26/12/2016

Exposição no Senado Federal sobre os riscos da usina de Angra 3 – Chico Whitaker

Exposição em audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado

Chico Whitaker, 29 de novembro de 2016

Senhoras Senadoras e Senhores Senadores,

Antes de mais nada, agradecendo o convite para participar desta audiência sobre o risco potencial de um acidente nas Usinas de Angra dos Reis, convém que eu diga a que título vou me expressar.

Não sou físico nem engenheiro nuclear. Minha formação universitária é de arquiteto-urbanista e minha experiência profissional é de planejamento, em diferentes áreas. Participei de atividades políticas – tendo pago os atrevimentos de jovem com 15 anos de exilio – e cheguei a ser parlamentar, mas somente a nível municipal. Falo portanto como um simples cidadão.

Meu contato com a questão nuclear é bastante recente, desde o acidente ocorrido nas usinas de Fukushima, no Japão, em 2011. Até então tinha um conhecimento bastante limitado sobre o uso da fissão nuclear – e dos subprodutos dessa fissão – para fins militares e civis.

Mas a dimensão desse desastre, após o tsunami, me levou à obrigação, a mim e a outros cidadãos e cidadãs, de procurar saber qual era o risco que corríamos, com duas usinas a uma distância relativamente curta de São Paulo e do Rio, e o que poderia ser feito para evitar o drama de um acidente nuclear, nesta ou em qualquer outra região do Brasil. Continue lendo

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26/12/2016

um voto de natal bem especial – Chico Whitaker

Texto publicado no numero de dezembro de 2016 do boletim Rede, publicação do Centro Alceu Amoroso Lima para a Igualdade

 

Um voto de Natal bem especial

Chico Whitaker

Preocupar-se com que se costuma chamar de questão nuclear – bombas, usinas, reatores e submarinos nucleares – nos leva a aprender muita coisa: sobre os átomos e a indescritível energia que se esconde em sua infinitesimal realidade, sobre a possibilidade da radiotividade salvar vidas, mas também sobre os interesses malsãos que podem conduzir empresas e negócios, sobre as aplicações perigosas da ciência, sobre os erros que os políticos podem cometer em detrimento de seus concidadãos… E até sobre a alma humana…

Neste último campo do conhecimento, minha preocupação com o nuclear tem me levado a constatar como os seres humanos são capazes de empurrar para trás da porta as coisas que podem tirar seu sossego, mas também como conseguem ser extremamente generosos. Continue lendo

12/10/2016

Igualdade ou desigualdade, eis a questão! Chico Whitaker

Igualdade ou desigualdade, eis a questão!

Chico Whitaker

Quando alguém acompanha de longe – como eu agora, a milhares de quilômetros do Brasil – as discussões que se travam entre os militantes de esquerda em nosso país, não deixa de ser impressionante a dificuldade que se está enfrentando para começar a re-virar o jogo, depois da espetacular paulada que o PMDB – este enorme e maquiavélico partido, que usufruiu dos bônus de todos os últimos governos sem arcar com seus ônus – conseguiu acertar bem no meio de nosso crânio. A multiplicidade e a intensidade das análises, autocriticas e propostas que surgem de todos os rincões a que tenho acesso, graças ao fenomenal serviço que as famosas redes sociais prestam a uma intercomunicação horizontal – sem nem se importar com as distâncias – me levam a concluir que agora sim, muito mais do que em tempos de pré-impeachment, entramos em “estado de perplexidade” pós choque. Eu diria até que o que vemos no Brasil hoje é quase uma dança de baratas tontas. Com algumas vozes tentando colocar ordem no pedaço.

Fomos de fato surpreendidos, refestelados que estávamos no tal de poder, com a velocidade máxima que a oposição ao PT e seus aliados imprimiu ao golpe parlamentar-mediático-jurídico que estavam urdindo há muitos anos. Continue lendo

15/07/2016

Buscando saidas (contribuição para “Dialogos Congresso em Foco)” – Chico Whitaker

Buscando saídas

Contribuição para Seminário “Diálogos Congresso em Foco”, em Brasília

Chico Whitaker, 14 de julho de 2016

 

A busca de soluções para a atual crise e para a crise permanente em que vive nosso país tem evidentemente que considerar muitos e diferentes aspectos e áreas. O mínimo que se pode dizer é, acacianamente, que a questão é extremamente complexa… Ao abordá-los a quantidade de fatores e raízes do imbroglio só aumenta nossa perplexidade. Propostas que considerem somente alguns desses fatores e raízes nem mereceriam ser ouvidas. Mas não temos outro remédio senão o de apresentá-las, para que pelo menos se submetam ao crivo de outras opiniões.

