Archive for ‘Uncategorized’

25/07/2020

Naturalizando o inaceitável?

Acordemos todos; já é quase tarde demais

Chico Whitaker

Arquiteto e urbanista e membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz

Estamos ocupados —de todas as formas que o isolamento deixa ao nosso alcance —na resistência à destruição em curso de instituições, leis, normas, serviços e direitos reconquistados depois do regime militar de 1964.

Ainda mais depois que o Ministro do Meio Ambiente —que vá logo embora, pede-se no Brasil e no exterior—declarou, com todas as letras, em reunião ministerial, que essa destruição, anunciada por Jair Bolsonaro diretamente em Washington quando iniciou seu desgoverno, segue agora uma estratégia: todos estão preocupados com a pandemia; é o bom momento para “passar a boiada”.

Todos os dias a internet me informa sobre o número de mortes, muitas evitáveis, do dia anterior. Evitáveis porque devidas ao não uso dos recursos destinados ao combate à Covid-19 e causadas pela confusão intencionalmente criada sobre como enfrentá-la. Mas tenho que passar imediatamente a cumprir tarefas em outras lutas sociais.

O arquiteto e urbanista Chico Whitaker em foto de 2003 – Juca Varella/Folhapress

Estaria me acostumando com a necropolítica do chefe do bando de criminosos e doentes mentais que ganhou a eleição, prometendo matar e matar mais “vermelhos” e “diferentes” do que o fez a ditadura? Estaria eu “naturalizando” o inaceitável?

De fato é a mesma banalização da escravidão de negros que nossos ascendentes brancos fizeram durante séculos. Que levou a que hoje aceitemos sem maiores dificuldades éticas o racismo e a escandalosa desigualdade social que caracterizam nosso país, vitimando majoritariamente os descendentes desses escravos.

Na verdade, deveríamos deixar de lado por um momento as outras lutas e nos concentrarmos, até tirar da Presidência, imediatamente se possível —fora, Bolsonaro—, esse desvairado sem nenhuma compaixão pelos seus semelhantes.[ x ]

Por causa dele a cada dia que passa morre mais gente, que conhecemos e muitos mais que não conhecemos —mas são também gente, como nós. Segundo imagem do diretor do Instituto Butantã, o número de óbitos diários em São Paulo, o estado mais rico e mais desigual do país, é o mesmo provocado pela explosão de um Boeing 747 por dia.

Ativistas da ONG Rio de Paz, entidade de defesa dos direitos humanos, abrem covas na praia de Copacabana para chamar a atenção para as mortes causadas pela Covid-19 no país
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(Ativistas da ONG Rio da Paz abrem covas na praia de Copacabana para chamar a atenção para as mortes causadas pela Covid 19 Foto Pilar Olivares/Reuters)

Será que nossos representantes no Congresso serão os últimos a acordar e descobrir que estão também se tornando responsáveis por esse descalabro ao não votarem o impeachment de Bolsonaro por crimes de responsabilidade, ou seu imediato afastamento por crimes comuns?

Já nem precisamos que o STF ou o procurador-geral da República façam alguma coisa. Já há dezenas de pedidos de impeachment nas gavetas da Câmara, apoiados pela grande maioria dos brasileiros, que só não enchem as ruas para o exigir por causa da pandemia —que desse ponto de vista parece ter sido provocada pessoalmente pelo Diabo.

Acordos de cúpula, obtidos por estratégias espúrias do chefe do bando —usando a mesma tradicional corrupção no Legislativo— tentam mantê-lo no poder até 2022, enquanto interesseiros já se ocupam intensamente das eleições municipais deste ano.

Será que aceitaremos tudo isso, ou que se espere a derrota de Trump, que derrubará também Bolsonaro, enquanto a cada minuto que passa morre mais um de nossos irmãos e irmãs, jovens e velhos, negros e indígenas, pobres principalmente? Acordemos todos. Já é quase tarde demais.

TENDÊNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Publicado em https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/07/naturalizando-o-inaceitavel.shtml

27/06/2020

Carta aos pernambucanos – Chico Whitaker

Depois que o Prefeito de Angra dos Reis mandou dizer aos pernambucanos que era muito bom fazer mais seis usinas nucleares na beira do São Francisco, mandei a eles a carta abaixo:

Aos meus amigos de Pernambuco

Tem razão o Prefeito de Angra. Uma usina nuclear é uma enorme construção muito bonita. Que oferece emprego a muitos trabalhadores para ser construída e depois empregos para funcionar – embora bem menos.

O grande problema, que ele parece ignorar, é que essas usinas são monstros adormecidos. Que tem que ser permanentemente alimentados com o pior veneno que os seres humanos conseguiram descobrir nas profundezas da terra: o urânio radioativo, que há os que o chamem de dragão da maldade. Os técnicos que cuidam do monstro colocam esse urânio no seu estômago, sob a forma de toneladas de pastilhas, enriquecidas com átomos quebráveis. Seu aparelho digestivo quebra então esses átomos, o que produz muito calor – tais átomos são portanto o combustível do reator nuclear. Este calor ferve a agua que está no estômago do monstro, e seu vapor move turbinas que criarão eletricidade. Como os pequenos dínamos que fazem com que se acendam as luzes de nossas bicicletas.

Mas já ai, o que parece ter sido uma descoberta genial começa a criar problemas. Um deles desmonta o mito de que essas usinas são a forma mais limpa de se produzir eletricidade. Porque que enquanto dorme o monstro também defeca. E são toneladas de pedaços dos átomos de urânio quebrados, já transformados em diferentes tipos de partículas mais venenosas do que o urânio que o monstro comeu, tirados do seu estomago uma vez por ano. Como o césio-137, do qual só 19 gramas mataram tanta gente em Goiânia, a partir de 1987. Ou como o plutônio, muitíssimo radioativo: um grama de plutônio mata quase imediatamente a pessoa que ele contamine. A metade de sua massa leva 24.100 anos para se desmanchar (o que tecnicamente se chama de sua “meia vida”).

Ou seja, uma usina nuclear não é como outras usinas de eletricidade. Nelas se lida com coisas muito perigosas. Que são as mesmas das bombas atômicas. E basicamente com a mesma tecnologia. Elas produzem duas coisas ao mesmo tempo: eletricidade e dejetos chamados de lixo atômico. Do qual pode ser separado o plutônio, que se tornou o combustível preferido para bombas.  O que nos faz desconfiar do interesse dos militares em usinas nucleares…

Mas este lixo mais do que sujo – uma herança maldita que já estamos legando para varias gerações de nossos descendentes, com as mais de 400 usinas existentes no mundo o produzindo continuamente – é um real pesadelo: ainda não se descobriu, em parte nenhuma do planeta Terra, onde escondê-lo com segurança durante milhões de anos, talvez pela eternidade… Mas os técnicos muito sabidos (somente em física e engenharia nuclear) que nos querem impingir esses monstros não se mostram muito preocupados. Nem levantam o assunto na propaganda mentirosa do seu comercio.

Mas, digamos, tudo bem enquanto esses monstros permanecem dormindo: tudo que defecam é imerso em grandes piscinas, de onde não sai nem cheiro – aliás se saísse não saberíamos porque radiações não tem cheiro. O problema é que a água dessas piscinas tem que ser permanentemente refrigerada. Isso também não nos contam… Porque as partículas do combustível usado que está nelas continuam se quebrando naturalmente e, portanto, produzindo muito calor. E podem explodir se por falta de sorte sua refrigeração parar… Por isso os desalmados que constroem esses monstros derramam promessas e fortunas às prefeituras (como aqui no Brasil em Angra dos Reis e nos municípios vizinhos), para que elas nos convençam a aceita-los dormindo em nosso quintal, emporcalhando-o com suas evacuações sem que nem o percebamos.  

Mas ai de nós se os monstros acordam… Eles então mostram que são uma das invenções mais terríveis de cientistas frios e inconsequentes. Ao acordar eles vomitam tudo que engoliram e ainda está em seu estômago, com os muitos diferentes nomes das partículas em que o urânio se transformou. Os moradores da vizinhança tem então que fugir correndo, mal toquem as sirenes. Deixando para trás suas casas com tudo que tinham, rapidamente contaminado com o vômito do monstro. Porque as partículas radioativas que ele contém são invisíveis, não tem cor, não zumbem nem doem ao nos alcançarem. Só se vai saber, às vezes muitos anos depois, quem foi por elas contaminado, quando cânceres surgem não se sabe como no nosso corpo, quando menos se espera.

Se ele acordar ele próprio explodindo, muitos mais ainda serão atingidos pelo vômito, espalhado por nuvens que o vento levará onde quiser, a grandes distancias, sem que ninguém possa controlar. A radioatividade assim disseminada matará sem apelação ainda muito mais gente durante milhares de anos…

Mas, apesar disso tudo, até que dá para conviver muito tempo com o monstro, que é muito discreto e silencioso enquanto dorme. Pelo menos foi o que disse o Prefeito de Angra dos Reis.  Basta não acordá-lo e ficar aproveitando o dinheiro que seu irresponsável construtor distribui, até para coisas às quais nunca teríamos acesso. Mas quem viu uma sala de controle de uma usina sabe que essa paz é enganadora. É extremamente complexo o cuidado com a saúde do monstro. Não bastam enfermeiros ou enfermeiras dedicados. É preciso uma equipe de “operadores”, que arriscam ali dentro dele suas vidas, revezando-se dia e noite. Protegidos por vestimentas especiais, máscaras e luvas e mesmo escafandros para não receberem radiações.

