03/11/2010

Se me permitem sonhar

Apresentação

Escrevi o texto  “Se me permitem sonhar”, abaixo reproduzido, em outubro de 2010, uma semana antes do 2o. turno das eleições presidenciais no Brasil. Era somente um “desabafo”, frente ao baixo nivel das campanhas  nesse 2o. turno. Mas o enviei a uns tantos amigos que poderiam estar frustados como eu.

As reações positivas que recebi, no entanto, me surpreenderam. Vários amigos disseram que precisaríamos aprofundar algumas das questões que levantei. E como no texto falei em achar uma “praça” para continuar a sonhar, resolvi criar este blog, como uma “praça virtual”, onde – “se nos permitem sonhar” – toda contribuição será mais do que bem-vinda.

Chico Whitaker

SE ME PERMITEM SONHAR

Enquanto na Internet e nas portas de algumas igrejas o segundo turno das eleições para a Presidência está em fervura máxima, nas ruas as campanhas estão incrivelmente mornas e mesmo frias – a não ser, evidentemente, naquelas por onde passam os candidatos… Isto nos permite, andando por elas, pensar mais serenamente no seu conteúdo, saindo do campo perigoso das balas perdidas, no intenso tiroteio com que os respectivos apoiadores tentam literalmente arrasar a imagem daquele a quem se opõem.

Mas se essas caminhadas são boas também para a saúde física e mental, a reflexão que nelas se faça pode entristecer. É o que está ocorrendo comigo, quando penso como os marqueteiros reduzem os candidatos a simples capatazes da máquina administrativa, que precisam se mostrar capazes de fazê-la funcionar, numa infindável competição de promessas frente às múltiplas insuficiências existentes no Brasil. Será que, achando-se mais bem informados do que todos nós sobre o que pensam os eleitores, eles proíbem seus clientes de dizerem que tipo de país precisamos construir, na reflexão efetivamente política que se esperaria de quem queira assumir a Presidência da República? Continue lendo

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03/11/2010

Comentários e contribuições

Seus comentários e outras contribuições são bem-vindos nesta “praça” virtual, na qual poderemos nos sentar para refletir com calma  “sobre o Brasil que queremos”. Eles aparecerão aqui abaixo. Dentro da regra dos blogs, “os ultimos serão os primeiros”… (embora a recente atualização que fiz tenha misturado a ordem dos iniciais).

Vejam nas “indicações práticas” como colocar neste blog seus comentários e contribuições, assim como textos úteis para nossa reflexão.

Enviarei de vez em quando a todos um aviso sobre o que andou entrando de novo no blog.

Espero que tenhamos uma conversa bem animada.

Meu abraço, Chico Whitaker

04/11/2010

01/02/2019

Se a radiação fosse vermelha… Chico Whitaker

Reapresento aqui um artigo escrito em dezembro de 2015, após o acidente com a barragem de minério de Mariana. Agora um acidente de mesmo tipo ocorreu em Brumadinho. Muitos amigos dizem que valeria a pena mudar o nome de Brumadinho para Angra 3 em muitos dos artigos que estão sendo agora escritos sobre esse segundo desastre, que eles caberiam exatamente para o caso de Angra 3. O exercício pode ser feito também com meu artigo de há três anos sobre Mariana. Algum dia aprenderemos com tudo isso? Quantas vidas ainda custará? A esperança diminui ainda mais com o governo eleito de 2018…Chico Whitaker, 1 de fevereiro de 2019

Introdução ao artigo sobre Mariana.

