03/11/2010

Se me permitem sonhar

Apresentação

Escrevi o texto  “Se me permitem sonhar”, abaixo reproduzido, em outubro de 2010, uma semana antes do 2o. turno das eleições presidenciais no Brasil. Era somente um “desabafo”, frente ao baixo nivel das campanhas  nesse 2o. turno. Mas o enviei a uns tantos amigos que poderiam estar frustados como eu.

As reações positivas que recebi, no entanto, me surpreenderam. Vários amigos disseram que precisaríamos aprofundar algumas das questões que levantei. E como no texto falei em achar uma “praça” para continuar a sonhar, resolvi criar este blog, como uma “praça virtual”, onde – “se nos permitem sonhar” – toda contribuição será mais do que bem-vinda.

Chico Whitaker

SE ME PERMITEM SONHAR

Enquanto na Internet e nas portas de algumas igrejas o segundo turno das eleições para a Presidência está em fervura máxima, nas ruas as campanhas estão incrivelmente mornas e mesmo frias – a não ser, evidentemente, naquelas por onde passam os candidatos… Isto nos permite, andando por elas, pensar mais serenamente no seu conteúdo, saindo do campo perigoso das balas perdidas, no intenso tiroteio com que os respectivos apoiadores tentam literalmente arrasar a imagem daquele a quem se opõem.

Mas se essas caminhadas são boas também para a saúde física e mental, a reflexão que nelas se faça pode entristecer. É o que está ocorrendo comigo, quando penso como os marqueteiros reduzem os candidatos a simples capatazes da máquina administrativa, que precisam se mostrar capazes de fazê-la funcionar, numa infindável competição de promessas frente às múltiplas insuficiências existentes no Brasil. Será que, achando-se mais bem informados do que todos nós sobre o que pensam os eleitores, eles proíbem seus clientes de dizerem que tipo de país precisamos construir, na reflexão efetivamente política que se esperaria de quem queira assumir a Presidência da República? Continue lendo

03/11/2010

Comentários e contribuições

Seus comentários e outras contribuições são bem-vindos nesta “praça” virtual, na qual poderemos nos sentar para refletir com calma  “sobre o Brasil que queremos”. Eles aparecerão aqui abaixo. Dentro da regra dos blogs, “os ultimos serão os primeiros”… (embora a recente atualização que fiz tenha misturado a ordem dos iniciais).

Vejam nas “indicações práticas” como colocar neste blog seus comentários e contribuições, assim como textos úteis para nossa reflexão.

Enviarei de vez em quando a todos um aviso sobre o que andou entrando de novo no blog.

Espero que tenhamos uma conversa bem animada.

Meu abraço, Chico Whitaker

04/11/2010

12/11/2019

I – A experiência politica vivida no Brasil em 2018 – 1a. parte do texto Reflexões: Brasil e Fórum Social Mundial – Chico Whitaker  

Reflexões: Brasil e Fórum Social Mundial

Introdução

Este texto foi escrito a pedido da publicação Globalizations, da Finlândia, como contribuição para a discussão em curso sobre o Fórum Social Mundial. Comecei a escrevê-lo há mais de três meses, antes do “terremoto politico” que em 2018, vitimou o Brasil, país em que o FSM nasceu há 17 anos. E não consegui continua-lo frente à intensidade que o terremoto foi ganhando.

Quando retomei a redação ainda estava sob o impacto emocional dos resultados extremamente negativos das eleições realizadas em 28 de outubro. Foi mais difícil do que eu imaginava. Escrever sobre o FSM me dava a sensação de escrever nas nuvens, como se tivesse desaparecido o chão em que estavam meus pés. Em que poderia trocar ideias com outros, mas sobre desejos ou sonhos realizáveis fora do Brasil. Parecia que aqui começávamos a viver um enorme retrocesso civilizatório. Enquanto na Argentina e no Chile a perda da Presidência pela esquerda podia ser vista como um movimento de alternância no poder, no Brasil uma extrema direita fascista estaria procurando se instalar.

Mas eu precisava retomar a redação desse texto. Se não o conseguisse os que querem interromper a caminhada dos povos teriam conseguido o que sempre buscam, com tanques de guerra ou modernas técnicas de comunicação: paralisar aqueles que se opõem a eles. Foi o que quase aconteceu comigo e pode estar imobilizando muita gente, com mentes e corações tomados pela perplexidade, pelo desânimo e até pelo medo. Resolvi respirar fundo e continuar.