Nessa sala dezenas de relógios, telas e mostradores indicam permanentemente a temperatura e a pressão do monstro, enquanto outros providenciam veneno suficiente para encher seu estomago. Uma falha no sistema ou uma pequena peça que se estraga, combinada com um descuido, complica de repente as coisas. Ou uma manutenção mal pensada dos aparelhos que mantem aquele corpo imenso em vida. Como aconteceu nos Estados Unidos e na União Soviética. Ou um acidente natural do lado de fora, um deslize de terra, como pode acontecer em Angra dos Reis. Uma inundação imprevista, como aconteceu no Japão. Ou mesmo a queda de um avião exatamente sobre a usina, por puro acaso ou intencional, como se temeu que acontecesse na Alemanha, quando um piloto suicida de um avião de linha fez cair seu avião numa região em que havia varias usinas. Hoje em dia até drones armados podem surgir não se sabe de onde…

Ou seja, o monstro adormecido pode inesperadamente acordar. E se levanta rápida e imediatamente, quando acorda. E se movimenta em segundos, apesar de todo o seu peso. O incontrolável toma então conta de tudo. E uma catástrofe social e ambiental acontece, como em Chernobyl e em Fukushima. Por mínima que seja, essa possibilidade existe. Não podemos nos esquecer que não há obra humana 100% segura.

Os efeitos de um desastre nuclear desse tipo só estarão começando a acontecer, no momento do desastre. Nesse mesmo momento é relativamente pequeno o numero dos que são vitimados. Mas esse número aumenta continuamente e muito, por muito tempo. Porque  ele espalha um quantidade enorme de partículas radioativas, que nos atingem silenciosamente, sem que nem o percebamos. Não será um acidente como outros. Em Fukushima, temeram que todo o país desaparecesse, quando três de seus monstros adormecidos acordaram e explodiram…

É preciso muita inconsciência para se aceitar uma usina nuclear em seu quintal. Mas a grande maioria das pessoas está pouco informada da realidade desses monstros. Aceita os argumentos e se deixa enganar pela enorme propaganda dos criminosos que os vendem, com interesses e intenções escondidas.

Um abraço do Chico Whitaker, um cidadão a quem um dia contaram tudo isso.

(25/10/2019)

24/06/2020

Objeção de consumo – uma necessidade ambiental – Chico Whitaker

(Este artigo foi escrito para ser publicado no jornal O Clima, do movimento Fridays for Future, no Brasil, depois de uma Roda de Conversa de que participei dia 8 de Junho, com integrantes desse movimento, no Fórum Popular da Natureza)

Os jovens estão conseguindo mobilizar muita gente em torno da necessidade urgente de interromper o aquecimento do planeta, que pode levar ao colapso ambiental e até à extinção da espécie humana. Mais do que os adultos e os mais velhos, vocês perceberam que o futuro que estão herdando de nós está ficando cada vez mais curto.

Mas imagino que, nessa luta em que se empenharam, talvez seja desanimador ouvir os que dizem que seremos todos engolidos pelos interesses dominantes se não conseguirmos mudar a lógica que rege a economia em todo o mundo. E que podemos até exigir que os governos façam alguma coisa, mas eles também serão engolidos por esses interesses se não quebrarem a lógica capitalista. Porque tudo hoje, da vida política e econômica até a nossa vida cotidiana, está totalmente submetido à competição e à vontade do chamado “mercado”, que são os eixos da lógica capitalista, uma lógica depredadora e suicida.

Eu diria que, mais do que desanimadora, esse tipo de previsão é paralisante. Se para consertar o clima for preciso antes vencer o monstro do capitalismo… estamos perdidos!

Felizmente há também como pensar outras saídas – dentro mesmo do capitalismo. Quero propor uma delas, que implica em agregarmos outra luta a essa que levamos. A estratégia dessa outra luta não é a de abordarmos de frente um monstro muito mais forte do que nós, mas a de atacá-lo em algum dos seus pontos fracos, ou quando ele abre uma oportunidade para que o desequilibremos. A estratégia que me ensinarem há muito tempo, quando quis aprender o judô.

Podemos derrubar nosso oponente se nos levantarmos contra o consumismo. Essa ação corroerá a logica do capitalismo por dentro, atingindo a própria coluna vertebral do sistema.

Está aí uma saída possível para nosso dilema. Alguns dirão que é coisa de sonhadores? Mas sonhos podem ser mobilizadores. E é uma saída muito concreta e imediata, porque se baseia no poder que está nas mãos de cada um, dentro de nossa vida cotidiana: no modo de viver dos jovens (desde criancinhas), dos adultos e dos velhos (até dos velhos bem velhos), dos medianamente ricos, dos mais ricos e dos pobres. Ela pode ser proposta até aos mais pobres, ajudando-os a superar ilusões que a publicidade – paga pela lógica que precisamos desmontar – enfiou em suas cabeças.

Uma saída a ser tentada, com confiança no seu êxito. Já há muita gente procurando abrir esse caminho. Só precisamos nos aliar a eles e aprender com eles. Muitas das pequenas e grandes práticas que os ambientalistas procuram difundir, para mudar o mundo, vão nessa linha. Se a luta contra o consumismo ganhar uma dimensão tão ampla quanto a que está ganhando a luta contra o aquecimento global, tornaremos nossa ação poderosíssima, porque todos os seres humanos são consumidores. E na verdade, sem consumismo o sistema capitalista não funciona. Ele entra em crise e em falência.

Para justificar o que falo, vou relembrar algumas coisas que todos vocês sabem sobre o modo de funcionamento desse sistema. Aplica-se dinheiro numa determinada produção, vende-se o que foi produzido e recupera-se dessa forma o dinheiro aplicado, acrescido do lucro comercial e da parte do custo da mão de obra que não lhe foi paga mas embolsada pelo empresário. Os sindicatos de trabalhadores surgiram lutando para que, entre outras coisas, não se deixe de pagar tudo a que a mão de obra tem direito.

Cada vez mais, nos dias de hoje, a mão de obra perde força nessa luta, pela mecanização crescente das cadeias produtivas e os avanços tecnológicos dos robôs, além dos elevados níveis de desemprego que tornam mais fácil encontrar uma mão de obra mais dócil. Mas a lógica do sistema exige que de alguma forma os consumidores recebam algum dinheiro para poder comprar (ainda que seja como uma “renda mínima”). Henry Ford, um dos primeiros fabricantes de automóveis, logo percebeu que era bom que os sindicatos exigissem bons salários. Precisava ter compradores para os automóveis que produzia. Vender era essencial.

Quando, com as crises econômicas, aumentam os estoques e os pátios das montadoras ficam lotados, o sinal vermelho do sistema pisca. Manter estoques custa dinheiro; pior do que isso, a roda para de rodar. O dinheiro não se torna mais dinheiro se ficar parado na forma do produto em que se transformou. A atual crise mundial que a pandemia da Covid 19 fez surgir mais uma demonstração imediata disso.

Por outro lado, quanto mais depressa a roda gira, mais dinheiro retorna para quem o aplicou, pelo lucro obtido a cada volta da roda. Para isso existe a publicidade: invade sem parar televisões, rádios, jornais, celulares, para induzir as pessoas a adquirirem coisas e mais coisas e mergulharem no “maravilhoso – e prazeroso – mundo das compras”, como diz a propaganda dos shopping centers. Um exemplo bem próximo a todos dessa função da publicidade é o mundo do vestuário, estrela desses shoppings: renovada a cada temporada, a moda exige que se substitua a cada ano a roupa que ainda pode ser usada, estimulando o desperdício – outra das características do sistema. 

A parada da roda prejudica até quem ganha dinheiro sem fazê-lo passar pela forma de produto e sim, diretamente, pela Bolsa de Valores (a casa onde mora o tal de “mercado”, onde dinheiro faz dinheiro – e atualmente muito mais dinheiro que na produção), já que cai o valor das ações das empresas e embaralham-se as perspectivas de lucros futuros.

Para vender sempre e sempre mais, chegou-se ao paradoxo de pagar pesquisas para descobrir como automóveis, aparelhos domésticos e peças poderiam durar menos – obrigando os consumidores a substitui-los com maior frequência. É a chamada obsolescência programada, capítulo essencial no planejamento de grande parte das indústrias de produtos de consumo.[1]

Esse conjunto de mecanismos criou uma máquina infernal e insaciável, com a dimensão dos negócios sendo exacerbada pela dimensão dos mercados consumidores, em tempos de globalização. Tudo para produzir dinheiro – esse instrumento inventado para facilitar as trocas mas que acabou se tornando o rei do mundo. Ele hoje escraviza a maioria da população, que só pensa em como obtê-lo – seja para sobreviver, seja para acumulá-lo. Estimula a ganância, a violência e tudo de ruim que temos escondido dentro de nós, e nos leva a viver numa competição permanente que é o oposto da solidariedade e da colaboração.

