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02/11/2018

Plano de sobrevivência – Chico Whitaker

Muita gente está perplexa com o que aconteceu no Brasil dia 28 de outubro ultimo. Aqui no Brasil e no exterior. Mas temos que nos sentar e conversar. Calmamente. Deixando que acabe de baixar a poeira levantada pelo desastre.

Bolsonaro já disse que, nos últimos dias, se preocupou com o resultado das eleições. Deve ter visto pela TV as imensas manifestações entusiasmadas e alegres pro Haddad nas grandes capitais. E deve ter sentido, como todos nós, a virada que vinha acontecendo. Mas nem ele nem nós sabíamos quão poderosa era a máquina de ganhar eleições que Bolsonaro comprou a peso de ouro (quanto e quem a teria pago, um dia ainda o saberemos). Uma máquina que já havia testado sua força elegendo Trump e fazendo o Brexit ganhar na Inglaterra, além de outros experimentos menores. Tanto o Congresso dos Estados Unidos como o Parlamento inglês já pediram explicações às redes sociais por ela usadas.

Pelo menos 20 milhões de eleitores brasileiros tinham sido durante varias semanas intoxicados por milhares de “Fake News” que eles liam dias inteiros em seus celulares. Era o instrumento diabólico criado por alguns matemáticos e psicólogos pervertidos, que acumularam imensas fortunas (o suficiente até para financiar Trump) inventando algoritmos para ganhar na Bolsa, até se articularem em grandes empresas mais ambiciosas, sediadas nos Estados Unidos e na Inglaterra. Quem ainda não viu veja logo um documentário alemão que desvenda tudo isso (https://vimeo.com/295576715 – São 59 minutos divididos em 4 partes, com legendas em português). Imperdível, como se diz.

Não foi portanto Bolsonaro que ganhou esta eleição. Foi esta máquina, acionada por personagens entre as quais o mais conhecido é Steve Bannon, que chefiou a campanha de Trump e depois se tornou por algum tempo seu estrategista principal. Uma ação associada em nosso país à obediência cega aos pastores das pequenas e grandes igrejas evangélicas. Bannon agora se prepara para implantar seu “movimento” no Brasil, conforme noticia a Folha de 29 de outubro. O que virá por ai, com gente sem escrúpulos desse tipo? O filho mais velho (01) de Bolsonaro esteve com ele em Nova York em agosto. Em matéria de O Globo de 26 de outubro sobre entrevista à BBC-Brasil, Bannon declarou seu apoio a Bolsonaro, por “compartilhar com ele a mesma visão de mundo”. Por isso mesmo Salvini, da Italia, que ele também ajudou, foi um dos primeiros a cumprimentar Bolsonaro pela sua vitória.

Um dia quem sabe alguma Comissão Parlamentar de Inquérito do nosso Congresso quererá saber um pouco mais, já que nem o TSE nem o STF ainda se deram conta do enorme estelionato eleitoral que ocorreu no Brasil, pela manipulação tecnológica de que fomos vitimas. E Deus queira que no mundo todo acordem para esse grande risco que correm hoje as democracias, na medida em que para funcionar se apoiam em eleições manipuláveis. Quantos psicopatas poderão ser eleitos para dirigir seus países, pelo mundo afora? Mas já que nos lembramos do STF, quando essa Corte terá a coragem de colocar em pauta a obediência ao principio constitucional da presunção da inocência, único caminho para que Lula (e muitos outros) não “apodreçam na prisão”?

Mas agora interessa saber o que fazer, depois do desastre que ocorreu no Brasil, bem em baixo de nossos próprios narizes.

Uma coisa é certa: não podemos nos paralisar, ainda que a decepção, a tristeza e mesmo o medo possam nos reter um pouco.

Há vários modos de atuar que já começam a aparecer. Entre as quais o primeiro é simplesmente o de observar, e conversar calmamente com eleitores arrependidos que começarão a surgir na massa dos quase 60 milhões de brasileiros que escolheram Bolsonaro. Ou seja, quase bastaria ficar vendo o panorama de cima da ponte, ou sair dela e constatar de longe seu desmoronamento. Eles sozinhos logo vão fazer muita gente se perguntar se acertaram ao votar nele. E aumentar a maioria que não votou em Bolsonaro.

