Exposição no Senado Federal sobre os riscos da usina de Angra 3 – Chico Whitaker

Exposição em audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado

Chico Whitaker, 29 de novembro de 2016

Senhoras Senadoras e Senhores Senadores,

Antes de mais nada, agradecendo o convite para participar desta audiência sobre o risco potencial de um acidente nas Usinas de Angra dos Reis, convém que eu diga a que título vou me expressar.

Não sou físico nem engenheiro nuclear. Minha formação universitária é de arquiteto-urbanista e minha experiência profissional é de planejamento, em diferentes áreas. Participei de atividades políticas – tendo pago os atrevimentos de jovem com 15 anos de exilio – e cheguei a ser parlamentar, mas somente a nível municipal. Falo portanto como um simples cidadão.

Meu contato com a questão nuclear é bastante recente, desde o acidente ocorrido nas usinas de Fukushima, no Japão, em 2011. Até então tinha um conhecimento bastante limitado sobre o uso da fissão nuclear – e dos subprodutos dessa fissão – para fins militares e civis.

Mas a dimensão desse desastre, após o tsunami, me levou à obrigação, a mim e a outros cidadãos e cidadãs, de procurar saber qual era o risco que corríamos, com duas usinas a uma distância relativamente curta de São Paulo e do Rio, e o que poderia ser feito para evitar o drama de um acidente nuclear, nesta ou em qualquer outra região do Brasil.

Comecei a ler, ouvir, perguntar, participando de eventos a respeito, viajando, visitando Fukushima e Angra. Logo no início uma entrevista do professor Goldenberg me alertou para o óbvio – contraditório com as certezas dos responsáveis pelo nuclear, no Brasil e outros países: não há obra humana 100% segura. Fiquei surpreso ao ouvir físicos nucleares franceses dizerem que uma usina nuclear para produzir eletricidade não é senão uma forma extremamente sofisticada e perigosa de esquentar agua e produzir vapor que faça turbinas girarem. E fiquei intrigado com o modo como se referiam ao acidente de Chernobyl: ele não teria acontecido em 1986: ele teria é começado em 1986…

Mas vou poupar os senhores senadores e senadoras do relato desse meu aprendizado – em que fiquei sabendo de muita coisa que seria muito melhor se mais gente conhecesse – para não me afastar dos objetivos desta audiência. Vou relatar coisas que estão acontecendo em nosso país, escondidas do conhecimento geral, como um roteiro de filme de suspense, que espero não se transforme em filme de horror.

* * *

De fato, eu sabia, como toda pessoa minimante informada, do extraordinário poder destrutivo das bombas atômicas, que se reduziram a armas de dissuasão mas cuja quantidade, já fabricadas e prontas para serem usadas, ainda ameaçam a sobrevivência de nossa espécie.

Mas conhecia muito pouco – como as pessoas em geral – o programa Átomos para a Paz, lançado pelo Presidente Eisenhower, do qual decorreu o boom de construção de usinas nucleares para produzir eletricidade e de reatores nucleares para produzir isótopos para uso medicinal, industrial e agrícola.

Como a maioria dos brasileiros, tinha um conhecimento superficial do drama de Goiânia em 1987, em que a radioatividade de 19 gramas de césio-137, um dos subprodutos da fissão do urânio, usado para fins medicinais, provocou a morte quase imediata ou posterior de um grande número de pessoas. E o sofrimento, que continua até hoje, de muitas outras, como a Folha de São Paulo mostrou em entrevista recente com a mãe de uma das vítimas fatais.

Eu não sabia que o acidente de Chernobyl cobriu toda a Europa com uma nuvem radioativa carregada, entre outras partículas, do césio 137 que infelicitou Goiânia. Fiquei sabendo que territórios enormes tinham sido interditados à presença humana, e que o câncer da tiroide mata crianças até hoje.

Fui informado de que, para proteger o público do pânico ou para não desacreditar o nuclear, a Organização Mundial da Saúde, que cuida das vítimas dos acidentes, tem um convenio com a Agencia Internacional de Energia Atômica pelo qual não pode publicar nenhum relatório que não tenha passado pelo crivo e censura dessa agência esquizofrênica, porque criada para promover o nuclear mas encarregada também de fiscalizá-lo.