Este artigo foi escrito num momento em que toda a atenção nacional está voltada para o que se passará nas próximas semanas ou meses em Brasília, com os mandatos da Presidenta da República e do Presidente da Câmara dos Deputados sendo questionados, além de outros desdobramentos previsíveis da ação do Ministério Público e da Policia Federal. Neste quadro, não se pode pretender que se dê a devida atenção a temas como o da energia nuclear. Só podemos esperar que enquanto a vida corre não sejamos surpreendidos pelas ameaças criadas pelo uso dessa energia no Brasil….
Chico Whitaker, 18 de dezembro de 2015

Os contratempos das ideias fixas

Ideias fixas podem e devem ser tratadas por psicólogos e psiquiatras, como todo distúrbio mental. Mas há as que surgem por preocupações sociais reais. Nesse caso, a persistência na busca de soluções é fundamental. Até que as soluções sejam encontradas.
Essa busca nos obriga por outro lado a aprofundar o conhecimento do problema, o que aumenta a preocupação. E, com ela, a necessidade de ainda mais persistência.
Os outros começam então a se preocupar conosco e não com o que criou nossa ideia fixa. Chegou-me outro dia, por uma rede social, a mensagem de uma jovem que temia se tornar uma “ecochata”, por ter ficado muito impressionada com o filme de Silvio Tendler “O veneno está na mesa”.
A impressão passa a ser a de se pregar no deserto ou de falar com surdos. Esquecemos que são muitas as ocupações e preocupações do cotidiano de todos. Ainda mais quando vivemos tempos em que muita coisa vai mal. Como no Brasil de hoje, com diversas crises se sobrepondo. Ou com o que se passa em países não tão longínquos, onde barbáries coletivas mostram que ainda existem e onde parece já ter começado a 3ª Guerra Mundial.
Mas o que de fato mais imobiliza as pessoas que procuramos sensibilizar é o sentimento de impotência. Especialmente quando se trata de enfrentar a máquina do Estado. O exercício do poder facilmente a transforma em Leviatã que tratora quem a incomoda.
O que fazer, ainda que seja um pouco? Um grande número de poucos talvez mudasse o rumo das coisas. É o poder dos sem-poder, como dizia Havel, o falecido dramaturgo e presidente tcheco, nos tempos da Primavera de Praga.
Eu estava absorto nestas elucubrações, a partir das dificuldades de minha própria ideia fixa – os riscos da energia nuclear – quando aconteceu o desastre de Mariana. Um amigo, que ainda atura minha mania e é mais perspicaz do que eu, me perguntou se não caberia escrever algo relacionando esse desastre com o que vivo dizendo que pode acontecer em Angra dos Reis.
Segurança versus lucro
Não é a primeira vez que, no Brasil, o descuido com a segurança, em proveito do lucro, provoca graves acidentes: edifícios que desmoronam, viadutos que desabam. Por isso fala-se muito, diante do que ocorreu em Mariana, da necessidade de prevenir outros desastres como o ocorrido, verificando as condições de segurança de barragens semelhantes espalhadas pelo país. A atividade mineradora que busca extrair da terra, rapidamente e com o menor custo possível, tudo que possa ser transformado em dinheiro, é insaciável.
Já aqui identificamos uma primeira relação entre o desastre de Mariana e o nuclear. Há um tipo de mineração ainda mais perigosa: a do urânio – o mineral radioativo que, depois de tratado, é usado como combustível das usinas. Ela existe no Brasil em Caitité, na Bahia, e há um projeto em desenvolvimento em Santa Quitéria, no Ceará. No caso de rompimento de barragens nessas minerações o barro já virá carregado de restos de minério radioativo. Mesmo sem rompimento de barragens, a radioatividade já está sendo detectada em aguas de poços domésticos de Caitité.
Mas há também semelhanças entre o que está ocorrendo em Mariana e o que acontece em acidentes nucleares como os de Chernobyl e Fukushima, em que há explosão das usinas: mortos, moradores evacuados, alojamentos provisórios por tempo indefinido, perda de bens materiais, da história, do emprego, dos meios de vida, de relações de comunidade e familiares, surgimento de doenças, perspectivas incertas de futuro, calamidade ambiental.
O descuido com a segurança está presente em ambos os casos. Em Mariana, na irresponsabilidade da empresa que construiu a barragem e dos governos que deveriam fiscalizar. Numa usina nuclear acidentada não se previu tudo que pode acontecer.
E há igualmente diferenças importantes.