***

Pensei então em tratar a análise das perspectivas atuais do Fórum Social Mundial, meu objetivo inicial, depois de relatar em mais detalhe o que aqui se passou, porque vai de alguma forma interferir no processo do FSM, pelo menos no Brasil.

Dividi então o texto – que acabou ficando muito longo – em duas partes: uma crônica da experiência brasileira neste ano de 2018 e uma análise das perspectivas do Fórum Social Mundial. Assim, quem já tenha as informações da primeira parte poderão passar rapidamente à segunda. E optei pelo titulo genérico “reflexões” porque na verdade é o que mais podemos fazer agora, frente a perspectivas pouco previsíveis.

***

Espero interessar leitores que aumentem o circulo dos que possam fazer o FSM prosseguir em sua caminhada, assim como o circulo dos que se solidarizem de alguma forma com os brasileiros, no período difícil de historia em que acabamos de entrar. Assim como espero que os jovens que me leiam não se deixem intimidar frente ao futuro pouco animador aqui apresentado. Dada a dimensão do retrocesso que está se preparando, a resistência já está tomando forma. Fiquemos atentos aos acontecimentos. Não percamos a esperança.

I – A experiência politica vivida no Brasil em 2018.    

O mundo todo se surpreendeu com o que aconteceu no Brasil nas eleições presidenciais em outubro de 2018. Eu assim resumiria o motivo dessa surpresa: Continue lendo

12/11/2019

Fórum Social Mundial – perspectivas possíveis – Chico Whitaker

Esta é a segunda parte de um texto mais longo“Reflexões: Brasil e Fórum Social Mundial”, escrito a pedido da revista Globalizations, da Finlândia, sobre as perspectivas do Fórum Social Mundial, em setembro/outubro de 2018, em pleno  período das eleições que levaram Jair Bolsonaro à Presidência da Republica do Brasil. A primeira parte desse texto não podia portanto deixar de considerar o que estava acontecendo naquele momento em nosso país, nos preocupando a todos, e agora ainda mais. Mas naturalmente Globalizations só pode reter, para publicação, em inglês, a segunda parte desse texto,  especificamente sobre o Fórum Social Mundial. E só agora o publicou, inicialmente, no link https://www.tandfonline.com/eprint/ETPT3PJAVUMNEMKB2DUM/full?target=10.1080/14747731.2019.1670957

Com o texto liberado para publicação, eu coloco neste blog a versão em português tanto dessa segunda parte como de sua 1a. parte, sob o titulo A experiência politica vivida no Brasil em 2018

E segue abaixo a 2a. parte do texto , com o titulo que lhe foi dado na publicação de Globalizations: “Fórum Social Mundial – perspectivas possíveis”.

 

Enquanto todo o descrito na primeira parte deste texto acontecia, não podiam senão arrefecer, pelo menos no Brasil, as divergências que sempre existiram no processo do Fórum Social Mundial. Ao começar a escrever este texto eu havia identificado algumas: sobre o caráter dos Fóruns de nível mundial e o modo de organizá-los, sobre o conteúdo da Carta de Princípios do FSM – especialmente onde prescreve que os Fóruns não devem ter uma Declaração Final – sobre a natureza e o papel do seu Conselho Internacional – CI e sobre a possibilidade desse Conselho ter posicionamentos políticos enquanto Conselho.

Elas vinham sendo discutidas civilizadamente, em nossos circuitos de intercomunicação. Continue lendo

18/10/2019

Aos meus amigos de Pernambuco – Chico Whitaker (versão 2)

Depois que o Prefeito de Angra dos Reis mandou dizer aos pernambucanos que era muito bom fazer mais seis usinas nucleares na beira do São Francisco, mandei a eles a carta abaixo:

Aos meus amigos de Pernambuco

Tem razão o Prefeito de Angra. Uma usina nuclear é uma enorme construção muito bonita. Que oferece emprego a muitos trabalhadores para ser construída e depois empregos para funcionar – embora bem menos.

O grande problema, que ele parece ignorar, é que essas usinas são monstros adormecidos. Que tem que ser permanentemente alimentados com o pior veneno que os seres humanos conseguiram descobrir nas profundezas da terra: o urânio radioativo, que há os que o chamem de dragão da maldade. Os técnicos que cuidam do monstro colocam esse urânio no seu estômago, sob a forma de toneladas de pastilhas, enriquecidas com átomos quebráveis. Seu aparelho digestivo quebra então esses átomos, o que produz muito calor – tais átomos são portanto o combustível do reator nuclear. Este calor ferve a agua que está no estômago do monstro, e seu vapor move turbinas que criarão eletricidade. Como os pequenos dínamos que fazem com que se acendam as luzes de nossas bicicletas.