Fiquei sabendo ainda que nenhum país teria a capacidade financeira para evacuar todos que deveriam ser evacuados depois de um acidente e lhes prestar a assistência necessária em moradia, emprego, atendimento médico e psicológico, etc e que por isso os governos tomam a incrível decisão de convencer a população a permanecer ou voltar para áreas contaminadas e retomar sua vida normal, como se isso fosse possível. Chegam até a força-la a isso, retirando por exemplo os auxílios daqueles que não queiram voltar… Para o que se criam programas especializados no trabalho de convencimento da população atingida, como o ETHOS em funcionamento em Chernobyl e Fukushima e o SAGE preventivamente na França (já que a própria autoridade encarregada da segurança nuclear nesse país declara que só não se sabe quando nem onde um acidente grave nele ocorrerá…).

Aproximando-me mais de Angra, confirmei a informação, que já tinha, de que o nome dado pelos indígenas locais à praia em que as usinas foram construídas – Itaorna – quer dizer pedra podre. O que explicava todo o enorme estaqueamento que foi necessário para construir Angra 2, esperando-se que nada ocorra em Angra 1, construída sem esse cuidado, mas numa região sujeita a muitos deslizamentos nas encostas.

Fui melhor informado da origem militar do programa nuclear brasileiro e do fato de que os equipamentos de Angra 3 foram importados no início dos anos 80 e encontram-se há 30 anos encaixotados na praia de Itaorna, desde que a construção da usina foi suspensa. Espera-se que seu estado ainda seja satisfatório. Fiquei também muito impressionado com a precariedade do chamado Plano de Emergência, a ser acionado em caso de acidente.

***

Antes no entanto de começar meu relato do que ocorreu no Brasil eu lhes direi algo que está ocorrendo lá fora mas nos interessa aqui e agora, de que fiquei sabendo muito recentemente. Até na França, país que se orgulha de sua tecnologia nuclear, que assegura 75% da eletricidade do país, e também de sua “cultura da segurança”, essencial em atividades perigosas, ocorrem coisas inacreditáveis, como a falsificação de certificados de conformidade de peças de reator nuclear! E isto não para peças secundárias mas para aquelas classificadas como devendo ser indestrutíveis, dada a sua importância para a segurança. Essa descoberta foi feita em peças da usina de Flamanville, a mais moderna daquele país, ainda em construção. O que obrigou a que fosse postergado por mais alguns meses o seu termino, com um custo que já ultrapassou largamente todas as previsões.

E o que é pior: descobriu-se que essas fraudes ocorreram desde 1965, em 32 dos 58 reatores franceses (ou seja, 55% dos mesmos). O que levou à decisão, tomada há poucas semanas, de parar 18 usinas, num início do inverno, em que aumenta o consumo de eletricidade; e o prazo para a retomada do funcionamento será longo.

Senhoras e senhores Senadores, isto nos atinge: tais peças tinham sido também exportadas, e um dos países que as recebeu foi o Brasil, para a usina de Angra 2. O mínimo que esta Comissão do Senado deveria fazer é questionar nossas autoridades sobre suas providências para verificar, como se faz agora em 18 das usinas francesas, se as peças que aqui vieram contém os defeitos escondidos. Com a urgência necessária, porque acidentes ocorrem quando menos se espera.

***

Mas na estória que tenho a contar, o que mais me assustou, no meu aprendizado sobre o nuclear e sobre Angra, foi saber dos riscos que cercam a construção de Angra 3. Tomei conhecimento deles ao ler artigos do engenheiro Sidney Rabello, da Comissão Nacional de Energia Nuclear, aqui presente, publicados no Jornal do Brasil. O tema desses artigos é o caráter obsoleto do projeto da usina de Angra 3.

Depois de ler esses artigos fiz muitas perguntas ao engenheiro Sidney, para entender melhor o funcionamento e a segurança das usinas. E aprendi muito, como sobre os tipos de falhas que podem surgir na operação de uma usina.

Tais falhas podem ser simples e múltiplas. As simples – como por exemplo um defeito na bomba diesel que deverá fornecer agua para o resfriamento do reator, em caso de superaquecimento – podem ser mais facilmente resolvidas. No caso do exemplo, se aplica diretamente o princípio da “redundância”: instalam-se sempre nas usinas duas bombas com essa função, para que pelo menos uma delas funcione. E de marcas diferentes, para evitar a eventualidade do mesmo defeito ocorrer nas duas.

