora da região, tinha sido contaminada quando grávida.

A passagem da ignorância à desinformação intencional se deu quando o estudo da energia atômica se tornou um segredo militar: estava sendo descoberto o inacreditável poder destruidor da desintegração do átomo, que foi provado com as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Alguns anos depois, em 1953, os riscos que o mundo passou a conhecer, com a corrida armamentista da Guerra Fria, levaram o Presidente norte americano Eisenhower a lançar o programa “Átomos para a Paz”, para tentar desviar a pesquisa nuclear da fabricação de bombas – pelo menos pelos inimigos dos Estados Unidos… Ora, um dos usos “pacíficos” que resultaram desse programa foi a construção de usinas nucleares para produzir energia elétrica. E o segredo passou a cobrir também essa atividade, porque ela se transformou em um novo negócio – e “o segredo é a alma do negócio”. Mas também porque a tecnologia usada nas usinas era basicamente a mesma das bombas…

Desse segredo se passou à desinformação intencional quando se constatou que acidentes às vezes graves eram possíveis e que se tornava necessário evitar o pânico que pode ser provocado pelo real conhecimento dos problemas potenciais do uso da energia nuclear[7] – como o que está aparecendo hoje no Japão, com os vazamentos incontrolados de radioatividade em Fukushima. É por essa razão que os insanos construtores de usinas nucleares continuam a repetir incessantemente os mitos da tecnologia nuclear como o modo mais limpo, mais barato e mais seguro de se produzir energia elétrica. Ao mesmo tempo em que cooptam jovens que rapidamente se deslumbram com a generosidade das bolsas de estudo que lhes são oferecidas e com a possibilidade de integrar a corporação civil e militar cujo orgulhoso poder técnico estaria apto a resolver todos os problemas que surjam.

Como eles bem sabem que as coisas não são exatamente como dizem, os responsáveis nucleares se tornam então zelosos guardiães do segredo e profissionais da mentira[8]. Qualquer notícia ou informação sobre o nuclear é controladíssima e pouquíssimo se fala das ameaças do “lixo atômico” que está sendo fabricado há anos em Angra, e que deixaremos como herança maldita para muitas gerações de nossos descendentes.

Por tudo isso, no mundo dos cientistas nucleares, os críticos mais ferinos da opção nuclear para a produção de energia elétrica chamam seus colegas envolvidos nesse grande engano não de nucleocratas mas sim de nucleopatas.

Da luta nacional ao despertar internacional

Com a desinformação e a insanidade prevalecendo no Brasil, muitos dados do que ocorreu em Chernobyl e Fukushima são escondidos e refutados pela corporação dos partidários da opção nuclear, que a defendem como se fosse necessária e indiscutível. Eles acreditam quase religiosamente na capacidade da tecnologia resolver problemas difíceis como o do lixo das usinas, tranquilamente empurrado para diante, no Brasil, pelas autoridades encarregadas do setor nuclear. E menosprezam – até com prepotência – os que “não entendem do assunto” e insistem em relembrar acidentes que infelicitam centenas de milhares de pessoas e interditam extensos territórios, ou em levantar dados que desmontam os mitos por eles criados, como sobre o custo das usinas se a ele agregarmos o da descontaminação desses territórios, calculado no Japão em 600 bilhões de dólares[9], ou o da desmontagem das usinas “de prazo vencido” ou que explodiram, que leva de 20 anos a 40 anos para ser feita e custa quase o mesmo que as próprias usinas…

Até médicos são cooptados por essa corporação, sob as asas das Nações Unidas: é difícil ignorar o aumento de casos de câncer de tiroide nas crianças da Ucrânia e Bielorrússia, ou a enorme diminuição da porcentagem de crianças sadias nessa região, mas para a Organização Mundial da Saúde (OMS) nunca se poderá provar que foi a difusão de radioatividade de Chernobyl que provocou esta ou aquela doença: obviamente há sempre múltiplos fatores que as explicam, e é preciso minimizar os efeitos dos acidentes para não prejudicar a imagem do nuclear… Na verdade, como no organograma da ONU a AIEA controla as afirmações da OMS, dela pouco se pode esperar, uma vez que a própria AIEA teria que nos proteger mas quando foi criada seu objetivo era o de promover a energia atômica. O que corresponde precisamente ao erro de que nos adverte a sabedoria popular: não se pode encarregar a raposa de cuidar do galinheiro…

Felizmente no entanto – para não desanimarmos frente a tantos dados negativos – o movimento anti-nuclear brasileiro tem em quem se apoiar, fora do Brasil: está ocorrendo nos países ricos do mundo um verdadeiro despertar de cidadãos e governos frente à insanidade que os fez adotar a opção nuclear e em certos casos, como a França, a nela mergulhar inteiramente.[10]

Como não poderia deixar de acontecer no sistema capitalista que domina o mundo, este despertar já ativou as defesas dos interesses econômicos: a indústria nuclear já está procurando garantir um mercado nos países emergentes e pobres, para os quais possa vender equipamentos ultrapassados e transferir tecnologia condenada. Dois exemplos: o primeiro é o de um eventual Acordo Nuclear Brasil-Japão, um dos temas a serem discutidos pela Presidenta Dilma em viagem àquele país, a que já me referi (as manifestações de junho já nos salvaram uma vez, ao levarem a Presidenta a suspender a viagem que então faria…). O segundo é o de uma proposta quase incrível da Rosatom, da Rússia, de vender usinas “chave-na-mão”. Eles se propõem a construi-las nos países interessados, administrá-las, fornecer o combustível e retirar o lixo…

Mas para mostrar como podemos nos apoiar na solidariedade antinuclear internacional, organizações japonesas já começam a protestar contra a exportação de tecnologia japonesa para o Brasil (e também para o Vietnam, Turquia e outros países do Terceiro Mundo), quando sua indústria nuclear não está sendo capaz de resolver seus próprios problemas. Elas só esperam que organizações brasileiras façam o mesmo, concomitantemente.