 Sendo o objetivo da produção, fundamentalmente, o de ganhar dinheiro, a racionalidade das decisões sobre o que se vai produzir não busca formas de produção não poluidoras e que levem em conta a questão do impacto sobre o entorno ecológico, assim como não se guia pelas necessidades humanas a atender. Estas se transformaram em pretexto. Procura-se produzir o que dê dinheiro, e com esse objetivo até se criam necessidades. O que se quer são somente formas de produção as mais baratas possíveis.

Submetida à essa lógica, a atividade econômica não se incomoda em depredar o planeta em busca de todos os tipos de matéria prima ou de energia para nossas fábricas, assim como para os meios de transporte e de comunicação exigidos num planeta que se transformou numa única praça de produção e de consumo. Toda essa loucura sob o impulso dos interesses do “mercado” que, para não entrar em crise, exige que se mantenha um ritmo frenético de produção e consumo. Ainda que a Terra, nessa sofreguidão produtivista e consumista, se aqueça demais. Com todos nós transformados, até inconscientemente, numa peça essencial de todo o mecanismo, como compradores.

Seria possível recusarmos pelo menos o consumo supérfluo? Apoiando-nos no direito à objeção de consciência, usado por muitos jovens ao longo da história para não empunhar armas ou lutar em guerras, que tal fazermos objeção de consumo?

15 06 2020

Publicado em https://senospermitemsonhar.files.wordpress.com/2020/06/2543f-oclima09.pdf


[1] Sobre isto a revista francesa Reporterre publicou, no dia 10 de junho último, um artigo muito esclarecedor mostrando até onde pode ir a publicidade e a luta que já se faz contra ela. Ver em:  https://reporterre.net/Comment-se-liberer-de-la-publicite-arme-de-seduction-massive-des-multinationales

24/06/2020

World Social Forum – possible perspectives – Chico Whitaker

I the first part of this essay I reflect on the divergences of opinion that have always existed in the process of the World Social Forum. This first part was written before the elections in Brazil last autumn.  Since then Bolsonaro has been installed as president of Brazil and d the divergences I discuss in that first part have cooled down, at least in Brazil. Nevertheless, it remains important to record those divergences  when we try to take further our debate about the future of the WSF process, as I do here as well, in the second part of my essay.

Since the inception  of the World Social Forum there have been divergences of opinion concerning the character of World Social Forum and on how to organize them, on the content of the WSF Charter of Principles – especially where it prescribes that Forums should not have a Final Declaration – on the nature and role of its International Council  (IC) and on the possibility for it to take political positions in its collective capacity.

These divergences  have also  been being discussed in  the internal  circuits of the IC and of the Brazilian Organizing Committee (OC) of the World Social Forum.  Moreover, since perhaps the seventh global gathering of the WSF – this kind of event is commonly also referred to as editions of the WSF –  in Kenya,  there has been  at least one seminar or debate on the future of the WSF in all WSF editions taking place at the initiative often also of some its Finnish participants.

These discussions were at one point becoming repetitive and tiresome, almost like dialogues between deaf persons, but gained more intensity at a Council meeting held in Montreal, Canada, in August 2016, and in Porto Alegre in January 2017, when the IC decided that Salvador da Bahia, in Brazil, could host the 2018 World Social Forum. But with the success of this Forum the debates about the future of the WSF have resumed in roughly the same form as earlier.  The lack of effective consensus on revisions in the Charter has led, still at the IC in Salvador, to postpone decisions about revision  issue, without a prevision of resumption.

In fact, what is often made explicit, as a general feeling, is the need not to weaken a space like the WSF, which has become unique in the world, as a forum in which organizations that want to build the “other world possible “can meet, in the search for ways of resistance and construction of alternatives. So it is that, stubbornly, “the ship sails on” (la nave va –  is the title of a famous Italian film) in a process broader than the every two years editions of the World Forums. These large gatherings editions, have at times dwindled, but  twice they have also gained new momentum, as in Tunis in 2013, in times of Arab Spring, and again last year in 2018, in Salvador, Bahia, Brazil.  Moreover, at the same time, Regional, National and Local Forums have also multiplied, some of which persist, just as the Thematic Social Forums which have emerged lately, even at the world level.

The WSF stands, as we know, on the left of the political spectrum. We all know the history of divisions of the left. Bearing these too in mind it is  necessary to continue the effort to overcome the divergences in the WSF that can divide us.   We are all aware that several of the founders of the WSF have moved away from the organization of the Forums and also that three World Social Forums have been held parallel to those facilitated by the progress made through the deliberations and work of the IC and the Organising committee in Brazil. But we may also remind ourselves that it  is astonishing that the WSF exists already for 18 years without being victimized by the tendency of the left to implode through its internal divisions. ,

The WSF has experienced glorious moments, like the Forum held in India in 2004, with 120,000 participants, and then two Forums with 150,000 participants each one, in Porto Alegre in 2005 and in Belém do Pará in 2009. Since then its power of attraction has in fact diminished, but not disappeared. In its early years the WSF - a decade  after the collapse of the Soviet socialist experience when the Berlin Wall fall the WSF  sent a message of hope that reverberated around the world - "another world is possible" -   Soon after the sensational start the WSF disappeared from the radar of the mass media. (This happened especially after its dates of completion no longer coincided with those of the World Economic Forum in Davos.)The  relative loss of interest in the WSF shows itself also if we look at the International Council,  At first it had representatives from more than 150 organizations, but today just over 50 consider themselves to be its members. [1]. 
 
The Gordian knot of the divergences

In order to understand and analyze the divergences within the WSF, it seems to me that we must understand how they derive from conflicting visions of what a World Social Forum is or can be, even though we all have socialism as the same utopian reference: Should the WSF be an Open Space Forum or a Movement-Forum? This question reflects is a difference of vision that has existed since the first WSF. I will use the terms Space Forum (or Open Space Forum) and Movement Forum as shorthand for referring to the two basic alternative views of how to build the WSF.

If the Open Space Forum option is chosen, it would have to be a place of mutual information and debate on the ongoing struggles to overcome neoliberal capitalism, at the service of these struggles, nourishing them by deepening reflection and creating new articulations to be fulfilled after the Forums or outside them.

If the Movement-Forum option is chosen, it would have to organize its participants into actions for well-defined objectives, with priorities and strategies for such actions, clear decision-making processes and an adequate distribution of responsibilities.

In the first case the Forum would not be a political actor in itself but it would have a supportive  function for the  political actors that participate in  the meetings of the WSF. In the second case, it would have to assume its own role as a political actor, among all existing others, seeking to contribute as effectively as possible to the struggle of humanity for the “other possible world”.

This being said, it iss the first option that has prevailed in the organization of World Social Forums.[2] But in fact it has not been supported unanimously by the members of the Brazilian Organizing Committee, and its support has been even smaller among the many militants and intellectuals who have accompanied and helped, more closely or less, the work of this  Committee. . That is why in all the forums the divergence has resurged and expressed itself in different ways.

 
One expression of the divergence has been  the "Social Movements Assemblies"; an activity that has been realized in all the Forums, and to which all the Forum participants have been invited. Based on the  vision of Forum-Movement,  the organizers of  the Social Movements Assemblies have proposed orientations and struggles priorities and sought to get them accepted as  as a Final Declaration of the Forum. Those who have organized these assemblies  have always sought  to organize a meeting of the Assembly as a special space at the end of each Forum. This objective has also been achieved opening the possibility of presenting the "Assembly" as a conclusive activity of the WSF as a whole. Many misunderstandings have been created around this in the  history of the WSF, even when it has gathered  most successfully as an Open Space Forum.[3]

The overcoming of the divergence – between the Space Forum and the Movement Forum –  therefore still  requires a clarification of  what these antagonistic views mean to those  who organize Social Forums.

It does not seem to me that a Social Forum, still less at the world level, can be of the both types at the same time. If that is what we try to achieve both will lose. The WSF is  either an Open space or it is a movement. But as long as they do not compete with each other but support each other this does not mean that these two entities cannot exist concomitantly. . That is, the Open Space Forum and the Movement Forum – – even a “movement of movements”, as it has been proposed – may exist as autonomous but interconnected.. That was the conclusion I was reaching when I began writing this text and before I was drowned by the political events in Brazil leading to the presidency of Bolsonaro.

How did the forum-space option come about?

I Above, in my reflections from before our elections I have made an effort to remember the paths that led us to the proposal of  the Open Space Forum.  I had realized that that this proposal was the result of a collective process of reflection on the particularities and potentialities of the instrument that we were creating – and that the new proposal  has grown to  a magnitude  that has surprised us. Let me add that the reflection that led to the idea of the Open Space Forum was  stimulated also by other political initiatives that have emerged in this period of the mankind history, in particular by the Zapatista movement in Mexico.

In this process of conceiving the WSF as an Open Space Forum, I think  a decisive factor was the proposal to hold an alternative meeting to Davos  That fact explains why participation, in this meeting, was restricted to civil society, understood as the existing movements and organizations having social objectives and why governments, enterprises and political parties were excluded, although their members could participate as individuals, as has always been the case  with many of the Forum organizers themselves. For the reason that we also agreed on non-violence in political action, organizations that fought  capitalism or the governments serving it with military means  were also excluded when the WSF was conceived.

The prioritization of civil society was justified by its emergence at that time in the political landscape with its own initiative and autonomy. Civil society had until then been mobilized only as a  cadre for of parties and governments and manipulated by them from top to bottom. It also had  not had its own space for planetary articulation.  – But this space could now be provided by the WSF.