O grande risco é o das falhas múltiplas, que se encadeiam umas nas outras, com problemas que surgem de forma extremamente rápida, tornando sua previsibilidade quase impossível, no complexo sistema de controle do calor e da pressão.

Os acidentes costumam ser classificados em incidentes e acidentes, segundo seu grau de gravidade. Mas essa classificação é demasiadamente simplificada, porque entre os acidentes resultantes de falhas múltiplas há aqueles de um grau de gravidade especialmente alto: um aquecimento excessivo derrete algo e faz o mostrador de controle deixar de funcionar e um determinado tubo se romper, levando circuitos ou mecanismos a pararem; se nesse momento os operadores deixarem de acionar um determinado botão ou o acionarem indevidamente, o calor sobe muito depressa, a pressão se altera, o combustível do reator se funde e reações químicas o fazem explodir.

Esse é um tipo especial de acidente, o chamado acidente severo, que pode se iniciar até por pequenos descuidos ou erros dos operadores, por falhas mecânicas ou eletrônicas da aparelhagem ou por acidentes naturais como inundações, terremotos ou tsunamis, que se combinam e levam até a perda total do controle, pelos operadores, do que se passa na usina. Sua explosão provoca então a dispersão no meio ambiente de quantidades incomensuráveis de partículas radioativas, resultantes da função básica do reator que é quebrar átomos de urânio. Foi assim com a nuvem radioativa que, a partir de Chernobyl, cobriu toda a Europa, nela disseminando mil vezes mais partículas radioativas que a bomba atômica de Hiroshima.

E é essa dispersão de partículas radioativas que torna o acidente nuclear especialmente grave, porque seus efeitos continuam no tempo. Não é como um acidente de carro, de avião, um desmoronamento, que fazem por vezes muitas vítimas. Nós as choramos, fazemos seu luto, mas a vida dos que ficam tem que continuar. No acidente nuclear severo a vida no lugar em que ocorreu e dos que são por ele atingidos não poderá continuar como antes. E isto por muitos anos, isto é, por todo o tempo em que as partículas disseminadas continuarem a emitir radiações – o que pode ocorrer, com algumas delas, por milhares e mesmo milhões de anos.

As pessoas contaminadas por essas partículas, ingerindo-as ou aspirando-as, têm sua vida abreviada, mais ou menos rapidamente. E seus descendentes podem nascer com malformações. As que recebem somente radiações – vindas da terra, das plantas ou de objetos contaminados – terão também maiores ou menores problemas de saúde. E por essa razão grandes territórios serão interditados à presença humana por tempo quase indefinido. Para diminuir a área dessa interdição, será preciso retirar camadas de terra da superfície e leva-la a depósitos inaccessíveis sem proteções especiais, e cobrir com concreto as áreas que devam ser usadas.

Esse quadro explica porque o que ocorreu em Chernobyl e Fukushima não é chamado simplesmente de acidente mas mais propriamente de catástrofe – social, ambiental e econômica.

Até o acidente desse tipo ocorrido em Three Miles Island, em 1979 nos Estados Unidos – que aliás não chegou à fusão completa do reator e não explodiu – esses acidentes tecnicamente chamados de severos eram considerados possíveis mas improváveis. Viu-se no entanto, com esse acidente, que ele não podia ser evitado, apesar de probabilidades mínimas.  E de fato ocorreu outro, poucos anos depois, em 1986, na União Soviética, em Chernobyl. Era necessário portanto muito mais cuidado, dadas as suas trágicas consequências.

O exame dos meios e recursos para evitar acidentes severos ou pelo menos mitigar seus efeitos passou então a ser um dos capítulos mais importantes – o capitulo 19 – das análises de segurança que devem preceder o início de funcionamento de toda e qualquer usina nuclear.

Ora, o engenheiro Sidney Rabello, aqui presente, era nos idos de 2007 e 2008 o responsável por um dos inúmeros pareceres técnicos – quase cem – que a Comissão Nacional de Energia Nuclear estava reunindo para licenciar a usina de Angra 3. No parecer que então redigiu – e que foi revisto como de praxe por um colega seu de mesmo nível técnico e aprovado pelo chefe imediato dos dois – ele disse que a construção de Angra 3 não podia ser retomada sem que seu projeto fosse revisto considerando o referido capitulo 19, com todas as novas normas existentes, inclusive as criadas pela AIEA – Agencia Internacional de Energia Atômica. Ou seja, o chamado RPAS – Relatório Preliminar da Análise de Segurança – tinha que conter o capitulo relativo à eventualidade dos chamados acidentes severos para que o licenciamento de Angra 3 pudesse ser outorgado.