Do mais simples ao mais complexo
Uma barragem pode ser reforçada, pode-se colocar limites ao peso da massa líquida que ela retém e esvaziá-la se necessário, pode-se identificar vazamentos e segurá-los. No folclore da Holanda há a estória do menino que tapou com seu dedinho um pequeno furo que descobriu na barragem que mantem nesse país grandes extensões de terra abaixo do nível do mar. Com isso ele impediu que o furo aumentasse e a barragem fosse destruída, fazendo sua cidade desaparecer sob a água.
Segurar um vazamento não é assim tão simples. Mas o que acontece em acidentes nucleares é ainda muito mais complexo, como é extremamente complexa a operação das usinas. Falhas humanas, de material, de projeto, interferências externas podem inesperadamente se combinar. E isto pode se dar muito rapidamente. Passa-se logo dos incidentes – como são chamados os problemas menos graves, que acontecem muito mais frequentemente do que somos informados – ao acidente. Em segundos aumenta muito a temperatura, a pressão escapa do controle e se chega à explosão.
Em 1979 ocorreu em Three Miles Island, nos Estados Unidos, um primeiro acidente grave de um tipo novo: o coração do reator derreteu – algo até então considerado impossível. A usina não chegou a explodir, mas foi um enorme sinal de alerta.
Foi interrompido o funcionamento de todas as usinas nucleares americanas, para uma revisão da sua segurança. Identificou-se então o que mudar para que não se repetisse a chamada “falha múltipla” ocorrida na usina acidentada. E se agregou um novo tipo de abordagem da questão dos acidentes: como é impossível evita-los – nenhuma obra humana é 100% segura – é preciso mitigar seus efeitos. Como por exemplo reforçar o edifício do reator para que o meio ambiente não seja afetado pela explosão.
Outros acidentes, em diferentes países do mundo, por pura sorte também não chegaram à explosão. Mas na década seguinte e em 2011 o derretimento do núcleo do reator provocou a explosão das usinas de Chernobyl e Fukushima. Foi seguramente a tomada de consciência desses riscos que levou Naoto Kan – Primeiro-Ministro do Japão à época do acidente de Fukushima – a afirmar, depois, que a melhor maneira de não se ter acidentes nessas usinas é não ter as usinas…

Do barro à radiação
Mas há outra diferença significativa entre acidentes com barragens e com a explosão de usinas nucleares: na forma como as pessoas são vitimadas.
Em Mariana um barro vermelho avançou, violenta e visivelmente, com um ruído surdo, empurrando e matando os moradores da área por ele invadida. Em explosões de usinas o ar, a água, a terra, as plantas, os animais do seu entorno são imediatamente contaminados por partículas radioativas, em quantidade muito maior do que o barro que estava retido pela barragem, mas não são detectadas por nenhum dos nossos cinco sentidos. Embora espalhadas pela explosão e pelo vento a grandes distâncias, só aparelhos especiais identificam sua presença. Os seres humanos nem percebem quando são por elas contaminados. E, depois, diferentes tipos de câncer e outras doenças os matam, lentamente.
Em Mariana as 400 famílias desalojadas não podiam escolher entre deixar ou não deixar suas casas. O barro as arrastava. Num acidente nuclear o número de pessoas obrigadas a deixar a área se contam em muitos milhares, e é o governo que se vê obrigado a fazê-lo, para protege-las das radiações.
Depois de acidentes nucleares com explosões grandes territórios no entorno das usinas são imediatamente interditados à presença humana e à atividade econômica: a radioatividade que neles se ocultou perdurará por muito tempo. Diferentemente portanto também de Mariana, os desalojados por uma explosão nuclear nunca mais poderão reconstruir suas vidas no pedaço de terra de que foram expulsos.