No seu primarismo (do qual se protegeu não indo a nenhum debate no segundo turno, graças à “providencial” facada que recebeu), ele visivelmente não está preparado para enfrentar os problemas de governo. Nestes primeiros dias depois do susto com que se viu Presidente, seu comportamento é como o de uma biruta de aeroporto: ouve o que lhe dizem e desdizem e vai tomando suas decisões segundo sopre o vento (como já disse um de nossos analistas). Nisto ele se parece bem com Trump, igualmente despreparado e com ideias absurdas em política nacional e internacional. O mesmo se passa com seus ministros, como o que será seu superministro de economia, que passou sua vida ganhando dinheiro na Bolsa (teria também usado os algoritmos do matemático e multimilionário Robert Mercer?) e já está mostrando ter modos tão brutos como seu chefe…

Mas há objetivamente riscos. Se começar a falhar como governante, ninguém garante que Bolsonaro não descambe para o que prometeu (“que saiam do Brasil ou serão presos”), ou que não chegue a comportamentos violentos como os de Duterte das Filipinas. Nem que seus seguidores mais recalcados não queiram fazer justiça e castigar com as próprias mãos os inimigos que ele indicou (“já está liberado dar porrada em negro, viado e baiano?” – perguntam apoiadores nas redes sociais). Algumas demonstrações às vezes ridículas desses ímpetos começam a ser noticiadas. Mas outras ações realmente violentas – incluindo assassinatos – começam também a aparecer. Contra os mais desprotegidos, como os indígenas e os LGBT. Deus queira que nunca cheguemos à barbárie de Duterte.

E há entre os apoiadores de Bolsonaro que assumiram cargos até a estapafúrdia ideia de se servirem de “atiradores de elite” (os “snipers”, como dizem os americanos). Sua função será a de “abater”, a grande distância, “suspeitos portando armas”. Depois saberemos se carregavam realmente um fuzil ou um guarda-chuva, ou mesmo se era simplesmente qualquer um de nós. Mais um  risco é o de um dia os militares acharem que têm que colocar ordem na casa. (“Os demais assessores que forem escalados podem ser mandados embora a qualquer momento. Eu permaneço”, já disse Mourão em entrevista). O que não é uma saída tranquila, já que até o Ministro da Defesa indicado gostou da ideia dos “snipers” (esse Ministro já não será um civil, como desde 1998 no Brasil, mas um general, confirmando o retrocesso, quanto às tendências mundiais, já concretizado por Temer, ao substituir Jungman por um militar…)

É certo que a sociedade e as próprias instituições democráticas, no seu instinto de sobrevivência, já estão reagindo, nas diferentes áreas em que será preciso resistir para não deixar que passem batidas iniciativas inaceitáveis de Bolsonaro e seus adeptos. Passado nem um dia da eleição, várias iniciativas já começaram a mobilizar as pessoas. Será sempre possível fazer abaixo assinados, ocupar galerias, chamar a policia, denunciar ao Ministério Publico. Cada um de nós poderá achar seu nicho de atuação, e apoiar ou se associar a essas reações. Mas, qualquer que seja a área de atuação em que nos situemos, precisamos fazê-lo em grupos de proteção e apoio mutuo, planejando nossas atuações e comunicando aos outros o que estamos fazendo. Tecendo uma rede solidaria cada mais diversificada e ampla, reforçando-nos uns aos outros. Para o apoio jurídico e mesmo para simples cuidados psicológicos, já que há muita gente assustada ou até sendo ameaçada. “Ninguém solta a mão de ninguém”.

Há a revisão do Estatuto do Desarmamento, a Escola sem Partido, a incitação a denunciar professores, a reforma da previdência, a Lei antiterrorismo, a maioridade penal, Moro super-ministro de combate à corrupção, o Pastor-ex-senador Magno Malta se encarregando do desenvolvimento social, poupanças recolhidas a la Collor/Zelia. Cada dia uma… Muitas outras virão. Quando Paulo Guedes e outros ministros começarem a propor e fazer coisas, a lista será infindável. Para resistir não faltará trabalho. Há também gente pensando em atividades construtivas, como uma rede inter-religiosa centrada na construção de uma cultura de Paz – ponto de encontro de todas as religiões – para reverter o aumento da violência. Ao mesmo tempo, teremos que ser muito cuidadosos, checando a origem das propostas recebidas, para não cairmos em armadilhas. Assim como teremos que não responder a provocações, nem criar nós mesmos ocasiões para virem nos provocar.

No médio e mesmo longo prazo, teremos que assumir a necessária desintoxicação dos 20 milhões de brasileiros desinformados que se deixaram enganar pelas fakenews. Para isso precisamos nos organizar bem mais do que começamos a fazer na ação pessoa a pessoa com que tentamos virar a eleição. Temos que organizar processos de formação politica a partir de cada coisa que for sendo proposta pelo governo ao Congresso ou cada iniciativa que tomar por decreto. Informar, esclarecer, explicar. Um programa de vida, que o processo será longo.

Para quem queira fazer as famosas autocriticas (sempre necessárias), estão sendo publicadas muitas analises. Aproveitemos para lê-las e discuti-las com calma e sem preconceitos, para construir conclusões que nos ajudem no futuro (próximo: a Frente Amplíssima que será necessária) ou mesmo mais longínquo (prática politica conduzida por objetivos comuns e não por disputas por hegemonias entre nós).

Ou seja, para concluir, mãos à obra. Com coragem e esperança.

Chico Whitaker, 1 de novembro de 2018

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