De fato, o projeto de Angra tinha sido elaborado nos anos 70, com base no projeto da usina alemã de Grafenrheinfeld. Esta, que seria sua usina de referência, tinha sido licenciada em 1975 – antes portanto do acidente de Three Miles Island. Era portanto inaceitável que as análises de segurança de Angra 3 não tivessem compreendido o capitulo 19. Lembremo-nos que em 2009 nem tinha ocorrido o terceiro acidente severo que o mundo conheceu, em 2011 em Fukushima, no Japão, que só viria confirmar a absoluta necessidade dos cuidados exigidos pelas normas pós Three Miles Island e Chernobyl.

Mas eram grandes e variados os interesses que agiam por detrás da retomada da construção de Angra 3. A revisão do projeto atrasaria a obra possivelmente por um bom tempo e provavelmente aumentaria muito o seu custo. E a mudança de objeto do contrato de construção civil com a empresa Andrade Gutierrez – hoje sobejamente conhecida de todos nós – datado de 19 de junho de 1983, poderia levar o Tribunal de Contas da União a impugná-lo. Por último, e mais rasteiramente, a Andrade Gutierrez já tinha começado a distribuir seus favores, por conta do negócio de bilhões que é a construção de uma usina nuclear – como se ficou sabendo agora, com as investigações em curso da Lava-Jato.

É pelo menos estranho – e preocupante – que o simples bom senso não tenha conseguido prevalecer. Tive a informação de que até foram marcadas reuniões na CNEN para uma sadia discussão do conteúdo do parecer técnico em questão. Mas alguma interferência fez com que não fossem realizadas, e com que a CNEN anulasse esse parecer incômodo – o único que de fato impediria o licenciamento imediato da obra – com razões que parecem elaboradas para esse fim.

O Procurador Federal então em função em Angra, Dr. Fernando Lavieri, tomou conhecimento do que ocorria e diante do que considerou um dissenso dentro da própria CNEN decidiu investigar, abrindo em 31 de setembro de 2009 um Procedimento Investigatório (no. 1.30.014.000123/2007-43 ICP 51/2009). Grande parte das informações contidas nesta exposição foram encontradas neste Procedimento, um documento público com, atualmente, mais de 400 páginas (e que tinha chegado a 380 em novembro de 2010).

 

Talvez o engenheiro Sidney ainda quisesse evitar o que poderia acontecer quando escreveu o primeiro de seus artigos, no Jornal do Brasil de 5 de fevereiro de 2010, denunciando o caráter obsoleto do projeto de Angra 3. E depois de uma réplica da CNEN, reafirmou num segundo artigo no mesmo jornal, em 31 de março, o conteúdo do primeiro. Sua coragem lhe valeu evidentemente processos administrativos e muita dor de cabeça, apesar do apoio que recebeu da Associação dos Fiscais de Radioproteção e Segurança Nuclear, aqui representada pelo seu Presidente.

 

Mas o conteúdo extremamente técnico das discussões que se travavam dentro do mundo do nuclear, com seu vocabulário e siglas incompreensíveis para os comuns dos mortais, não mobilizou muita gente contra ou a favor do parecer inesperado. E, livre dele, a CNEN publicou em 25 de maio de 2010 o licenciamento nuclear de Angra 3.

 

A Comissão cedeu no entanto um pouco aos descontentes: a portaria de licenciamento obrigou a Eletronuclear a incluir a análise de segurança prevista no famoso capitulo 19. Mas isto só no Relatório Final de Análise de Segurança (RFAS) – aquele que é feito antes de se pedir a autorização de início de funcionamento da usina. Há quem chame isso de desfaçatez, porque é escandalosamente obvio que, se essa análise demonstrasse a necessidade de mudanças mais consistentes no projeto, seria tarde demais. A usina estaria pronta, com todas as insuficiências que seu projeto carregava.

 

O engenheiro Sidney Rabello poderia talvez nos indicar o que se deveria mudar no projeto, se essa análise fosse feita. Mas eu mesmo posso indicar algo simples que me impressionou exatamente pela simplicidade: a questão da espessura das paredes de concreto do edifício de contenção. Esse edifício constitui a última barreira para proteger o meio ambiente da disseminação de partículas radioativas, em caso de explosão.