Mas já ai, o que parece ter sido uma descoberta genial começa a criar problemas. Um deles desmonta o mito de que essas usinas são a forma mais limpa de se produzir eletricidade. Porque que enquanto dorme o monstro também defeca. E são toneladas de pedaços dos átomos de urânio quebrados, já transformados em diferentes tipos de partículas mais venenosas do que o urânio que o monstro comeu, tirados do seu estomago uma vez por ano. Como o césio-137, do qual só 19 gramas mataram tanta gente em Goiânia, a partir de 1987. Ou como o plutônio, muitíssimo radioativo: um grama de plutônio mata quase imediatamente a pessoa que ele contamine. A metade de sua massa leva 24.100 anos para se desmanchar (o que tecnicamente se chama de sua “meia vida”).

Ou seja, uma usina nuclear não é como outras usinas de eletricidade. Nelas se lida com coisas muito perigosas. Que são as mesmas das bombas atômicas. E basicamente com a mesma tecnologia. Elas produzem duas coisas ao mesmo tempo: eletricidade e dejetos chamados de lixo atômico. Do qual pode ser separado o plutônio, que se tornou o combustível preferido para bombas. O que nos faz desconfiar do interesse dos militares em usinas nucleares…

Mas este lixo mais do que sujo – uma herança maldita que já estamos legando para varias gerações de nossos descendentes, com as mais de 400 usinas existentes no mundo o produzindo continuamente – é um real pesadelo: ainda não se descobriu, em parte nenhuma do planeta Terra, onde escondê-lo com segurança durante milhões de anos, talvez pela eternidade… Mas os técnicos muito sabidos (somente em física e engenharia nuclear) que nos querem impingir esses monstros não se mostram muito preocupados. Nem levantam o assunto na propaganda mentirosa do seu comercio.

Mas, digamos, tudo bem enquanto esses monstros permanecem dormindo: tudo que defecam é imerso em grandes piscinas, de onde não sai nem cheiro – aliás se saísse não saberíamos porque radiações não tem cheiro. O problema é que a água dessas piscinas tem que ser permanentemente refrigerada. Isso também não nos contam… Porque as partículas do combustível usado que está nelas continuam se quebrando naturalmente e, portanto, produzindo muito calor. E podem explodir se por falta de sorte sua refrigeração parar… Por isso os desalmados que constroem esses monstros derramam promessas e fortunas às prefeituras (como aqui no Brasil em Angra dos Reis e nos municípios vizinhos), para que elas nos convençam a aceita-los dormindo em nosso quintal, emporcalhando-o com suas evacuações sem que nem o percebamos.

Mas ai de nós se os monstros acordam… Eles então mostram que são uma das invenções mais terríveis de cientistas frios e inconsequentes. Ao acordar eles vomitam tudo que engoliram e ainda está em seu estômago, com os muitos diferentes nomes das partículas em que o urânio se transformou. Os moradores da vizinhança tem então que fugir correndo, mal toquem as sirenes. Deixando para trás suas casas com tudo que tinham, rapidamente contaminado com o vômito do monstro. Porque as partículas radioativas que ele contém são invisíveis, não tem cor, não zumbem nem doem ao nos alcançarem. Só se vai saber, às vezes muitos anos depois, quem foi por elas contaminado, quando cânceres surgem não se sabe como no nosso corpo, quando menos se espera.

Se ele acordar ele próprio explodindo, muitos mais ainda serão atingidos pelo vômito, espalhado por nuvens que o vento levará onde quiser, a grandes distancias, sem que ninguém possa controlar. A radioatividade assim disseminada matará sem apelação ainda muito mais gente durante milhares de anos…

Mas, apesar disso tudo, até que dá para conviver muito tempo com o monstro, que é muito discreto e silencioso enquanto dorme. Pelo menos foi o que disse o Prefeito de Angra dos Reis. Basta não acordá-lo e ficar aproveitando o dinheiro que seu irresponsável construtor distribui, até para coisas às quais nunca teríamos acesso. Mas quem viu uma sala de controle de uma usina sabe que essa paz é enganadora. É extremamente complexo o cuidado com a saúde do monstro. Não bastam enfermeiros ou enfermeiras dedicados. É preciso uma equipe de “operadores”, que arriscam ali dentro dele suas vidas, revezando-se dia e noite. Protegidos por vestimentas especiais, máscaras e luvas e mesmo escafandros para não receberem radiações.