Before forming the WSF  the new role of civil society had become visible for instance in the action that blocked a World Trade Organization (WTO) meeting in Seattle in 1999and also before that, when pressure from social movements  prevented the Multilateral Agreement on Investment (MAI) that had been secretly discussed in the OECD in 1998 between large companies, investors and governments.

The exclusion of political parties

In the early years the exclusion of  parties was considered by many to be misplaced. As the critics rightly noticed  the Forum was a political initiative and the parties, in Brazil  as in many countries , are the only institutional instrument which can  try to interfere from within in the State power. However the decision to exclude political parties had a special reason.

When we at the time looked more closely at the civil society organizations that were interested in participating in the Forum, we saw, first of all, that they were bringing to the WSF a huge cluster of interests and types of action, very fragmented and extremely diverse.  Even if all were opposed to capitalism, as the WSF also is, there were differences between those who were beginning to criticize this economic system and those who had been fighting against it for a long time. We soon concluded that respect for all kinds of diversity would have to become an organizing principle of the WSF.


We then realized that we could not attempt to reduce the fragmentation of this multifaceted civil society by “organizing” it, as if it could become a “movement”, which always presupposes the existence of a direction and a distribution of functions, as well as discipline in the action of its members. What we could do was just offer to it a “meeting space.”

We also saw that the organizations composing it were often competing with each other when acting in parallel, in the same area. We saw then that the place of encounter that we would offer would allow them to hear each other – from oratory to “conversation”, as one of our good thinkers said – and, in recognizing one another, overcome prejudices, find convergences and even uniting to gain more political power in their action.

We concluded that the achievement of these objectives would be hampered if political  parties would participate as such in the Forum. Parties  have, in their own DNA, the competition  for political power, or at least for hegemony.. This struggle for power is central to their identity. Each party comes  with its  proposals, and each  needs to capture  State power to realize them. This aim  brings to the internal dynamic of the party  the struggle for their direction. That is, the parties are naturally and structurally competitive, to the point that they may even decide to postpone the conquest of political power rather than submit to the hegemony of another party.

By participating in the Forum, these “atavistic” tendencies of the parties would lead them to try to “instrumentalize” it in order to achieve their objectives, reducing it to one more venue for recruitment of militants and  of party disputes – pushing away from the Forum a large part of its participants. Even worse, the competitive dynamics in which they operate would necessarily contaminate the meeting, pushing aside the world of civil society world that tries to  build their union and cooperation with autonomy, as well  the efforts to make alliances and articulations for the construction of the “other possible world”.

If we consider what  happened in the presidential elections in Brazil in 2018  we see that one of  the many reasons for our defeat was our neglect of the political formation of all the citizens,  and also, even more, our difficulty to unite, as we have been ery busy competing even in our ability to mobilize people.

Non-directivity and self-management

The multifaceted character of the civil society that has been interested in the WSF has shown us the great quantity and variety of the yearnings for a world different from the one in which we live. But more than that, in the WSF we have seen  clearly that while we have all wanted to get a soon as possible to the “other possible world”, the construction we have had before us is a huge, time-consuming and complex set of tasks that would have to be developed over several generations, including cultural changes. Evidently no political power could organize and still less command this complex task of construction from top to bottom, even if it had artificial intelligences and enormous computers.

This is why some of us have come to the conclusion that it would be unrealistic to bring together all the participants of the Forum to some program of unifying action that could be adopted by all at its end, as a single Final Declaration. After the highly diversified forum of 2004 in India, we created, at the risk of an excessive dispersion of debates and reflections, thematic spaces within the larger framework of the  WSF. But we did not set out to articulate these spaces in a single direction.  We left it to each organization, or group of organizations within the same theme, to formulate its own program of work.

All these findings led us little by little to decide that the Forum would be fundamentally non-directive and would be defined as an open space. And it was in this same perspective that we adopted the principle of self-management for the Forum’s own program of activities – within parameters that would fit them in the space and time of each Forum – and that we went on to call our Committees of Organization (the OC and the IC)  Committees of Facilitation.

In effect, these decisions had the effect of giving all participants in the WSF  the certainty that they would not be used or manipulated by occult political organizations, at the same time as they could discover making them discover that the Forums were open to experimentation, allowing participants h to take advantage of the opportunities created by the meetings for the struggles of each organization and for them to articulate themselves at the national and global levels.


In this self-programming, the traditional tendency has been to organize conferences and panels, with speakers – most often without gender balance – addressing an audience of listeners. But there have also been many examples of methodological experimentation.  One example is a group of Brazilian doctors who met on the first day to share what they were doing, spread on the other three days participating in activities in other areas, and reconvened on the final day to evaluate what they had learned and define new initiatives.  Another example is provided by the French participants who, inspired by a North American author, organized a workshop on the question: what to do to make a Social Forum fail?  – which made it possible to identify more clearly what organizational options would guarantee the success of the World Social Forum. In the experiments with  self-management the experience of the young , coming from several countries, has also been significant who have  assumed, since  the first Forum, the shared administration of the great camps that they have set up.

New networks have also emerged, an organizational option only possible with organizations independent of parties and governments. Resistance and protest activities have been organized up to the planetary level. One example is  the birth of the organisation which later succeed in blocking the acceptance by the Latin American countries of the FTAA[4], an agreement that aimed at imposing  clauses drawn from the Multilateral Agreement on Investment on the continent.

These factors explain, in my view, the attraction that the WSF exerted, with an increasing number of participants, from 20,000 in the 2001 edition to 150,000 in 2005 and in 2009.  The participants have not been the people who are most “oppressed” by the system – a fact that has often been pointed out by  people who have criticized the WSF for this absence. Nevertheless, even if participation  from the most oppressed has  been nearly impossible in a world meeting, requiring long travel for many participants,  in the second Forum in Brazil  many Brazilian popular groups were present, who had crossed the country in caravans. And in 2004 in India 20.000 of the 120.000 participants were members of the lowest caste of that country, the Dalits, known as “untouchable”.

Moreover,  many of the participants have been  people who represent the oppressed sectors of the society or  fight for their causes. These people have been able to create open spaces such as the Forum in their own countries, closer to the reality of each country, without asking for the authorization of anyone.  Already in 2001 such other Forums began to emerge. This made it possible to say, at the World Social Forum in 2009, where the concept of Common Goods emerged in the discussions, that the WSF no longer belonged to anyone but had become a Common Good of Humanity. It leaved room for what is now called the “WSF process”, which is a much broader reality than  the regular global  meetings or “editions” of the WSF, which have  since 2005  been held every two years.


Horizontality of the networks and the decision by consensus.

So far we have made some observations about the self-management principle of the WSF-process. Now we can shift our attention to some further aspects of  the WSF as an event destined to receive the civil society. One such aspect is  the adoption of horizontality of the networks as an organisational principle. This principle  had shown its  efficacy in the mobilizations of Seattle in 1999.   As already indicated, this aspect of how to work within the WSF has not always been appreciated by all.  There are many who still believe that only disciplined pyramidal structures are effective (although capitalist firms themselves have long ago taken over the network formula for growth, with the franchise system, for example).

Nevertheless, the conclusion  arrived at by the present author is that the adoption of  the kind of self-management  that is characteristic of civil society in the very programming of the Forum’s activities, would also have to be a basic characteristic of the WSF, giving  all its participants the same importance and the same power.

These principles, or orientations, for work within the WSF had also to be experienced by the Organizing Committee itself, which had to consider the diversity of the political activity and size of the organizations represented therein. Against the backdrop of this experience we have decided in the OC not to have coordinators or spokespersons, and to act as a collective of equals, with attribution of responsibilities according to the possibilities of each one.

Although many still consider that only the decisions taken by majority of votes allow to move quickly to action, we adopted  decision by consensus as a procedure appropriate to the horizontality and to the non-competition for power inside the collective. We took into account, adopting this orientation, that the decision by the majority vote is historically an  achievement  of democracy, but also that within the political movements voting often leads to divisions when losers separate from the winners to create new organizations to promote their causes.


Considering the history of the Brazilian Facilitation Committee – which has never been divided and continues to exist as affinity group, even though it has been diminished in number – we see how decision by consensus can help in the construction of unity;an essential objective in political action because it, according to the popular wisdom, increases the force. Consensus is not the same as unanimity. It is a consentment. We consent to accept decisions which we  do not fully agree with if this acceptance results in maintaining our union. Sometimes the divergence of a single person may have the effect that a decision is not taken. This could be interpreted as a right of veto given to that person. But in fact it is not a veto. We only postpone the decision until the person who does not agree, after discussing the matter,  informs the others that she accepts the decision in order to to ensure the most important thing that is to keep the union.

Decision by consensus has also been adopted naturally by the International Council, although many doubts and resistances have emerged, which have been overcome only when we have been reminded that the Council is neither a trade union nor a political party, and that it would be better to delay decisions than to divide ourselves.

It is always worth remembering that a lack of unanimity has existed in all these decisions. This topic, is clearly pointed to already in the very title of the book I wrote about the WSF, launched in 2005 for  the fifth edition of the WSF that took place in Porto Alegre[5]. In that book I presented the WSF as an open space, and I placed in the Portuguese edition a careful subtitle: “a way of seeing”, as if to say: “there are other ways of seeing the WSF”. At roughly the same time another more daring member of the Forum’s organizers group called his book “World Social Forum – a political invention”[6], showing that we were facing the birth of a new kind of political space.