Além disso é certo que não superaremos nossas crises de um só golpe – usando esse termo no seu sentido geral e não referido ao golpe de que muito se fala nos dias de hoje. Nem salvadores da pátria, nem geniais técnicos, nem revoluções politicas conseguirão achar caminhos que levem de uma só vez às portas de saída. E se nos aproximarmos dela podemos conhecer frustrantes voltas para trás. Infelizmente não temos senão a alternativa da reforma, isto é, do pouco a pouco. Com um acumulo infindável de pequenas e grandes mudanças não somente nas estruturas como também nas cabeças das pessoas.

A solução que resta é escolher bem cada passo a ser dado. Buscando mudanças que nos façam sair do círculo vicioso e entrar numa dinâmica virtuosa. Continue lendo

02/07/2016

Celebração do Jubileu de Ouro do Cardeal Arns, em 2 de Julho de 2016. Chico Whitaker

Palavras de Chico Whitaker, na celebração do Jubileu de Ouro do Cardeal D. Paulo Evaristo Arns como Bispo da Igreja Católica, na Catedral de São Paulo em 2 de Julho de 2016.

 

Como homenagear D. Paulo hoje, na comemoração dos 50 anos de sua sagração como Bispo?

Considero que a melhor maneira é lhe dizer que continuaremos seguindo suas orientações, por mais exigentes que sejam. E que esperamos fazer de novo esse compromisso com sua presença entre nós ainda por muito tempo.

Sem nunca escolher as circunstâncias em que nascemos, nós, humanos, podemos muda-las ao longo de nossas vidas.

Nesse sentido, uma primeira orientação que D. Paulo nos deu foi a de que não tenhamos medo. E ele não o disse, ele o fez. O que é em si mesmo uma orientação. Nossos atos é que confirmam nossas escolhas. Ele nos dizia, sempre que se despedia da gente: “Força e coragem!” Continue lendo

14/06/2016

Tentando superar a perplexidade – Chico Whitaker

 

São muitos os que no Brasil de hoje – entre os que leem jornais ou seguem os noticiários na televisão – vivem um sentimento de perplexidade diante dos acontecimentos políticos. Os filiados a partidos ou que integram grupos organizados ou movimentos tem em quem se apoiar para sair da imobilidade em que toda perplexidade nos joga. Mas mesmo que muita gente vá às mobilizações convocadas, ainda restam muitos que não conseguem saber para onde se mover.

Não é para menos. Em 2015 houve eleições, mas os que foram derrotados não aceitaram os resultados eleitorais para a Presidência da República. E imediatamente começaram a construir condições que pudessem revertê-los, ainda que tivessem que chegar a atropelos constitucionais.

Mas bem mais de um ano antes começaram a ser descobertos incríveis “esquemas” de corrupção, em número e dimensão muito acima do que podia imaginar um cidadão comum. E eis que recentemente o surgimento de gravações inesperadas misturou os dois processos, desnudando o real interesse de muitos dos que participavam do desmonte político do governo eleito. O que os movia não era a contestação dos resultados eleitorais mas o medo de serem envolvidos nas descobertas relativas à corrupção. Continue lendo

06/06/2016

Porque a corrupção? Chico Whitaker

Porque a corrupção?

Chico Whitaker

 

“O menino será enterrado neste sábado (4). Um dia antes, a família gastou R$ 628 com caixão e coroa de flores. “O último dinheirinho que a gente tinha”, afirmou a mãe do menino”. (Cotidiano da Folha de São Paulo de 4 de junho de 2016, em matéria sobre o menino de 10 anos morto pela PM no dia anterior)

 

Vivemos hoje no Brasil uma grande tomada de consciência de como a corrupção se espalhou pelo país. As “operações” da Lava Jato nos surpreendem a cada dia com novas revelações sobre esquemas e esquemas montados para desviar dinheiro público em benefício próprio. Ao mesmo tempo somos surpreendidos com informações como a de salários acima de todos os tetos estabelecidos, recebidos tranquilamente por funcionários do Estado porque não há lei nenhuma que os impeça, esperteza que corresponde a mais uma das muitas formas de corrupção.