Nessa sala dezenas de relógios, telas e mostradores indicam permanentemente a temperatura e a pressão do monstro, enquanto outros providenciam veneno suficiente para encher seu estomago. Uma falha no sistema ou uma pequena peça que se estraga, combinada com um descuido, complica de repente as coisas. Ou uma manutenção mal pensada dos aparelhos que mantem aquele corpo imenso em vida. Como aconteceu nos Estados Unidos e na União Soviética. Ou um acidente natural do lado de fora, um deslize de terra, como pode acontecer em Angra dos Reis. Uma inundação imprevista, como aconteceu no Japão. Ou mesmo a queda de um avião exatamente sobre a usina, por puro acaso ou intencional, como se temeu que acontecesse na Alemanha, quando um piloto suicida de um avião de linha fez cair seu avião numa região em que havia varias usinas. Hoje em dia até drones armados podem surgir não se sabe de onde…

Ou seja, o monstro adormecido pode inesperadamente acordar. E se levanta rápida e imediatamente, quando acorda. E se movimenta em segundos, apesar de todo o seu peso. O incontrolável toma então conta de tudo. E uma catástrofe social e ambiental acontece, como em Chernobyl e em Fukushima. Por mínima que seja, essa possibilidade existe. Não podemos nos esquecer que não há obra humana 100% segura.

Os efeitos de um desastre nuclear desse tipo só estarão começando a acontecer, no momento do desastre. Nesse mesmo momento é relativamente pequeno o numero dos que são vitimados. Mas esse número aumenta continuamente e muito, por muito tempo. Porque ele espalha um quantidade enorme de partículas radioativas, que nos atingem silenciosamente, sem que nem o percebamos. Não será um acidente como outros. Em Fukushima, temeram que todo o país desaparecesse, quando três de seus monstros adormecidos acordaram e explodiram…

É preciso muita inconsciência para se aceitar uma usina nuclear em seu quintal. Mas a grande maioria das pessoas está pouco informada da realidade desses monstros. Aceita os argumentos e se deixa enganar pela enorme propaganda dos criminosos que os vendem, com interesses e intenções escondidas.

Um abraço do Chico Whitaker, um cidadão a quem um dia contaram tudo isso.
(25/10/2019)

30/09/2019

Os monstros adormecidos de Angra dos Reis – Estórias para boi não dormir – Chico Whitaker

(1ª. Versão)

Em Angra dos Reis, numa linda estrada de um lindo litoral, passamos pertinho de dois monstros adormecidos, paramos para umas fotos de lembrança e seguimos adiante. Temos que viver, afinal de contas. Ninguém gosta de pensar em desgraça.

***

Mas de onde tirei essa estranha ideia de chamar usinas nucleares de monstros adormecidos? Eu ouvi pela primeira vez a palavra monstro, referida a usinas que explodiram, no final do filme “Fuhushima – cinco dias decisivos”, agora em exibição no Brasil. Um jornalista que pretendia escrever sobre o acidente entrevistava pessoas que viveram por dentro o drama desse acidente. E perguntou a um dos membros do Gabinete do Primeiro Ministro que, vestido como seus auxiliares do uniforme de bombeiro, como manda a tradição japonesa em situações de crise, comandava as providências a serem tomadas: estariam eles conscientes de que enfrentavam um monstro, que nunca se tinha visto no Japão?

Logo depois encontrei essa mesma percepção em um texto escrito em 2013, dois anos depois desse acidente. Ele me foi dado no ano seguinte pelo seu autor, Ichiyo Muto, um respeitado pensador e ativista antinuclear japonês. Apresentando a gênese das usinas nucleares no Japão, a partir do lançamento do programa Átomos para a Paz pelo presidente norte-americano Eisenhower nas Nações Unidas em 1953, ele mostra que interesses, escondidos atrás das usinas, moviam os militares japoneses. Em dos parágrafos do seu texto ele diz: Nós fomos continuamente informados pelo regime e pela mídia a ele leal que o conforto, a facilidade de vida, a prosperidade e o consumo de massa seriam todos impossíveis sem energia nuclear, e nós – a maioria da sociedade – engolimos inteiramente essa ideia. Agora, no entanto, foi revelado o que é de fato a verdadeira natureza dessa opção energética: a criação de uma besta hedionda, por assim dizer, que envenena tudo que toca e se mantem interminavelmente destruindo a vida – mostrando ser uma espécie quase imortal que resiste, por todos os meios ao seu alcance, a ser morta e posta para descansar.[1] Continue lendo

13/09/2019

URGE AGIR – Chico Whitaker

Impressiona a rapidez com que age, em seu proposito destruidor, o exercito de malfeitores, psicopatas e oportunistas que invadiu nosso país.