The invisible contradiction

What possibly has started to create  problems in the WSF process has been that  we have, without realizing it, ended up in a contradiction. On the one hand, the Charter of Principles, elaborated after the first WSF (and not before, as many may imagine), listed guidelines that in fact only consolidated the forum-space option. On the other hand, the International Council of the WSF was created and structured on exactly the same occasion but based on organizational principles more appropriate to the forum-movement option.  Moreover, the IC has been formed mainly of representatives of movements engaged in struggles.

This is possibly why present tensions and divergences do not arise within the Forums, among its participants, but within the Council. The main point of controversy is usually  the possibility of the IC to take positions as a political actor, as if the WSF were a movement. The solution to this dilemma has been that motions and statements have been signed by the member of the International Council, on behalf of himself and his organization, but not on behalf of the Council.  Nevertheless, this solution has not always satisfied those who hope that one day the WSF will become a movement.

This contradiction would also explain why some propose that ​​the IC should include the organizers of World Social Forums (and also regional, national and thematic ones), that is, people and organizations proposing themselves to organize Forums as a service to the WSF process.  The same contradiction would also explain why more Thematic Forums have emerged, focusing on specific areas of struggle, while at the same time the number of regional, national and local Forums-spaces has declined. Some regional and national fora have have had only a few editions, as in  the case of the European Social Forum. Probably among their organizers the number of those concerned with the ongoing social and political struggles was greater than those concerned with creating spaces for encounter and reflection.


The world changed?

But those who would prefer the Forum-movement option have become stronger, at the same time as the Forums-spaces have been weakening – with the exception of the Tunis 2013 WSF, in the midst of the Arab Spring – from the moment they began to be held in other countries. The reason may be that the open space forum character of the WSF reflects more closely  the experience of Brazilian civil society. The success of the WSF in Salvador in 2018 may possibly confirm this conjecture.

Advocates of the Forum-Movement have had an unbeatable argument for questioning the open space orientation of world events: the world has changed a lot since 2001 and the WSF needs to adapt to these changes. In fact only an ostrich would disagree with this statement. But I would say that the world has not only changed, it has changed for  the worse. With the capitalist system totally dominating human activities, the “other possible world” became an utopia even more distant than it was in 2001, despite our enthusiasm when we were surprised at the success of the first World Social Forum.

The wheel of history seems to have once and for all, in these almost two decades, followed  the path that it had already laid out: the destruction of the human race under the command of a suicidal economic system. The earth has been transformed into a single production area and a single consumer market, with the insatiable pursuit of profit leading, by the unlimited increase of production, to the predation of the planet. Personal enrichment (“prosperity”) has become the life goal of the majority, even on religious grounds. The famous expression of Margaret Thatcher from 1997 – saying “TINA” There Is No Alternative”,  has become a characteristic of the world economy, in which even the Chinese call their system market socialism


What’s the output?

If the above analysis is correct, the output that would appear most straightforward to overcome our divergences would be to fully assume one option – space or movement – making the other disappear. Perhaps many would prefer this outcome. But I do not believe it is the best one not only because we do not want to be divided but because in fact the two options are not mutually exclusive. On the contrary, they can coexist and ideally they would have to coexist and even to be articulated.

In addition,ithe disappearance of the Forum-space would not be desirable . These spaces have become even more necessary precisely because, as the world has changed a lot and the struggle for a “possible other world” has become even more difficult, the effective action of a “movement” towards “other possible world” will require much reflection. Deepening such reflection is precisely one of the most important functions of the Forums-space.

For example, in the debate about the parties, if we create a new “movement” linked to the WSF we will necessarily have to find how to dialogue as much as possible with the parties, without losing our autonomy.

We should also beat in mind that the reflection made possible in the Forums-space is aimed at the construction of the “other possible world”. This necessarily means that many proposals for action will emerge from the Forums  reflecting their internal diversity.  These proposals for activities presented at the end of the forums are designed especially for this occasion and neither the facilitators of each Forum nor the IC have been able to make them visible after the Forums, as asked in the Charter of Principles. The “movement” that could be created out of the WSF could assimilate in its actions the proposals that fit in its strategy, thus linking in practice the movement space vision with the ways the Forum as Open pace is realized.

We should also note that, on the other hand, the forums-space has  not contributed as much as one might have hoped  to the accomplishment of another of the WSF objectives: the experimentation of new political practices. That is, we have not yet sufficiently multiplied the spaces where we can “learn to unlearn” many of the political practices familiar  to us – using the expression of a French Communist Party member who so understood the meaning of the WSF by participating in one of the first Local Forums organized in that country.  We still need to search for ways of strengthening the spaces where we can concretely experience more cooperation than the competition.

Consequently, if we leave aside the space-FSM as an instrument of this kind of experimentation, in order to create a new movement only in a Forum-movement perspective, we will surely continue to “bog down” indefinitely in old practices until we are totally crushed by the heavy boots of the ultra-right.

Politics as it is?

The WSF places itself inside the effort of humanity to ensure that politics will be what it should be – a collective action searching the best for all, respecting the diversity of interests. But the distance to such ideal practices is immeasurable. The current political practices destroy political parties and politics itself and opens the road for the “saviors of the motherland”. To contribute to the renewal of political practices might be in fact one of the most important roles that the WSF can assign to itself – through the Forums-space – in the construction of “another possible world”.

The competitive spirit that is the mainspring of capitalist dynamics has contaminated the whole society. “You always have to take advantage” said a Brazilian football world champion in an advertising campaign. Competition floods our lives, from the school benches, with competitions, championships, prizes, contests, in which the greatest satisfaction is obtained by being the first, number  one, not by what is  achieved or produced.  In the present capitalist dynamics itis difficult to accept a secondary position on the stage. Who does not make self-promotion is necessarily behind.

And, of course, the same competitive spirit has also contaminated political action, moving people more deeply than even class or group interests. This contamination partly also  because political action is affected also by  factors related to human weaknesses, like vanity, egoism and the taste of  power. Thereby politics becomes the space for “coups”, in which the smartest always wins: the most opportunistic, the pragmatically coldest, those who jump faster on the horse ready to be mounted, the most capable of surprising and deceiving his opponents, so that his options and interests prevail. And even more, the winner will be whoever accepts without hesitation the principle that the ends justify the means; a perverse principle that in wars raises its level of barbarism and in peace the corruption of corporations.

What happened in Brazil ĺast autumn was the victory in the election of a candidate who was able to lie brazenly and to deceive voters with false information and by the manipulation of information directed through social networks. And as the pinnacle  of hypocrisy.  one of his most repeated slogan was: “Enough of lies. Now it will always be the truth! “- a direct translation of one of Trump’s most frequently repeated slogans.

Old politics inside home

A small episode experienced by the first WSF Organizing Committee shows how these practices are very close to us. It occurred around the decision about ending the Forum with a Final Declaration, taken by consensus for the reasons I have already indicated.

As we gathered after a break, we were informed that a “Call for mobilization” had been published on the WSF website along with the Final Information Note” of the organizers. Some participants, who saw this call as a Final Document of the WSF, had already said that they would not sign it and because of it they would move away from the WSF. Obviously the dissemination of the call for mobilisation on the WSF website caused a great malaise and almost led the people present if the OC  to decide not to continue together, although we were already committed to the realization of the second edition of the WSF.  Nevertheless, we continued to discuss a lot and, regaining calmness, we decided to rebuild our relationships of trust. As everyone had political experience, we knew that other such incidents would occur, as they actually did. We modified the position of the “Call” on the website, and a note explained it was a proposal emanating autonomously from Forum participants.

In fact we had been victims of a small “stroke” from someone who had the password to administer the site. Smarter or more daring, he decided, acting on his own account or not, to insert the “Call” that his organization had tried unsuccessfully to adopt as the Final Declaration of the WSF.


A new challenge ahead

In conclusion about what we now would have to do is to find creatively – and quickly – a way of having the two options (“Forums-space” and “movement”), interconnected, each with its function, so that we can simultaneously act and reflect on our action. We also need to work in collaboration to link people who participate in discussion meetings and in concrete struggles, according to the possibilities and needs of each one.

In this perspective, it would be be preferable, less stressful, for all to leave aside the dispute over the revision of the WSF Charter of Principles. It is intended to guide the Forum as open space (which makes its helpful reading  for those who want to organize such open Forums spaces). Its principles are all linked to each other, in a logical set aimed at this type of Forum. Changing something inside it can deconstruct this logic and create a Frankenstein difficult to understand. In creating a new movement, it would be better for it to be endowed with its own Charter of Principles, which would follow the logic of movements aiming at concrete struggles but experimenting with new practices, according to Gandhi’s principle saying “be yourself the world you want that exists “.

It would  in my opinion, not be beneficial to organize a World-social – Forums-movement alongside the World Social Forum – open space, as that would generate useless confusion. We would rather have to create something different,something that will be effectively a civil society movement and not a Forum, but which can refer  to the WSF and coexist with the Forums as open spaces. From this point of view it would even be possible to organize a Thematic Forum-Space on the organization of this new movement, in which we could gather the experiences of the civil society movements, of a new type, that have emerged in many places of the world, possibly inspired by the WSF and its proposals of horizontality, non-directivity and autonomy in the political struggle, as the Occupy Wall Street in United States, the Indignados in Spain,  the Nuit Debout in France and, more recently, in the same country, the Gilets Jaunes.