Esta Comissão de Ciência e Tecnologia realizou no Senado, em Outubro do ano passado, o seminário “Nuclear – Lições da Experiência Mundial”. Vários especialistas, de diversos países do mundo, trouxeram suas experiências. Entre eles o engenheiro aposentado Dieter Majer, que dirigiu nos seus últimos 12 anos de trabalho o Departamento de Segurança de Usinas Nucleares do Ministério do Meio Ambiente alemão. Ele não pode vir pessoalmente ao seminário mas nos enviou um vídeo. Neste vídeo ele se refere explicitamente à usina de Grafenrheinfeld – referência de Angra 2 e 3, como já indiquei – que ele conhece bastante.

Ele nos lembrou que em seu país já não são utilizadas usinas nucleares para produzir eletricidade, porque elas estão “associadas a um risco excessivo de segurança” e “continuar explorando a tecnologia nuclear traz um risco inaceitável”, e nos informou que, nesse quadro, a usina de Grafenrheinfeld já foi desativada. E nos disse também que, segundo o conhecimento atual, é preciso uma parede de concreto de mais de dois metros de espessura no edifício de contenção, para que resista efetivamente a explosões internas de hidrogênio e se proteja o meio ambiente. E considerando uma novidade do mundo que não existia na década de 70 e com a qual os Estados Unidos viveram uma trágica experiência, isto permitiria que resistisse também a choques externos – com atentados como o lançamento de grandes aviões sobre a usina – que provocariam falhas múltiplas em profusão…

Ora, segundo o projeto que está sendo seguido, o edifício de contenção de Angra 3 terá, como o de Angra 2 o tem, sessenta centímetros de espessura (o de Angra 1 tem 75 cm de espessura) … Obviamente, se essa insuficiência for constatada depois do edifício pronto os únicos que ganharão com isso serão os que o devam demolir e reconstruir…

Nesse vídeo o mesmo engenheiro disse outra coisa que é útil que saibamos: a usina de Grafenrheinfeld – referência de Angra 2 e 3 – não seria licenciada com base nas disposições legais que vigoravam quando começou a desativação de usinas na Alemanha – ou seja, em 2002, oito anos antes do licenciamento de Angra 3. Segundo ele, para obter essa permissão “as estruturas de engenharia teriam de ser totalmente refeitas”, assim como “a disposição e o desenho dos sistemas de segurança teriam de ser consideravelmente modificados e ampliados”.

Mas voltando a nossa estória do início desta década.

 

Depois do licenciamento outorgado, o filme continuou: a revista “Isto é” publicou, em 11 de junho de 2010, a partir da notícia do licenciamento, uma matéria consistente, levantando muitas dúvidas e cobrando a ação do MPF. Em 24 de junho o procurador Federal Fernando Lavieri encaminhou à CNEN e à Eletronuclear uma recomendação dizendo que “foge a qualquer critério de racionalidade admitir que estudos que devem ser considerados na aprovação/elaboração do projeto de usina sejam apresentados somente após sua construção”. E ele concluía recomendando à CNEN e à Eletronuclear, sob pena de abertura de uma ação civil pública, a interrupção imediata da obra e a revogação do licenciamento, emitindo outro somente quando fosse incluído no RPAS o capítulo 19 da análise de segurança.

 

Esses organismos se recusaram a atender às suas recomendações jogando de um para outro as responsabilidades e levantando os problemas que seriam criados com a interrupção da obra. E repetiram os termos do que tinha sido estabelecido na portaria de licenciamento: a obrigação da Eletronuclear fazer a análise pedida, com todo o cuidado necessário, quando a obra estivesse pronta… A vida pôde assim continuar, sem outras novidades senão a oportuna – oportuna para quem? – transferência do Procurador Lavieri a Foz do Iguaçu, em data de que não disponho, ao fim de 2010.

 

Com base na dificuldade técnica do tema ele pouco antes conseguira, depois de propor sem sucesso uma consultoria de especialistas ingleses, que o MPF contratasse um especialista da USP de São Paulo. No entanto os resultados não mudaram substancialmente o rumo das coisas.