O tempo nos pressiona. Estamos rapidamente passando no Brasil a um estagio de luta politica em que alternâncias pacíficas no poder politico não podem ser pacientemente construídas, nem há muito tempo para tentar entender o que aconteceu e propor saídas racionalmente estruturadas como opção contra a destruição. Vidas não podem ser recuperadas e recursos nacionais serão perdidos para sempre quando o direito mais sagrado é o da propriedade

Não podemos deixar para constatar “depois” que nossos indígenas foram todos dizimados, completando o que se começou a fazer nos tempos do “descobrimento”; Continue lendo

08/09/2019

7 de setembro de 2019, dia da Independência nacional – Chico Whitaker

7 de setembro de 2019, dia da Independência nacional
Já não estamos tão paralisados. Manifestações e protestos começam a se multiplicar, nas mais diversas áreas sob o ataque da barbárie. Até o Congresso segura algumas insanidades, embora deixe passar outras. O próprio STF se prepara, no seu ritmo, para recuperar a primazia da Constituição e estancar as práticas inadmissíveis que permitiram a um alucinado se tornar Presidente. O numero de arrependidos aumenta, inclusive entre os que esperavam ganhar mais dinheiro com o novo governo. E se eleva o nível de consciência do desastre na própria base da sociedade, que vive mais concretamente as consequências negativas do debacle econômico, como o desemprego. Denuncia-se cada vez mais direta e claramente o sofrimento causado pelo estímulo da violência e da intolerância. Multiplicam-se ao infinito as analises que identificam causas, cumplicidades e resultados da aventura em que 57 milhões de eleitores empurraram o país, ainda que outros 89 milhões não estivessem de acordo. Jornais e revistas mudam de lado. Até o mundo lá fora é alcançado pelos estilhaços da insensatez, se escandaliza e começa a defender Bens Comuns da Humanidade que a historia colocou sob nossa responsabilidade. Homens e mulheres, jovens e adultos cobertos com o preto do luto começaram hoje a invadir nossas calçadas. Está na hora de encontrar o modo de dar o empurrão final para nossa libertação.
Em muitos países do mundo que sofreram as consequências dos desatinos que levam às carnificinas das guerras, cidadãs e cidadãos descobriram, há mais de cem anos, uma forma de resistir: a desobediência civil. Usando de seu direito humano de não fazer o que atentasse contra seus princípios de consciência, começaram se opondo a impostos que financiassem a violência e em seguida se recusaram a integrar exércitos, e com isso enfraqueceram ímpetos destruidores. Em nosso país o direito à objeção de consciência e a forma de exercê-lo é pouco conhecido. Mas talvez tenha chegado a oportunidade de descobrir quão poderosa é essa forma de ação politica pacifica. Em ações decididas coletivamente e sustentadas por redes de apoio.

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28/08/2019

Conto fantástico II – Chico Whitaker

Ao voltar de uma viagem imaginária a um país invadido por um exercito de doentes mentais, criminosos e oportunistas – relatada em outro Conto Fantástico – encontrei meu próprio país submergindo numa quase agonia. Vitimado por uma insanidade crescente, seu Presidente, em sua incrível ignorância e desfaçatez, se isolava cada vez mais, atacando inimigos e amigos, destruindo tudo que podia – como prometera a quem o quisesse ouvir na sua primeira viagem ao exterior depois de eleito. Meus compatriotas, paralisados com o absurdo de cada dia, estavam sem saber como escapar do desastre que parecia se aproximar.
Quando cheguei ele estava querendo presentear um filho – como em reinos atrasados – com a embaixada no país mais poderoso do mundo. E como se quisesse desprepará-lo para suas funções, dava seguidos exemplos da mais absoluta contradição com a prática diplomática, referindo-se de forma desrespeitosa a outros governantes e mesmo a seus familiares. E já carregava a culpa – que poderia leva-lo a um impeachment e até a uma acusação num Tribunal internacional – de não ter evitado um desastre ambiental anunciado três dias antes por quem o provocaria. E que teria consequências planetárias, num mundo cada vez mais angustiado com a perspectiva de extinção da espécie humana por falta de condições de sobrevivência física. O que o levara a falar à Nação, em cadeia nacional de TV, lendo, como um boneco rígido, uma pequena cola que puseram à sua frente.