O mesmo acontece na Alemanha, onde parlamentares daquele país já levantam a possibilidade de denunciar o acordo nuclear Brasil-Alemanha, que expira em 2015 e que não faz sentido renovar, já que o governo alemão decidiu acabar, em seu país, com a produção de energia elétrica com usinas nucleares. Parlamentares brasileiros não poderiam tomar essa iniciativa por aqui e articular-se com seus colegas alemães? Propondo inclusive um novo Acordo Brasil Alemanha, agora em torno da tecnologia da energia solar, na qual a Alemanha faz enormes avanços e que constitui uma potencialidade energética inestimável em nosso país. Como também outro acordo comercial com o Japão, em torno da energia eólica, na qual os japoneses estão também investindo bastante.

É nesta direção que apontam tomadas de posição que começam a aparecer no cenário internacional, como a Declaração de 70 Prêmios Nobel Alternativo e membros do Conselho Mundial do Futuro, de diversos países, divulgada em 16 de julho último. Eles se dirigiram a todos os governos instando-os a abandonar definitivamente a produção de energia elétrica com usinas nucleares, por três razões principais: os riscos de acidentes, o problema do lixo atômico e o fato dessa tecnologia ser uma porta aberta para a proliferação de armas nucleares. E aconselham os governos a dirigir pesquisas e investimentos para fontes alternativas de energia.

Essa Declaração pede também que, nesse sentido, sejam interrompidas todas as negociações comerciais visando a exportação de tecnologia e equipamentos nucleares – que aliás já começam a entrar em clima de disputa na concorrência entre franceses, japoneses e russos, pelo menos, para controlar esses mercados. Sendo que, sem que ninguém fique sabendo muito dessas coisas, os argentinos (cuja indústria nuclear está mais avançada que a do Brasil) já exportaram sua tecnologia para a Argélia, Egito, Peru e Austrália. Enquanto a Rosatom russa conta com o Brasil para instalar, a partir daqui, uma base de exportação de seus produtos para o resto da América Latina.

Diante de todo esse quadro, os Prêmios Nobel Alternativo da América Latina, por sua vez, também assinaram no começo de Julho último outra Declaração na mesma perspectiva da já citada, na qual propuseram que, de baixo para cima em cada um de nossos países, cidadãos e governos locais comecem a declarar a área de sua jurisdição como Território Livre de Usinas Nucleares, de depósito de lixo atômico e de trânsito de materiais radioativos.

***

Em minha formação de jovem estudante católico um dia me disseram que a maneira mais triste de nos afastarmos de Deus – ou seja, de pecar, como se dizia antigamente – era pela omissão diante de um dever ético. Será que algum dia poderei descansar com a consciência tranquila, porque conseguimos finalmente acordar nossos concidadãos e convencer nossos responsáveis políticos de tomar medidas que evitem que um dia eles se tornem autores de um crime atroz anunciado? Ou será que devemos simplesmente aceitar o que dizia um bondosíssimo pároco a alguém que se opunha à construção, nos anos 80, da pretendida primeira usina nuclear do Brasil, em Jureia, no sul do Estado de São Paulo: não há que se preocupar com os efeitos letais das usinas; um dia todos teremos que morrer…[11]


[1] Não há reatores totalmente seguros. É ilusão pensar isso”, disse o físico José Goldenberg, ex-reitor da USP, em entrevista em julho de 2011 ao jornal Metro Campinas.

[2] É o combustível MOX, feito de plutônio e urânio, que estava sendo usado em Fukushima.

[3] Ver « La vérité scientifique sur le nucléaire », de Chantal Bourry, edições Rue de l’échiquier, 2012.

[4] Reportagem de Vincent Jauvert, enviado especial do Nouvel Observateur ao Japão, publicada em 23 de agosto de 2012.

[5] Caso relatado pela professora da USP Emico Okuno em seu livro Radiação – Efeitos, Riscos e Benefícios (editora Harbra, 2007)

[6] Alguns países ignoram esse Tratado, como foi o caso recente da Coreia do Norte.

[7] A expressão “não podemos criar pânico” foi usada em Relatório de Grupo de Trabalho da Câmara Federal sobre Fiscalização e Segurança Nuclear (Centro de Documentação e Informação da Câmara dos Deputados, Brasília 2007). Este Grupo de Trabalho analisou a possibilidade real de se repetirem no Brasil acidentes como o de Goiânia.

[8] Bons exemplos da manipulação da verdade em torno do nuclear, também fora do Brasil, são dados em livros como o de Corinne Lepage, ex-Ministra francesa do Meio Ambiente,  La verité sur le nucleaire – Le choix interdit, publicado em junho de 2011, Albin Michel.

[9] Segundo Delfim Neto, em artigo publicado na CartaCapital de 19 de julho de 2012, correspondendo a “algo como um quinto do PIB nacional”)….

[10] Um bom indicador desse despertar é a matéria do semanário inglês “The economist”, de 10 de março de 2012, de autoria de Oliver Morton, com o título “O sonho que acabou” (“The dream that failed”), também publicado na CartaCapital de 21 de março do mesmo ano, com o título “Energia nuclear, uma alternativa fracassada”.

[11] Testemunho dado pelo Professor da USP Alfredo Bosi, que se engajou na luta, vitoriosa, contra a usina de Jureia.

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