Some will certainly say:  is the proposal to maintain the WSF-space not an untimely insistence of the organizers of the first WSF, attached to the open space idea, coming from   fathers or mothers with limited maturity, who do not accept the independence and autonomy of the beings they have given birth to? That’s what many have already said. And the same question would possibly be a question coming from those who have not joined the WSF process from the beginning or who have not participated in the organization of Forums. I hope, however, that this text can bring clarification about this.

To conclude, we might even dream of many WSF-spaces taking place at all levels (from the local one to the global and using fully all the new tools of intercommunication created by the technological progress), at the same time as a new movement is structured. One part of that dream can be that  a worldwide event takes place from time to time (without fear of being called a Woodstock of the left) serving as  a periodical meeting for participants of both the Forums as open space and of the new movement, who see each other all as united in the search for new paths of action. Such an event would nourish the mood of all and serve to celebrate the size and strength of an ever more diversified and more articulated “civil society” struggling  to truly change the world.

All that has been proposed above  would require a review of the International Council’s function, composition and functioning. But, as already pointed out in the first footnore above it is not the moment to address this topic now, as it would lengthen the present text too much. (see note 1). So I close with the hope, to reach out to interested readers who can  increase the circle of those who want to make the WSF continue on its walk.

12/01/2019B


[1]                          This figure also explains why there has been more than one proposal to extinguish and recompose the IC, according to new criteria. The debate about the reform of the IC is important. In this text I will give a background for the debate but not go on to deal with the various  proposals of extinction and reconstitution of the IC, nor with  the various stages of its history in its search for its identity and function in the WSF process, for example when it substantially changed its mode of functioning at its 2004 meeting in Miami, in the United States; or when at the IC meeting in Copenhagen the IC assumed the task of completing the Charter of Principles in order to overcome doubts in relation with the understanding of its content and to go into more detail about the IC task of facilitation, formulating some guidelines. The treatment of these issues would lengthen the present text too much and divert it from its objective of indicating the genesis of the options regarding the character of the WSF. But for a careful analysis of the WSF and IC, it would undoubtedly be worth researching all the material for reflection on the WSF and on the IC that has appeared in articles written by members of the IC and in comments on the IC mailing list.

[2]                         It is useful to remember that the organizers of a mobilization against the war in Iraq, scheduled for 2003, asked twice for a call for this mobilisation from the WSF or from the WSF International Council (in January 2002 and in January 2003). The IC decided on both occasions not  to make the call as the Open Space nature of the WSF was already consolidated in the guidelines of the WSF making it clear that neither the WSF nor the IC could act as a political actor alongside with social movements. The force of those organising the mobilization , even when the WSF as such was not leading  it,  was fully demonstrated in the largest demonstration for peace   in world history, when on February 15th, 2003, 15 million people went  to the streets in 600 cities in 60 countries.

[3]          The same concern about the Social Movements Assemblies  as producers of  a single final document to speak for the entire  WSF, was reflected also when the so called Porto Alegre Consensus text was presented in the 2005 Forum to international journalists, in a room of a large hotel in Porto Alegre. The statement, written in direct opposition to the Washington Consensus, which since 1989 had guided the actions of the capitalist system governments and companies, was signed by 19 internationally renowned personalities. It listed 12 goals as a program of action to which all 150,000 participants of this F5M could converge. But it would in fact be impossible to verify whether all 150 000 participants would agree to adopt the "consensus" and hence it was only disclosed as a proposal, to be accepted and used by anyone who so wished.

[4]                         FTTA – Free Trade Area of the Americas

[5]                                 “The World Social Forum Challenge – A Way of Seeing”, Chico Whitaker, Editions Perseu Abramo and Loyola, São Paulo, 2005. In this book, available in Portuguese, English, French, German, Spanish and Italian, I develop in more detail many of the contents of this text.  

[6]                                 “World Social Forum – the history of a political invention”, José Correia Leite, Perseu Abramo Edition, São Paulo, 2003

16/06/2020

A PEC de que precisamos, já – Chico Whitaker

Como democratas, somos todos a favor do direito das minorias se exprimirem politicamente, por palavras ou ações. E lutamos para que lhes seja garantido esse direito. 

Mas o que fazer quando surgem minorias que se exprimem e agem contra a própria democracia? É o que vem ocorrendo no Brasil, num processo estimulado por um Presidente da Republica irresponsável, eleito não pela maioria dos cidadãos e cidadãs eleitores mas por uma maioria de votantes desinformados e manipulados por Fake News.  

Na mais grave fase de uma pandemia, continuamos sem um Ministro da Saúde que se respeite, e um Ministro da Justiça que se desmoralizou foi substituído por outro que parece não saber muito bem o que fazer e o que falar, o mesmo se passando com o Procurador Geral da Republica empossado há quase um ano. Enquanto aumenta o número dos que se convencem de que o Presidente deveria ser interditado por psicopatia.

É nesse quadro que surgem grupos antidemocráticos ou literalmente nazistas,  que procuram se impor como únicos donos das ruas e as percorrem buzinando em seus carrões, ou as ocupam contrariando as recomendações internacionais de evitar aglomerações para combater a Covid 19. Mas o que conseguem é somente aumentar, no povo, a confusão criada pelas ações do próprio Presidente, que dá insistentemente maus exemplos contra a precaução do isolamento, desrespeita os serviços de saúde e corta as verbas desses serviços. Onde chegará, em sua loucura, se há pouco até sugeriu que seus correligionários invadissem hospitais e filmassem nas enfermarias e UTIs o que nelas se passa, porque quer provar que se mente a respeito do numero de doentes e mortos?

O pior é que, com tudo isso, muitos dos opositores do Presidente se veem obrigados a também ocuparem as ruas, para denunciar o totalitarismo em marcha. Mas, caindo numa autêntica armadilha, criam outras aglomerações que – ainda que tomem todos os cuidados para evitar a propagação do virus – acabam por contribuir também para o aumento de numero de infectados.

Na verdade, os grupos anti-democráticos pouco se importam com o número de mortes que provoquem. O que querem é propagandear a necessidade de intervenção das Forças Armadas por meio de um novo AI5, que reinstaure em nosso país a ditadura. Mas a pandemia cansa e angustia a todos, enquanto as estatísticas publicadas aqui e no resto do mundo mostram uma permanente subida em flecha do numero de doentes e de mortos no Brasil, colocando nosso país no topo dos que ainda não conseguiram vencer a doença, que se espraia em todo o país. Mesmo que esperemos que um dia o consigamos, é penoso e aflitivo.

A Justiça acaba de mandar prender uma líder dessas minorias, que usa um vocabulário tão chulo como o do Presidente e se faz fotografar empunhando duas armas, já que o Presidente quer também armar o povo, como prometia Mussolini em tempos de triste memoria. Financiada por não se sabe que empresários, ela até montou um acampamento de supostos ditos rebeldes na Praça dos Três Poderes, de onde, na ultima noite antes das barracas serem desmontadas pela Policia, foram lançados foguetes contra o edifício do Superior Tribunal Federal, juntamente com ameaças físicas aos seus Ministros.

Mas demoram demais as medidas tomadas para neutralizar tais desvarios. E, o que é mais assustador, não são encontradas, no emaranhado de leis de nossa democracia, medidas que permitam afastar do poder político o mais rapidamente possível o chefe de tudo, para impedir que faça, a cada dia que passa, cada vez mais danos ao país. Minimizando a gravidade da pandemia, ao mesmo tempo em que despreza os negros, os pobres e os indígenas e propaga a sua intolerância com todos os diferentes, ele provoca um numero cada vez maior de mortes e pouco a pouco vai destruindo nossa soberania, nossa economia, a educação, a pesquisa cientifica, o sistema de saúde, o meio ambiente, a imagem internacional do país, etc., etc.,  E estamos falando de um país conhecido em todo o planeta pela cordialidade de seus habitantes, que já foi campeão mundial do futebol e até já foi chamado de “pais do futuro”.

Porque não se abre um processo de impeachment, atendendo a um clamor cada vez mais generalizado de toda a sociedade? Diz-se que pelo receio de não serem obtidos no Congresso os votos necessários para isso, uma vez que mais de um terço dos atuais parlamentares foi eleito na mesma onda eleitoral do Presidente, faz parte do que há de mais  corrupto na classe politica e aceita portanto ser comprado para manter seu apoio a ele, ainda que seja evidente sua incompetência e possa ser indiciado imediatamente como um criminoso.

O impeachment parece também não acontecer porque a ameaça da intervenção militar – cuja consistência ninguém conhece de fato – imobiliza o resto do Congresso. O mesmo se passa com o TSE, que já analisa se as eleições de 2018 devem ser anuladas por fraudulentas. Mas todos sabem que a intervenção pode vir das milícias ligadas a toda a família do Presidente, e estas provavelmente já se encontram bem armadas, graças a MPs e portarias que tornaram mais flexível a entrada de armamentos e munições no país e o controle de sua posse. O próprio Presidente da Republica parece desejar uma guerra civil, com a qual se destrua completamente a nação.

