um voto de natal bem especial – Chico Whitaker

Texto publicado no numero de dezembro de 2016 do boletim Rede, publicação do Centro Alceu Amoroso Lima para a Igualdade

 

Um voto de Natal bem especial

Chico Whitaker

Preocupar-se com que se costuma chamar de questão nuclear – bombas, usinas, reatores e submarinos nucleares – nos leva a aprender muita coisa: sobre os átomos e a indescritível energia que se esconde em sua infinitesimal realidade, sobre a possibilidade da radiotividade salvar vidas, mas também sobre os interesses malsãos que podem conduzir empresas e negócios, sobre as aplicações perigosas da ciência, sobre os erros que os políticos podem cometer em detrimento de seus concidadãos… E até sobre a alma humana…

Neste último campo do conhecimento, minha preocupação com o nuclear tem me levado a constatar como os seres humanos são capazes de empurrar para trás da porta as coisas que podem tirar seu sossego, mas também como conseguem ser extremamente generosos.

A maior dificuldade com que os chamados “ativistas antinucleares” se defrontam é a nossa tendência a negar o que nos incomoda. Para a grande maioria das pessoas estão muito longe de realmente existirem os riscos criados pelas bombas e reatores nucleares que os seres humanos orgulhosamente inventaram e estocam ou operam pela Terra afora. Até porque esses riscos, surgidos pela ousadia e atrevimento da ciência tirando o demônio de sua jaula, são cuidadosa e intencionalmente escondidos de todos, pelos que dele tiram proveito econômico e político. Muito embora há mais de cem anos, em 1903, o cientista Pìerre Curie, no seu discurso ao receberem, ele e sua mulher Marie, o Prêmio Nobel de Física pela descoberta do radium, tivesse colocado uma pergunta incômoda, como se antevisse o que poderia acontecer: a radioatividade se mostra muito útil para o combate às doenças; mas estaria a Humanidade preparada para manipular os segredos do átomo?

Ainda bem que, para compensar, há também o que nos surpreenda positivamente no aprendizado constante que nos oferece o “ativismo social”. Como por exemplo a constatação de que a compaixão pelos seres humanos pode ser dirigida também aos animais e à natureza. Na minha santa ignorância de novato nessa área de luta social, nunca tinha ouvido algo que deve ser corriqueiro aos ambientalistas que lutam pela preservação da água, tentando impedir que esse Bem Comum da Humanidade caia também nas garras gananciosas do “negocio”. Um líder indígena dos Andes peruanos disse num encontro de que participei há pouco que a água tem que ser protegida porque ela é absolutamente necessária para humanos, animais e plantas.

Compreendi melhor, assim, o apelo lancinante, que cito abaixo, feito há poucos dias por Gabriel Weisser, morador das vizinhanças da usina nuclear de Fessenheim, na França, em carta ao Presidente do seu país. Essa é a mais velha das 58 usinas francesas e já deveria ter sido desativada se o atual Presidente tivesse conseguido cumprir suas promessas de campanha.

Os que leem relatos dos acidentes nucleares são informados de que os moradores evacuados dos campos e cidades próximos a usinas acidentadas não podem levar consigo seus gatos ou cachorros, e as crianças nem mesmo suas bonecas, porque podem estar contaminados com partículas radioativas. Sabe-se que uma das tarefas atribuídas a um certo número dos mais de 400.000 soldados convocados para controlar os efeitos da explosão de Chernobyl foi a de percorrer os campos em volta da usina – sem terem sido informados, eles próprios, de que estavam também se contaminando no contato com arvores e plantas – e matar todo animal vivo que encontrassem.

Em sua carta Weisser segue, sem necessariamente o saber, o exemplo do agricultor japonês que até hoje não saiu de sua terra, contaminada pela explosão radioativa da usina nuclear de Fukushima, para continuar cuidando dos seus animais. Eis alguns trechos dessa carta:

Recorro ao senhor uma última vez como um residente inquieto das vizinhanças da mais antiga Usina nuclear francesa, de Fessenheim.

De fato, já lhe escrevi duas vezes (junho de 2014 e novembro de 2016) para alertá-lo sobre minhas preocupações (…)

Hoje, o reator número 2 está parado (…) e o número 1 será também desconectado (…) por causa das falsificações de peças da AREVA e da CREUSOT (…)

No entanto até este mês de dezembro de 2016 (…) não há nenhum sinal de fechamento da mais antiga das usinas nucleares francesas (…)

 Senhor Presidente da República, o senhor (…) não cumpriu sua promessa (…), apesar dos novos problemas de segurança nuclear surgidos nos últimos meses nesta usina.  

Mas eu lhe faço uma promessa como simples vizinho dessa velha usina nuclear alsaciana: no caso de um acidente nuclear grave em Fessenheim e de uma ordem de evacuação, eu me recusarei a partir e prometo continuar onde eu moro (…).

(…) eu me recuso a partir antes de tudo por causa daqueles que deverão ficar e que nunca serão evacuadas, ou seja, os animais e os mortos.

(…) Com relação a animais, onde moro a alguns quilômetros da usina nuclear há galinhas, pôneis, cavalos assim como animais domésticos como meus gatos. Eu sei que em caso de evacuação o apoio às pessoas vai ser muito difícil e que dada a urgência os animais serão abandonados à sua própria sorte, especialmente porque descontaminar uma pessoa já é uma operação complexa mas nunca se descontaminou um animal. Em Chernobyl e Fukushima o destino dos animais foi selado de antemão e as autoridades soviéticas ou japonesas procederam à liquidação do gado e dos animais de estimação que foram pegos, e os outros morreram de fome. (…)

E quanto aos mortos (…), como honrar a memória de nossas famílias enterradas por gerações na terra dos nossos antepassados na área de evacuação nuclear?

(…) a cada mês desde 2014, se repetem as notícias perturbadoras relativas â segurança nuclear em Fessenheim. O cenário de um acidente está se tornando cada vez mais provável (…)

Obrigado, Senhor Presidente da República, pelo tempo que tenha consagrado para ler esta minha última carta (…). Ouso ainda esperar que neste final do ano de 2016 e véspera de Natal, o senhor fará um presente para a França e a Alsácia, anunciando o encerramento definitivo da usina nuclear de produção elétrica de Fessenheim.

***

Espero que este testemunho consiga nos acordar, a nós também neste Natal, sobre os sérios riscos que corremos com nossas usinas nucleares de Angra dos Reis, embora estejamos tão distantes de Fukushima, Chernobyl e Fessenheim.

19 de dezembro de 2016

 

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