Os custos dos acidentes
Impressiona a todos o valor da multa que está sendo aplicada à empresa que geria a barragem, para cobrir os custos do desastre: um bilhão de reais, que levará a empresa responsável à falência. Mas o custo de um acidente nuclear é incomensuravelmente maior. Nenhuma empresa privada pode fazer frente a ele e os governos são obrigados assumi-lo. Mas mesmo os governos não o conseguem. O da Ucrânia apelou para o G20 para terminar a construção do segundo “sarcófago” necessário para segurar os vazamentos de radioatividade do primeiro, com que se tentou cobrir as ruinas de Chernobyl. Os especialistas nesses assuntos propõem que sejam constituídos Fundos Especiais, geridos pelas Nações Unidas, para socorrer os governos de países onde catástrofes nucleares aconteçam.
O inacreditável acontece com o que alguns governos fazem diante dos gastos a que se vêm obrigados para fornecer alojamentos, tratamentos médicos e psicológicos, emprego ou seguro-desemprego às vítimas dos acidentes, por longo tempo. Como não poderiam evacuar e dar essa assistência a todos que teriam que sair dos territórios que deveriam ser interditados, eles optam por permitir que moradores que o desejem, mal informados dos riscos que correm, permaneçam em áreas menos fortemente contaminados (como ocorre em Chernobyl) ou os empurram de volta para essas áreas (como ocorre em Fukushima). E não têm nenhum pejo em lançar programas de “treinamento” para que convivam – enquanto sobreviverem – com a radioatividade…

Acidentes e catástrofes
Toda a sociedade está impressionada com o fato de terem se tornado barrentas, no sentido próprio e figurado, as águas do Rio Doce e a costa do Espirito Santo. E ainda não temos uma exata noção de todos os males que pode provocar, durante muito tempo, o despejo, no leito do rio e no mar, de uma enorme quantidade de matérias prejudiciais à natureza e à saúde dos seres humanos.
Mas no Brasil não se tem nenhuma ideia da dimensão dos problemas criados pela explosão de uma usina. Só os que tem a oportunidade de visitar o local dessas catástrofes tomam consciência do que se passou e se passa. Monique Sené, física francesa autoridade no assunto, diz que o acidente de Chernobyl, de 30 anos atrás, ainda não terminou. E nós continuamos recebendo, pela mídia, umas poucas notícias do que continua se passando em Fukushima.
Por todas essas razões esse tipo de acidente é chamado de catástrofe. Por mais que a propaganda da indústria nuclear difunda notícias amenizando os efeitos dos acidentes ocorridos no Japão e na União Soviética. Ela se aplica com esmero à sua tarefa básica, e a de todos os “relações públicas” do lobby nuclear: não deixar que o medo tome conta das pessoas. Menos ainda o pânico.
O reino da insensatez
Mas juntando todos esses dados só podemos concluir que estamos diante de uma total insensatez. Só interesses econômicos muito fortes conseguem manter a opção de usar a energia nuclear para produzir eletricidade. Só com muito dinheiro se consegue manter iludidos tantos técnicos que emprestam sua inteligência para, depois da humanidade ter conseguido impedir quase totalmente os testes com bombas atômicas, criar essa nova ameaça de tornar radioativos grandes territórios, em todos os países que se deixam “convencer” pelas vantagens da energia nuclear. Ainda bem que estamos podendo nos regozijar com o fato dos negociadores da COP 21 terem resistido à pressão dos que se apoiam no mito da energia nuclear limpa para afirmar que ela pode ajudar a diminuir o aquecimento global.
Muitos no entanto dirão: mas não é longínqua a hipótese dessa catástrofe ocorrer no Brasil, em alguma de nossas duas bonitas usinas Angra 1 e Angra 2? Terremotos e tsunamis como os de Fukushima parecem improváveis por aqui. E, com certeza, depois do que aconteceu em Chernobyl é de se esperar que nenhum operador brasileiro ouse fazer uma mudança experimental nos protocolos de controle do funcionamento das usinas de Angra…
Infelizmente, no entanto, temos que considerar que Angra 1 e Angra 2 logo chegarão ao limite do seu tempo de vida. E este tempo lhes é atribuído porque materiais se desgastam, naturalmente, ou seja, se tornam mais frágeis…
Além disso, o simples funcionamento dessas usinas já criou outro problema de difícil solução: grande quantidade do combustível usado das usinas – material extremamente radioativo – está estocado provisoriamente dentro de uma piscina especial, cuja capacidade aliás está se esgotando. Esses rejeitos podem também explodir e, para que isso não aconteça, precisam ser mantidos permanentemente refrigerados pela agua da piscina. Deus queira que nossos responsáveis por essa função não se cansem de segurar esse rabo de foguete…
O problema de colocar esse material perigosíssimo num esconderijo definitivo, que deverá ficar fora do alcance dos seres humanos por centenas de milhares de anos – ou pela eternidade, como dizem – não foi ainda resolvido em nenhum lugar do mundo. Mas os técnicos e políticos brasileiros parecem nem se preocupar demasiadamente com isso…