Ou seja, estamos no pior dos infernos, paralisados enquanto a casa pega fogo. Não seria o caso dos nossos especialistas em direito constitucional buscarem rapidamente uma maneira da Constituição nos tirar da inacreditável imobilidade em que nos encontramos? Precisamos já de uma PEC que tipifique os crimes de destruição da democracia e da própria nação, assim como permita que seja afastado do poder todo governante, a qualquer nível, que não tenha, comprovadamente, condições psíquicas para dirigir governos.

Talvez esse tipo de precaução não tivesse sido considerada necessária pelos nossos Constituintes, por pensarem que seria impossível que acontecesse esse descalabro. Mas vivendo e aprendendo, diz a sabedoria popular. Às vezes dolorosamente, como agora.

 16/06/2020.

Tambem publicado na Carta Capital de 17/06/2020

https://www.cartacapital.com.br/opiniao/precisamos-de-uma-pec-que-tipifique-o-crime-de-destruicao-da-democracia/

13/06/2020

A questão da segurança nas usinas nucleares – Chico Whitaker

(Este texto foi escrito para facilitar a apresentação do tema em Roda de Conversa promovida pela Conexão Virtual Antinuclear em 13 de junho de 2020)

Porque a questão da segurança nos obriga a dizer um NÃO redondo a usinas nucleares ?

Para começar eu lembraria as três grandes mentiras que nos contam sobre as usinas nucleares: elas são o modo mais barato, mais limpo e mais seguro de se produzir eletricidade.

A primeira é uma mentirinha. Cara ou não, conseguem-se financiamentos, quando se acha que vale a pena. Embora complique quando se somam os custos do desmonte das usinas (elas têm uma vida útil limitada), dos acidentes e dos depósitos de lixo atômico.

A segunda já começa a complicar mais. As usinas sujam a Terra com um lixo difícil de fazer sumir, porque é radioativo. E parte dele, o combustível usado, é altamente radioativo. Nela entra portanto a terceira mentira, sobre a segurança. Esse lixo é perigosíssimo, enquanto não for escondido no fundo da terra.

Já a terceira mentira complica demais. É uma mentira deslavada. Que nos ameaça sem nenhuma piedade. Se virmos a dimensão do problema, a questão da segurança nos fará deixar de discutir todo o resto, questões técnicas ou econômicas, custos, lixos, matrizes energéticas, para dizer um grande NÃO às usinas nucleares. È o grande ponto fraco dessa tecnologia.

***

Ela sempre foi tratada como coisa secreta, porque era a mesma das bombas atômicas – a “arma das armas”, como se dizia no Projeto Manhattan, com o qual se fabricou a primeira. E por isso está nas mãos dos militares.

As usinas nucleares foram inventadas para continuar desenvolvendo a tecnologia das bombas, quando, na corrida armamentista da Guerra Fria, começava a crescer a pressão pela interrupção dos testes com bombas (até ali tinham chegado a 50 mas ao final da Guerra Fria passaram dos 2.000…)..

Aqui no Brasil, os militares que tomaram o poder em 64 tinham a ilusão de um dia ter a “bomba brasileira” e para isso começaram a aventura das usinas. E ainda sonham com ela, ou pelo menos com submarinos nucleares.

***

Elas são uma invenção simples (uma nova forma de esquentar água) mas de execução complexa e sofisticada. Por isso as usinas são perigosas, exigindo enormes cuidados de segurança.

Foram propostas para dizer que a energia atômica pode também ser utilizada para fins pacíficos, embora o uso pacífico medicinal dos átomos viesse de bem antes das bombas, do fim do século XIX, com a descoberta da radioatividade e, depois, do radium pelo casal Curie.

As usinas nucleares foram lançadas em 1953 por Eisenhower, o general norte americano que virou presidente dos Estados Unidos depois de comandar as tropas de seu país na segunda grande guerra. Ele o fez apresentando o Programa Átomos para a Paz na Assembleia das Nações Unidas, oito anos depois do maior genocídio que seu pais perpetrou nessa guerra, o de Hiroshima e Nagasaki

Há os que se queixem, como o atual Presidente da Eletronuclear, que as usinas tiveram por isso o pior marketing da historia. Pior seria se elas tivessem sido chamadas usinas atômicas… Mas os cientistas e tecnólogos que trabalham com energia nuclear tem muito orgulho da invenção meio genial desse uso pacifico do átomo…

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Mas o seu grande ponto fraco – o de sua segurança – só apareceu claramente mais adiante. Depois dos muitos sustos que pregou, com o que chamam de incidentes ou de acidentes de maior ou menor gravidade, aconteceram os grandes acidentes nucleares de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, e em Fukushima, no Japão, em 2011.

Esses acidentes foram chamados de “severos”, porque os reatores derretem, o que provoca explosões e com elas verdadeiras catástrofes sociais, econômicas e ambientais. Todos os nucleopatas achavam que esse tipo de acidente era impossível, até que o primeiro acontecesse em 1979, nos Estados Unidos – embora com efeitos menos catastróficos – num lugar chamado Three Mile Island.

Tinha havido um anterior, na União Soviética, mas o mundo só ficou sabendo dele 30 anos depois.

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Esses “acidentes severos” são de fato mais raros, mas quando acontecem tem-se que sair de perto o mais rapidamente possível. Por isso é preciso elaborar planos de emergência com instruções e rotas de fuga. Não se assustem quando virem a pouca seriedade do Plano de Emergência para nossas usinas de Angra dos Reis.

Em Chernobyl foram evacuados todos que moravam num raio de 30 km, inclusive os 70.000 habitantes de uma cidade a 3 km da usina. Em Fukushima foi tambem e 30 km de raio a área de evacuação, mas o governo dos EEU afastou da região todos os norte-americanos num raio de 80 km. Em Angra está prevista uma evacuação num raio de 5 km…

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Não se pode falar em que dia aconteceu esse tipo de acidente, como se fala de qualquer outro, como um avião que cai, uma barragem, uma ponte ou um prédio que desmoronam, um carro que se espatifa num poste.

Nestes outros acidentes a gente chora os mortos (como agora tristemente com a Covid 19) mas depois a vida continua – até um próximo acidente. Com acidentes nucleares é diferente.

Deles se tem que falar em que dia começaram. E até em acidentes menos graves com aparelhos medicinais, ditos radiológicos, como o ocorrido em 1987 em Goiânia, com um aparelho de radioterapia abandonado. Ele logo matou 4 pessoas mas muitas outras depois, ao longo dos anos, até agora.

Foi o risco desses “acidentes severos” que levou a Alemanha e outros países a abandonarem as usinas  nucleares.

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Sua principal característica é a disseminação de muitas partículas radioativas no meio ambiente. A carga de combustível que disseminam num acidente é de uma tonelada de urânio radiativo ou dos elementos também ou mais radioativos que resultam da quebra de seus átomos. As bombas também o fazem, ao provocarem as chamadas “chuvas negras”, mas seu volume em combustível é muitíssimo menor.

Algumas dessas partículas deixam de ser radioativas em minutos, até em segundos. Mas há outras que permanecem radioativas durante milhares de anos, durante séculos. Por exemplo o plutônio, que é o elemento radioativo que as usinas mais produzem, a partir de 96% dos átomos de urânio que entram no reator como combustível.

Grande parte do lixo atômico de alta radioatividade que temos que deixar fora do alcance das pessoas pela eternidade é de plutônio. Quem o toque terá morte certa e rápida. E a metade dele desaparece só depois de 24.100 anos.

Se pensarmos que a era cristã, em que vivemos hoje, tem 2.020 anos… Pode-se dizer, exageradamente, que as partículas radioativas são imortais.

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Não se brinca com partículas radioativas invisíveis, silenciosas e sem cheiro. Elas são como os vírus: nos destroem por dentro. As vezes os canceres aparecem muitos anos depois de sermos contaminados. E nossos filhos podem nascer malformados.

Os cientistas dizem que a Vida só se tornou possível no planeta Terra quando baixou o nível de radioatividade que nela existia, e moléculas passaram a conseguir se juntar sem serem imediatamente separadas por radiações.

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Nos incidentes e nos acidentes menores o que pode acontecer são vazamentos de radioatividade. O que torna um absurdo dizer que se pode morar até pegado a uma usina, como afirmam os que as propagandeiam. Serão os mais indefesos frente à radiotividade que escapou.  

As usinas são cercadas de arame farpado e vigiadas dia e noite. Uma vez, passando ao lado de uma das usinas nucleares da Argentina, o amigo que me levava deu uma paradinha com seu carro junto a essa cerca mas fora do lugar onde havia um mirante para “admirar” de longe aquela obra, e até um zoológico que criaram no entorno da usina para dar a impressão de lugar tranquilo, onde ninguém sofre nada com ela. Em meio minuto parou um carro com guardas para nos dizerem que tínhamos que sair dali e não tirar fotografias.

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Não há obra humana 100% segura. Um dia, acidentes podem acontecer, inesperadamente. E acidentes “severos” podem ocorrer em qualquer uma das mais de 400 usinas nucleares que existem no mundo. Inclusive aqui no Brasil, em Angra dos Reis. Até porque as duas usinas de lá estão ficando já meio velhinhas.

A radioatividade que elas disseminem podem alcançar o Rio ou São Paulo. No Japão quase alcançaram a região de Tóquio, com dezenas de milhões de moradores. E o Pacifico levou partículas radioativas até os Estados Unidos, do outro lado do Oceano. A nuvem radioativa de Chernobyl cobriu toda a Europa. Por isso se diz que acidentes nucleares ignoram fronteiras.