Mas o problema não é somente brasileiro: no mundo inteiro, até nos chamados “países desenvolvidos”, a corrupção corre solta. Muita gente não pode senão se perguntar: é possível acabar com esse mal que parece ser universal? Continue lendo

15/01/2016

Movimento de Apoio à Objeção de Consciência?

O texto “Objeção de consciência – uma maneira (pacífica e humilde) de mudar o mundo”, postado no Facebook no domingo 10 de janeiro de 2016, foi bem acolhido por muita gente e republicado em vários lugares.

O blog senospermitemsonhar.wordpress.com, em que também o apresentei, foi visitado por mais de 300 pessoas, nestes últimos 5 dias.

Será que haveria gente disposta para uma conversa exploratória sobre a proposta de criar um Movimento de Apoio à Objeção de Consciência?

Estarei esperando pelos interessados no dia 18 de janeiro, 2a. feira, às 19 horas, na Ação Educativa, sala 12, rua General Jardim, 660 (Santa Cecilia).

Abraços do Chico Whitaker

10/01/2016

Objeção de consciência- uma maneira (pacifica e humilde) de mudar o mundo – Chico Whitaker

 “Seja a mudança que você quer para o mundo” – Ghandi

Aprendi muito em minha passagem como vereador pela Câmara Municipal de São Paulo nos anos 90. Da compreensão mais clara da função do Poder Legislativo e das distorções das suas relações com o Executivo à constatação das minhas limitações pessoais para a vida partidária e para a luta por subir na pirâmide do poder político.

Outro aprendizado me foi proporcionado pela experiência de relatar e depois presidir Comissões Parlamentares de Inquérito sobre corrupção dentro da Câmara: funcionários técnicos honestos davam encaminhamento burocrático a processos com irregularidades; bons advogados colocavam seus conhecimentos a serviço da impunidade de criminosos, pelo princípio do direito de todos à defesa. Isto tornava essas pessoas cúmplices eficazes da corrupção e eu não via como evitá-lo.

Esse sentimento de impotência muitas vezes nos imobiliza. Como hoje frente à evolução das coisas no Brasil e no mundo. Mas talvez um modo de agir usado contra a guerra há muito tempo – a objeção de consciência – possa abrir pistas de ação.

No final da primeira Guerra Mundial movimentos pacifistas, de não violência, propunham ações coletivas de desobediência civil[1]. Quem as colocou mais em evidência, já depois da segunda Guerra Mundial, foram os jovens norte-americanos que se recusavam a ir para o Vietnam por “objeção de consciência”. A consciência do que era e significava essa guerra os impedia de participar. Continue lendo

11/03/2015

De como é difícil e angustiante lutar contra usinas nucleares no Brasil – Um pequeno testemunho. Chico Whitaker

De como é difícil e angustiante lutar contra usinas nucleares no Brasil

Um pequeno testemunho

Chico Whitaker

(Este texto está sendo escrito e divulgado num momento de crises políticas, sociais e econômicas que estão criando muitas tensões no Brasil. Pode parecer que passo ao lado delas como se não existissem. O que ocorre, na verdade, é que não podemos parar nossas lutas porque as coisas fervem em outras áreas. Especialmente no caso do nuclear, em que cada dia que passa é crucial, como indico ao tratar de explicar o porquê de minha angustia. Mas aproveito para mandar um recado ao Ministro da Fazenda, no final da nota ix. Se ele o ouvir, será bom para nossa luta mas também para as demais…)

Se alguém do ainda pequeno grupo de brasileiros que lutam contra usinas nucleares no Brasil aborda uma pessoa conhecida ou desconhecida e toca no assunto de sua luta, a primeira reação é de surpresa: nuclear? O que é isso? Se perguntamos se lembram do que aconteceu há quatro anos em Fukushima, surge um pequeno laivo de interesse: Fukushima? Ah sim! O terremoto? O tsunami? Isso mesmo, mas também o acidente nas usinas nucleares… Ah sim, realmente… Mas na memória do nosso interlocutor o lugar, os fatos são tão longínquos, no tempo e no espaço! Nem tentemos lembrar a catástrofe anterior, ocorrida em Chernobyl em 1986, na então União Soviética…

Se insistimos em nossa conversa, dizendo que temos duas usinas nucleares funcionando no Brasil (são duas?) e uma terceira em construção, e que corremos riscos semelhantes, o espanto aumenta. Passam a nos olhar até com uma certa desconfiança… E se forem como eu, um pouco mais idosos, o olhar passa a ser penalizado e de condescendência: coitado do velhinho, a cabeça está começando a girar… Continue lendo