O reino da podridão
Mas há coisa muito pior. O personagem Hamlet, da peça de Shakespeare, diz, aí pelas tantas, que há algo podre no seu país, o reino da Dinamarca. O que ele diria sobre o que hoje ocorre no Brasil, com a corrupção que a Operação Lava Jato está escancarando?
A terceira de nossas usinas, em construção – Angra 3 – teve sua segurança inteiramente prejudicada por interferência desse tipo de podridão. Na pressa de iniciar logo a obra para manter o recebimento de propinas, que já se iniciara, seus responsáveis levaram o organismo encarregado de licenciá-la a ignorar totalmente a absoluta necessidade, levantada por alguns de seus próprios funcionários, de rever seu projeto. Elaborado nos anos 70, esse projeto se tornara obsoleto já no final daquela década, depois do acidente em Three Miles Island (e é o mesmo com que se construiu Angra 2…).
E foi esse acidente e os de Chernobyl e Fukushima que levaram os governos da Alemanha, da Itália e da Áustria a decidirem fechar suas usinas nucleares ou não permitir que entrem na matriz energética de seus países. Sorte dos seus povos e dos povos de outros países que estão pouco a pouco seguindo esse exemplo; pena para nós, brasileiros.

O que fazer?
Infelizmente teremos que pressionar ainda muito para que o governo brasileiro tome uma decisão tão radical. Em nosso país o poder do lobby nuclear internacional está firmemente assentado (a empresa russa Rosatom, que vende e mesmo monta reatores, instalou há pouco um escritório no Rio de Janeiro para atender aos seus clientes da América Latina). Esse lobby dispõe de muitos recursos para mobilizar a seu favor os grandes meios de comunicação de massa, em sua publicidade enganosa. E conta com a atuação fiel de burocratas governamentais desinformados ou “interessados”, de grande número de técnicos satisfeitos incrustrados no poder do Estado, de políticos despreparados, irresponsáveis ou mesmo venais.
A dificuldade não pode no entanto nos imobilizar. Teríamos que pelo menos exigir que as obras de Angra 3 só sejam retomadas depois de uma revisão de seu projeto segundo as normas de segurança definidas a partir dos anos 80 pela Agencia Internacional de Energia Atômica. Assim como depois de uma avaliação cuidadosa dos equipamentos comprados a partir das especificações do projeto, que ficaram trinta anos estocados… Isto seria o mínimo de responsabilidade que se esperaria dos que cuidam de nossas usinas nucleares ou as constroem.
Enquanto isso precisamos mostrar ao Ministério Público, aos nossos Juízes, aos nossos legisladores e à nossa imprensa que a corrupção agrava o crime do roubo de recursos públicos. Se punições visam evitar que os crimes se repitam, elas têm que ser proporcionais à sua gravidade. Em Angra 3, a corrupção levou a que a construção dessa usina se tornasse um atentado anunciado contra a Vida. Tudo se faça para que não ocorra. Se tivermos no entanto essa infelicidade ele será bem mais violento que o desmoronamento da barragem de Mariana.
Mas em nosso país – e no mundo de hoje – será que a Vida tem mais valor que o dinheiro?

