Archive for abril, 2019

09/04/2019

Nuclear: esclarecimentos necessários – Chico Whitaker

Dia 19 de março o Presidente da Eletronuclear, sr. Leonam dos Santos Guimarães, contestou um artigo meu publicado na Folha de São Paulo em 5 de março. No dia 21 o Presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN, sr. Claudio Almeida, respondeu a outro artigo meu publicado na Carta Capital em 11 de março.

As dúvidas que levantei seguramente incomodaram. E de fato são muito preocupantes: retomar a construção da usina nuclear de Angra 3 com o mesmo projeto de Angra 2 é um crime anunciado. Ele é da década de 70 e não leva em conta as recomendações de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA. Para que a Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN licenciasse Angra 3 com esse projeto, precisou engavetar pareceres contrários de seus próprios engenheiros e desrespeitar as determinações do MPF quando investigou a razão das divergências. Os Tribunais do Japão vem condenando os responsáveis pelo acidente de Fukushima por desconsiderarem alertas técnicos, chamando isso de negligência, enquanto a CPÌ do Parlamento japonês após o desastre disse que houve o que chamou de “conluio” entre empresas e governo.

Como muita coisa no Brasil também tem cheiro de corrupção, em Angra 3 isto ficou demonstrado com a condenação do então Presidente da Eletronuclear e mais recentemente com a prisão do ex-presidente Temer. E matéria recente do “Fantástico” da TV Globo apresentou essa usina como um espaço destinado mais do que tudo a essas práticas: https://globoplay.globo.com/v/7482395/?fbclid=IwAR0MiJhzkdwau1qA7CzhSEYHHwkecr1pytYXZ9_OmQRiQjULI8AhLLT0jdI.

Como a Folha de São Paulo só pôde abrir 500 caracteres no Painel do Leitor para a resposta ao Presidente da Eletronuclear, os interessados poderão lê-la em http://www.brasilcontrausinanuclear.com.br/2019/03/27/mais-transparencia-e-mais-cultura-de-seguranca-na-questao-nuclear. Mas a Carta Capital nos fez a gentileza de oferecer espaço para uma tréplica ao artigo do Presidente da ABEN. É o que se segue.

Na verdade os Presidentes da Eletronuclear e da ABEN se ativeram em seus artigos à defesa da opção nuclear e de Angra 3, sem trazer provas concretas sobre uma eventual atualização do seu projeto. Enquanto um documento oficial da Eletrobrás-Eletronuclear sobre os critérios de segurança para Angra 1, 2 e 3, publicado em 10 de maio de 2011 (após portanto o licenciamento de Angra 3), dá em detalhe as dimensões e características dos Prédios de Contenção de Angra 2 e diz simplesmente, sobre Angra 3, que tem “estruturas semelhantes às de Angra 2”.

Mas o segundo desses artigos surpreende de forma especial pelo nível de desinformação que revela.

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07/04/2019

SE EU FOSSE DEPUTADO – Carlos Drummond de Andrade

SE EU FOSSE DEPUTADO

Carlos Drummond de Andrade

Artigo publicado pelo Jornal do Brasil em 21.6.1980, e republicado pela Revista da USP ESTUDOS AVANÇADOS 21 (59), 2007, com uma introdução explicativa de seu Editor

 

O testemunho do poeta-cidadão

Em 1980, já no ocaso da ditadura, a região florestal da Juréia, entre os municípios costeiros de Peruíbe e Iguape, se viu de repente ameaçada de sediar uma usina nuclear por força do acordo Brasil-Alemanha.

A população local reagiu, temendo que um acidente pudesse envenenar o seu hábitat. A lembrança do que ocorrera em Three Mile Island, em 1979, estava ainda viva na consciência ecológica mundial. Organizações ambientalistas e alguns cientistas eminentes uniram-se então e fizeram um apelo ao maior poeta vivo do país, Carlos Drummond de Andrade, para que escrevesse um artigo em apoio à luta comum.

O poeta recebeu dos cientistas as informações básicas sobre os riscos humanos e ambientais que a usina representava e publicou no Jornal do Brasil o texto abaixo transcrito.

A editoria julgou pertinente reproduzi-lo, pois nele reconhece dois méritos inegáveis:

  1. a) Trata-se de uma expressão de cidadania, cuja voz não costuma ser ouvida pela tecnocracia;
  2. b) O seu conteúdo está centrado nos perigos de doenças e mortes que correm as populações atingidas por um eventual acidente.

Releva notar que o poeta não podia imaginar que, seis anos mais tarde (1986),ocorreria o terrível vazamento de Chernobyl, na Ucrânia, cujos efeitos patogênicos ainda se fazem sentir.

A luta contra o Projeto Juréia não se deu em vão. O governo desistiu da ideia. Hoje a Juréia é uma bela reserva florestal.

                                            Editor

 

SE EU FOSSE deputado federal, estaria hoje muito apreensivo. E se fosse deputado federal por São Paulo, minha apreensão atingiria limite angustioso. Isso porque me mandaram um documento terrível, que faz perder o sono e põe a consciência em estado de guerra.

Quem o assina é o Movimento em Defesa da Vida, formado por pessoas de todas as classes, homens e mulheres, sob orientação de geneticistas reputados e físicos nucleares não menos categorizados da USP.

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