Um acidente na beira do S.Francisco certamente alcançaria muitas cidades em torno, e até Recife. E contaminaria todo o Rio S.Francisco… Pescaríamos e comeríamos peixes radioativos.

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É difícil provar uma relação de causa e efeito, no caso da radioatividade. Mas há um texto publicado pela Academia de Ciências de Nova York em 2013, de cientistas da Ucrânia que estudaram a mortalidade em toda a Europa depois do acidente de  Chernobyl.

E eles chegaram ao incrível numero de 925.000 mortos com os vários tipos de doença provavelmente provocados pela radioatividade da nuvem de Chernobyl – que carregava césio 137, o mesmo que matou tanta gente em Goiânia. (vejam em https://www.ecologia.cc/Chernobyl-a-de-milh%C3%B5es-de-mortos-year-20/)

É interessante o que se diz nessa publicação sobre um acordo que existiria entre a OMS – Organização Mundial da Saude e a AIEA – Agencia Internacional da Energia Atômica, para controlar a difusão de dados sobre os acidentes nucleares.

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Mas como se chega, no nuclear, aos acidentes “severos”? Porque ela não é uma bomba atômica, se usa a mesma tecnologia?

Como já vimos, nas usinas se esquenta a agua que está no vaso do reator (por isso chamamos as usinas de chaleiras atômicas) quebrando átomos radioativos e provocando uma reação em cadeia: de um átomo quebrado saem partículas que quebram outros dos quais saem partículas que quebram outros, e assim por diante.

Nas bombas se quebra também os átomos e se provoca a reação em cadeia mas se deixa essa reação andar, até chegar a um calor infernal  (em Hiroshima e Nagasaki as pessoas evaporavam) e explodir. Nas usinas, ao contrario, essa reação em cadeia é controlada, e o reator é permanentemente refrigerado (por isso elas são construídas sempre à beira d’agua) para que o calor não suba demais e não o derreta.

Mas isso pode vir a acontecer quando muitas falhas se combinam (as chamadas falhas múltiplas) no funcionamento da chaleira e no seu controle, extremamente complexo.

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Nem vou falar aqui do problema do combustível usado, altamente radioativo, que é guardado em piscinas permanentemente refrigeradas até poder ser levado a depósitos provisórios e depois definitivos, onde devem ficar pela eternidade.

Por isso tudo dizemos que essas chaleiras são uma insanidade: caríssimas, sujas e perigosíssimas. Ainda mais que existem outras formas mais baratas, mais limpas e mais seguras de se produzir eletricidade.

13/06/2020

29/05/2020

Padre Raymundo Caramuru de Barros, um testemunho – Chico Whitaker

Caramuru partiu. Silencioso, modesto, como sempre viveu, apesar de tudo que sabia sobre o Brasil e sobre a Igreja e tudo o que fez por ela no Brasil. Depois de muito tempo sem o ver, pude visitá-lo no ano passado numa casa de repouso em Brasília, já bastante debilitado mas com o olhar sempre vivo, acompanhando tudo que eu lembrava de nossos tempos trabalhando juntos na CNBB. Às vezes lhe saia uma lagrima nos olhos, o que significava -segundo José Carlos e Fernando, da CJP de Brasília, que me levaram até ele e lhe davam um apoio permanente – que lhe vinha bem à memoria tudo que eu recordava.

Não segui de perto todas as historias de sua vida, no Brasil e fora dele. Somente compartilhei aqueles anos em que consagrou todo o seu tempo a que a Igreja brasileira assumisse as novas orientações que estavam sendo adotadas no Concilio Vaticano II, para o qual Dom Helder Câmara, com quem Caramuru trabalhou antes, durante e depois desse Concilio, contribuiu intensamente.

João XXIII anunciara o Vaticano II em 1959, três meses depois de se tornar Papa, e o convocou em Dezembro de 1961. Nesse mesmo mês em que o convocava – para inaugurá-lo em 1962 – enviou uma Carta Apostólica aos Bispos da América Latina recomendando-lhes planejar sua ação, com vistas a aumentar sua eficácia.

Dom Helder, que foi Secretario Geral da CNBB de sua fundação em 1952 até 1964, não titubeou em seguir essa recomendação. E já em 1962 levou à Assembleia Geral da Conferência, que o aprovou, um Plano de Emergência da Igreja no Brasil. Caramuru deve ter contribuído bastante para a elaboração desse Plano, mas guardava só para ele essa informação.

Os ventos do planejamento na área dos governos já sopravam no mundo,

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21/05/2020

A Maldição do nuclear III – “Solução radioativa para todos os males” – Chico Whitaker

Depois que se começou a descobrir os segredos do átomo e a radioatividade, foi por assim dizer animadora a exploração das possibilidades de uso dos raios X e dos “raios de Becquerel” (alfa, beta e gama) para atender às necessidades humanas. Embora já se identificassem riscos, como os que levaram Pierre Curie a fazer um alerta quando recebeu o Premio Nobel de Física de 1903.

Na historia da maldição do nuclear, houve um primeiro período de uso pacifico da energia nuclear. O segundo, dito também pacífico, foi o de criação das usinas nucleares para produzir eletricidade, depois de se passar pela hecatombe das bombas atômicas.

O primeiro período durou quase quarenta anos, até que a ciência chegasse à bomba. Foi coroado pelo trabalho de Irène Joliot-Curie e seu marido Frédéric, que lhes valeu o Premio Nobel de Química de 1935 por encontrarem uma maneira de criar artificialmente novos elementos radioativos.

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09/05/2020

A Maldição do nuclear II – O tempo das descobertas – Chico Whitaker

 

Porque maldição? Na verdade o alerta, ou a profecia, feita por Pierre Curie quando ganhou, com sua mulher Marie Curie e o físico francês Henri Becquerel, o Prêmio Nobel de Física de 1903, poderia ser entendido como uma maldição.

Naquele momento, a partir do fim do século XIX e inicio do século XX, as descobertas científicas em torno das radiações estavam tendo um enorme impulso. O físico alemão Röentgen descobrira o que chamou de raios X – levando-o a ganhar em 1901 o primeiro Prêmio Nobel de Física. Becquerel descobrira as radiações espontâneas do urânio, que foram chamadas de radioatividade. Pierre e Marie Curie, aprofundando o conhecimento dos então chamados “raios de Becquerel”, descobriram num mineral de urânio um novo elemento radioativo que chamaram de “Polônio” – em homenagem ao país natal de Marie – e em seguida outro, 900 vezes mais radioativo que o próprio urânio, que chamaram por isso mesmo de “Radio”.

Frente a esse nível de radioatividade do radio, Pierre Curie se preocupou com a possibilidade dele ser usado para ferir seres humanos e disse, no discurso que enviou à Fundação Nobel:

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01/05/2020

A Maldição do nuclear – I – Chico Whitaker

As autoridades sensatas de todo mundo estão nos aconselhando – e mesmo nos impondo sanções, se não o fizermos – a ficarmos isolados em nossas casas, para diminuir a enorme velocidade de contágio com que o novo vírus que assola o planeta nos ataca. Seria inoportuno – e mesmo desrespeitoso com as vitimas dessa pandemia – usar esse isolamento para pensarmos em outra coisa que na realização de um objetivo quase único de vencer a ameaça à espécie humana que surgiu num pais e rapidamente invadiu todos os continentes?
Na verdade a parte que tem ser feita por nós, na nossa atual impotência política de simples cidadãos e cidadãs, é a de nos mantermos afastados de qualquer convívio potencialmente perigoso para todos. E também a de tentarmos convencer da gravidade da ameaça, pelos meios de que cada um dispõe, aqueles que não estão se dando conta disso. Ainda mais que há alguns governantes irresponsáveis – com menção especial ao que infelizmente se passa no Brasil – que atuam em sentido exatamente contrário ao mais rudimentar bom senso.
Com isso ninguém se arrisca a prever o que nos espera, num futuro próximo ou longínquo, diante do espantoso aumento do numero de contagiados por força do poder de comunicação desses autênticos criminosos, que usam especialmente a necessidade de trabalhar dos menos informados que vivam em condições mais precárias, no quadro da escandalosa desigualdade social que caracteriza o país.
Isto nos obriga ainda mais a concentrarmos nossa ação no combate à pandemia, estimulados inclusive pelos gestos de solidariedade que se multiplicam em toda parte. A começar pelo trabalho heroico dos profissionais de saúde que, mesmo sem contar com os necessários equipamentos de proteção e até adoecendo por causa disso, estão dia e noite cuidando dos que foram infectados.
Mas, paralelamente, ficamos sabendo também da extensão e variedade das ações dos que se aproveitam da pandemia para beneficiar-se e tirar todo o proveito possível. A maldade se faz presente quase quanto o vírus. Desde a dos que simples e diretamente se disfarçam de enfermeiros para assaltar, até os que aplicam pequenos e grandes golpes ou usam o poder político de que dispõem – porque antes da pandemia foram eleitos para governar e legislar – destruindo direitos sociais conquistados ao longo de décadas ou criando ainda mais privilégios e artimanhas econômicas para os donos do dinheiro, que sempre dominaram o mundo.

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