Celebração do Jubileu de Ouro do Cardeal Arns, em 2 de Julho de 2016. Chico Whitaker

Palavras de Chico Whitaker, na celebração do Jubileu de Ouro do Cardeal D. Paulo Evaristo Arns como Bispo da Igreja Católica, na Catedral de São Paulo em 2 de Julho de 2016.

 

Como homenagear D. Paulo hoje, na comemoração dos 50 anos de sua sagração como Bispo?

Considero que a melhor maneira é lhe dizer que continuaremos seguindo suas orientações, por mais exigentes que sejam. E que esperamos fazer de novo esse compromisso com sua presença entre nós ainda por muito tempo.

Sem nunca escolher as circunstâncias em que nascemos, nós, humanos, podemos muda-las ao longo de nossas vidas.

Nesse sentido, uma primeira orientação que D. Paulo nos deu foi a de que não tenhamos medo. E ele não o disse, ele o fez. O que é em si mesmo uma orientação. Nossos atos é que confirmam nossas escolhas. Ele nos dizia, sempre que se despedia da gente: “Força e coragem!”

Como um guardião dos Direitos Humanos, ele enfrentou corajosamente o poder político numa das piores fases de nossa história, a da dominação do país por um regime militar, capaz de torturar e assassinar para manter seu poder. E escreveu um livro – Brasil, Nunca Mais – que anunciava o que temos que visar: nunca mais a Ditadura, sempre a Democracia, mesmo imperfeita.

D. Paulo deixou também bem clara outra orientação, na quarta-feira de cinzas de 1996, na entrevista de imprensa do lançamento da Campanha da Fraternidade sobre Fraternidade e Política. Eu estava aqui, nesta Catedral, e me lembro muito bem quando ele disse: “não fazer política é a pior forma de fazer política”. Ele respondia aos jornalistas que estranhavam a Igreja estar se intrometendo numa seara que, segundo eles, não seria a dela, como muita gente infelizmente ainda pensa.

Como se nossa religião pudesse aceitar que se dividisse a população do país em cidadãos e não cidadãos, gente vivendo em mansões e gente morrendo nas ruas, brancos com todos os direitos e negros empurrados para as favelas, crianças e jovens – pobres e negros – assassinados nas periferias.

Ele lembrava um teólogo francês, o Padre Lebret, que dizia, nos idos dos anos 50, que o pecado mais grave era o pecado da omissão diante da desigualdade e da miséria. E desse pecado não estavam imunes nem mesmo os padres, os religiosos e religiosas, os pastores e pastoras, os bispos – um dia, quem sabe, ainda teremos “bispas” na Igreja Católica – a quem as comunidades cristãs confiam a função de acordar os leigos e nos estimular a agir.

D. Paulo também deu uma orientação importante aos leigos e leigas da Arquidiocese – em nome de quem me foi pedido que hoje falasse, ainda que não possa pretender representa-los a todos: organizem-se em Comunidades Eclesiais de Base. Ultrapassados os anos de chumbo, ele consagrava grande parte de seu tempo à vida das CEBs. Ao ponto de lhes dar o poder de decidir os rumos da Arquidiocese, ao pedir que definissem, nas Assembleias Gerais anuais, quais deveriam ser as prioridades de toda a comunidade cristã.

Era sua consciência de que em nosso país, tão desigual, se vivia desde sempre uma disputa política entre classes sociais, e que o povo pobre só teria poder se organizado, não necessariamente em partidos, mas unidos como irmãos, conscientes de seus direitos e agindo democraticamente para que fossem respeitados.

Estamos hoje vivendo um momento difícil de nosso país, decorrente de uma situação estranha: nas alianças políticas a que estamos obrigados numa democracia, elegemos um Vice-Presidente e uma maioria congressual que representam interesses e objetivos muito diferentes – e às vezes até mesmo opostos – aos da Presidente eleita.

Como seguir as orientações de D. Paulo em circunstâncias negativas especialmente para os mais pobres, para o combate à corrupção e para a superação de um sistema econômico que está levando o mundo a impasses sociais e desastres ambientais? Votos de que sejam passageiras e logo possamos retomar o caminho do pleno respeito às regras do funcionamento da democracia.

A orientação de D. Paulo que eu lembraria, frente à situação que vivemos agora, foi fixada nos dizeres de seu emblema episcopal: de Esperança em Esperança. A vida é cheia de altos e baixos, sucessos e derrotas, alegrias e tristezas. Mas depois de cada momento difícil, se persistirmos, a Esperança renasce, imortal. E com ela a possibilidade de um mundo novo, de paz e de justiça, de igualdade social, de respeito à Dignidade e à Vida – dos seres humanos e de toda natureza – de cooperação, solidariedade, ternura, em uma palavra, de Amor. Lutemos pelo que consideramos justo, não esmoreçamos.

Muito obrigado, D. Paulo. Fique tranquilo, ainda que nos custe, continuaremos seguindo suas orientações.

 

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