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20/08/2019

Sobre o texto “Precisamos falar sobre o nuclear” – Chico Whitaker

O autor do texto Precisamos falar sobre o nuclear” (Michael Liebreich), faz parte de um enorme batalhão de técnicos que a indústria nuclear mobiliza para evitar o seu declínio.

Ele apresenta o novo argumento que a indústria nuclear está agora usando para salvá-la desse declínio:  o de que as usinas nucleares são “a solução” para se enfrentar o problema das mudanças climáticas e do aquecimento global – sobre o qual a humanidade parece estar finalmente acordando.

Usa para isso uma linguagem que pretende ser objetiva, com um convite para que a questão seja debatida pelo “ativista antinuclear vitalício” e pelo “fã mais ardente” dessa tecnologia, “seguindo em frente em um caminho baseado na verdade e na reconciliação, não em um slogan do tipo ‘vamos todos gritar um para o outro, minha tribo versus sua tribo’ ”.

Mas não podemos nos deixar enganar pelos dados e números que apresenta – que nem merecem o Continue lendo

08/08/2019

O dia em que o Japão quase desapareceu – Naoto Kan [1]

Texto de Naoto Kan, Primeiro Ministro do Japão quando do acidente de Fukushima. Publicado em Agosto de 2019 pelo Le Monde diplomatique, da França, tradução de Stella Whitaker

Com um ano de antecedência em relação aos Jogos Olímpicos de Tóquio,  o Japão quer mostrar ao mundo que a região de Fukushima, devastada pelo tsunami e pela catástrofe atômica de 11 de março de 2011, já voltou a uma vida normal. Mas isto está longe da realidade. O primeiro ministro daquele momento, Naoto Kan, dá, a seguir, um testemunho das dificuldades que tiveram para enfrentar o desastre. Desde então ele milita pela suspensão do uso civil da energia nuclear.

 

Já passados oito anos do grande terremoto no leste do Japão, o tsunami e o acidente nuclear de Fukushima, em março de 2011, continuam gravados no meu espirito. Eu estava dormindo em Kantei (residência do primeiro ministro). Nos momentos em que ficava sozinho, sempre vestido com o uniforme de bombeiro, como se é obrigado em situações extremas como aquela, eu dormitava no sofá do salão. Na realidade eu me estendia no sofá para repousar o corpo enquanto refletia sem parar nas medidas a serem tomadas.

Como eu nunca tinha tido atividade profissional ligada ao nuclear, meu conhecimento do assunto se limitava às noções de base adquiridas durante meus estudos universitários de física aplicada. Eu tinha lido relatóriossobre o desastre de Chernobyl e sobre os danos que podem ser provocados por um acidente nuclear, mas jamais tinha  imaginado que um desastre de uma dimensão ainda maior pudesse ocorrer no Japão. Continue lendo

31/07/2019

Conto fantástico com final feliz – Chico Whitaker

I – A invasão

Um estranho Exército de doentes mentais, criminosos e oportunistas de repente invadiu aquele pais de clima ameno, convívio fácil entre seus habitantes e cheio de promessas. A força invasora surgiu de dentro do próprio país e se apropriou de todos os espaços do poder político logo que se divulgaram os resultados eleitorais,  sem perder tempo. Seu chefe era um malfeitor ignorante e violento, que conseguiu ser eleito Presidente da República graças a um atentado forjado, que levou as pessoas desavisadas a se condoerem dele e permitiu que não sofresse desgaste em debates entre candidatos. Pouco depois de empossado, viajou ao país que mais admirava e a cuja bandeira batia continência e declarou, ao primeiro grupo de políticos e empresários que encontrou, que sua primeira missão era a de destruir seu próprio país. E seu Ministro da Economia, recrutado entre economistas enriquecidos com especulações nas Bolsas, completou: “venham logo, estamos vendendo tudo”.

O Presidente tinha sido expulso da corporação militar quando oficial de baixa patente, mas continuou fiel ao anti-comunismo primário que na Guerra Fria movia essa corporação. E, como toda personalidade psicopática, Continue lendo