 

Na verdade tal consultoria talvez nem fosse mais necessária. O Procurador Federal Fernando Lavieri tinha produzido, juntamente com a Procuradora Federal Daniela Masset Vaz, um extenso relatório, de 51 páginas (da página 222 à página 273 do volume do procedimento investigatório), em que fundamentou de forma extremamente clara o despacho que proferiu em 4 de agosto de 2010, reiterando e precisando melhor as recomendações que fizera em 24 de junho. Eu aconselharia vivamente aos senhores senadores e senadoras a leitura desse relatório, para que não lhes sobrem dúvidas sobre a necessidade de revisar o projeto de Angra 3.

 

A partir da saída de Angra do Procurador Lavieri o volumoso processo do procedimento investigatório ganhou a paz dos cemitérios de papel nas estantes do MPF, recebendo de tempos em tempos uma folha a mais: prorrogando o prazo para o término do procedimento investigatório ou contendo uma nova solicitação à CNEN relativa à elaboração do capítulo 19 da análise de segurança. Uma solicitação desse tipo foi enviada no dia 3 de maio deste ano de 2016 ao Presidente da CNEN pela Procuradora Federal Monique Cheker, então em função em Angra, mas não tenho conhecimento do resultado.

 

Uma ou outra iniciativa movimenta o volume, para que a poeira não se acumule demais, como uma carta enviada ao MPF por um funcionário da CNEN em 19 de setembro de 2012, que levanta dúvidas sobre o acerto das decisões por ela tomadas, sem que eu saiba que efeito teve essa carta. Ou uma portaria do atual Procurador Geral da República, Dr. Rodrigo Janot, em 11 de abril de 2014, designando o Procurador Federal Lavieri para atuar em conjunto com a Procuradora Federal Cheker nos autos do inquérito por ele iniciado, que também não sei como foi concretizada.

 

E mais recentemente – depois de interrupções por falta de dinheiro – a Lava-Jato nos fez o favor de interromper de vez a obra.

Se os senhores senadores e senhoras senadoras me permitirem a ousadia de dizer o que o Senado poderia fazer, ao tomar conhecimento das informações que lhes estão sendo trazidas nesta audiência pública, penso que, no cumprimento da função fiscalizatória do Legislativo seria preciso questionar a Eletronuclear e a CNEN sobre a necessidade de uma profunda revisão do projeto de Angra 3 antes de qualquer decisão sobre a continuidade da obra.

A ocasião é mais do que oportuna, com a construção inteiramente parada, sem portanto os impedimentos levantados pelo então Presidente da Eletronuclear para se recusar a atender a recomendação do MPF em agosto de 2010.

Se o relatório acima citado dos Procuradores do MPF não for suficiente para justificar esse questionamento, caberia talvez contratar uma consultoria independente e preferivelmente externa ao país, ou seja, não subjetivamente vinculada aos interesses da CNEN e da Eletronuclear – por exemplo na Alemanha, cujas usinas serviram como referência para Angra 2 e 3 – para nos dizer se estamos ou não preparados para evitar um acidente severo ou mitigar seus efeitos, se infelizmente ocorrer. Trata-se simplesmente de exercermos o Direito de Precaução, frente à catástrofe social, ambiental e econômica provocada por um acidente severo.

Para terminar, tenho a dizer que nós, cidadãos e cidadãs deste país, não podemos senão confiar nos representantes que elegemos para que as decisões governamentais respeitem os reais interesses da sociedade. Enquanto pessoas e enquanto sociedade organizada nem sempre dispomos do poder necessário para isso, como comprova carta enviada por 9 cidadãos e cidadãs brasileiros, em 31 de Agosto de 2015 – ao Senhor Procurador Geral da República – até hoje sem resposta, possivelmente por conta do excesso de trabalho em torno da Lava-Jato. Nessa carta, cuja cópia posso encaminhar a esta Comissão, se pedia uma audiência a partir das mesmas informações que apresentei hoje, e se concluía dizendo:

Estamos portanto, Senhor Procurador Geral, diante de um verdadeiro escândalo de irresponsabilidade técnica e política que pode tirar ou arruinar a vida de milhares de pessoas e tornar inabitáveis, por tempo indeterminado, territórios enormes numa das zonas costeiras mais bonitas do Brasil. É o que ocorre na Ucrânia e Bielorrússia e no Japão, países que tiveram a infelicidade de conhecer “acidentes severos” em suas usinas nucleares. 

Era o que eu tinha a expor. Muito obrigado, Chico Whitaker

Brasília, 29 de novembro de 2016.

 

 

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