Porque a corrupção? Chico Whitaker

Porque a corrupção?

Chico Whitaker

 

“O menino será enterrado neste sábado (4). Um dia antes, a família gastou R$ 628 com caixão e coroa de flores. “O último dinheirinho que a gente tinha”, afirmou a mãe do menino”. (Cotidiano da Folha de São Paulo de 4 de junho de 2016, em matéria sobre o menino de 10 anos morto pela PM no dia anterior)

 

Vivemos hoje no Brasil uma grande tomada de consciência de como a corrupção se espalhou pelo país. As “operações” da Lava Jato nos surpreendem a cada dia com novas revelações sobre esquemas e esquemas montados para desviar dinheiro público em benefício próprio. Ao mesmo tempo somos surpreendidos com informações como a de salários acima de todos os tetos estabelecidos, recebidos tranquilamente por funcionários do Estado porque não há lei nenhuma que os impeça, esperteza que corresponde a mais uma das muitas formas de corrupção.

Mas o problema não é somente brasileiro: no mundo inteiro, até nos chamados “países desenvolvidos”, a corrupção corre solta. Muita gente não pode senão se perguntar: é possível acabar com esse mal que parece ser universal?

Há os que o explicam do modo mais simples: ele faz parte do sistema capitalista. Mas na China, último grande bastião socialista no mundo, o governo não está tentando acabar com a corrupção até com a pena de morte? E o que se conta do final desse regime na União Soviética não aclara porque em seguida surgiram as já famosas “máfias russas”?

Só posso achar que esse autêntico drama foi sendo construído ao longo de séculos, à medida em que algo produzido pela inteligência do ser humano acabou por dominá-lo: o dinheiro. Foi uma invenção genial – era impossível fazer comercio tendo que levar consigo o boi a ser trocado pelo arroz. Mais prático trazer na algibeira algo que representasse o valor do que se pretendia comprar ou vender. Mas a criatura passou a dominar seu criador.

De instrumento de troca o dinheiro se transformou em meio para sobreviver, para ter prazer e comodidade ou para obter prestigio e admiração, para conseguir remédios ou segurança na velhice, para alugar o trabalho de outros enquanto se dorme um pouco mais. Hoje em dia até para sermos enterrados temos que gastar “o último dinheirinho que a gente tinha”.

Dispor de dinheiro é de fato o grande problema de todos os seres humanos, que muitas vezes não os deixa dormir de tanta preocupação ou até pode leva-los ao suicídio, em nossas sociedades quase totalmente urbanizadas. Mas quando conseguimos acumular um pouco, percebemos o poder que ele nos dá e nos tornamos gananciosos. Para em seguida ficarmos insaciáveis.

A grande maioria no entanto mal chega a isso. A solução então adotada e valorizada como a mais digna, no sistema econômico em que vivemos, é a de trabalhar, entendida esta atividade como venda do seu tempo (de vida) para quem possa pagar por ele. Mas isto custa suor e cansaço quando se tem que usar mãos e braços ou a cabeça. Outra saída possível seria a de arrancar dinheiro violentamente de outros que o tenham, mas isto pode ser arriscado. E deixar de pagar tudo que o trabalho alugado teria que receber pode levar à revolução.

O modo mais fácil e seguro de se conseguir dinheiro acaba sendo o de esquecer o mandamento moral transmitido por Deus a Moisés, há muito mais de 2.000 anos: “Não furtarás”. Especialmente se tivermos acesso aos cofres abarrotados do governo, que recolhe dinheiro de todos, sistemática e compulsoriamente. Quando então somos tomados pela sede de conseguir sempre mais do chamado vil metal.

Há gente pelo mundo afora tentando inventar formas de nos livrarmos dessa dependência. Por exemplo algo que não pode ser criado nem por bancos nem por governos e serve somente para facilitar as trocas, a que deram o nome de “moeda social”. Até no Brasil há experiências desse tipo, nos chamados Bancos Comunitários, como o “Banco Palmas” numa favela de Fortaleza. Essa moeda não chega a nos libertar do dinheiro “oficial” mas reduz seu poder de dominação. E o mais interessante é que ativa a economia porque tem que ser gasta: se for guardada (entesourada) perde seu valor, já que é somente um símbolo, sem valor em si.

Mas os economistas, que poderiam estudar e multiplicar tais experiências (há até propostas de moedas sociais internacionais), não acreditam nisso ou não conseguem pensar livremente. Preferem continuar seu ramerrão recebendo sua parte trabalhando para os banqueiros, que transformaram o mundo numa praça de especulação financeira e ganham rios de dinheiro guardando e emprestando – como vorazes e impiedosos agiotas – o dinheiro dos outros.

O que fazer? Aceitar a submissão ao dinheiro e aos “falsos moedeiros”? Continuar a se impressionar com a criatividade ilimitada dos que optam pelo mais fácil dos furtos, que é a corrupção?

05/06/2016

 

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