Anexo
Pouco depois de escrever este artigo me chegou a matéria abaixo, publicada em 20 de dezembro de 2015 pelo semanário francês “Politis”: http://www.politis.fr/Fukushima-glacants-aveux-du,33501.html
Segundo Monique Sené, o acidente nuclear de Chernobyl ainda não terminou, conforme citei no artigo. Talvez já se possa dizer que Fukushima nunca terminará…

Fukushima: confissões arrepiantes do responsável pela desmontagem da usina nuclear
Em entrevista concedida dia 20 de dezembro à Agência Associated Press, o responsável pela desmontagem da usina de Fukushima confessou que ele não poderia prever o custo dos trabalhos para garantir a segurança das instalações, nem fixar uma data para os reatores derretidos deixarem de ameaçar a saúde dos trabalhadores da empresa e dos habitantes da região, uma vez que os escombros dos edifícios continuam a poluir os subsolos e a atmosfera.
Masuda Naohiro disse mesmo que ele ignorava se, quando e como os novos robôs conseguiriam explorar os restos de reatores derretidos, para verificar em que ponto está a reação que continua desprendendo um calor de aproximadamente 100° e emanações radioativas. Ele reconheceu igualmente que tinha de lidar com uma verdadeira “zona de guerra”. São declarações que contrastam com as afirmações do governo japonês que repete regularmente que a situação está totalmente sob controle.
Esse funcionário da Tepco, empresa proprietária da usina, disse que os engenheiros não sabiam nem mesmo onde se encontravam os restos dos reatores, nem como será possível extraí-los de onde estiverem. Ele ignora também se os trabalhos necessários podem ser iniciados antes de uma dezena de anos. E faz esta precisão: “uma nova ciência deverá ser inventada para começar a limpeza e para isso será necessário levar em conta os riscos corridos pelos assalariados e pelo meio ambiente”. Até porque os elementos radioativos continuarão a escapar para as águas subterrâneas, para o mar e para o ar.
Essas confissões contradizem radicalmente as declarações tranquilizadoras e as mentiras contadas pelos responsáveis da usina por ocasião da visita de Politis às instalações e à região no final de setembro último. Tratava-se de “propaganda”, desmentida alias pela maior parte dos instrumentos de medida automática da radioatividade colocados no canteiro de obras, pelas roupas especiais usadas por muitos técnicos e pelo abandono no local de centenas de carros e maquinas fortemente contaminados.
Concluindo, Masuda Naohiro, que trabalha há 30 anos para a Tepco, assegurou que, de agora em diante, anunciará tanto as boas como as más notícias. Ele nada disse, no entanto, sobre a boa vintena de milhões de toneladas de rejeitos radioativos amontoadas sob simples lonas nos campos circundantes…

30/12/2018

Um voto de Ano Novo: a hora e a vez da objeção de consciência – Chico Whitaker

O recado dado por Guimarães Rosa – cada coisa tem sua hora e sua vez – num dos seus melhores contos, inspirou um artigo recente de Heitor Scalambrini, da Universidade Federal de Pernambuco, depois da nomeação por Bolsonaro de um Almirante como Ministro de Minas e Energia: “A hora e a vez da bomba atômica tupiniquim”. No futuro inquietante que parece estar sendo reservado ao nosso país, talvez essa expressão venha a ser usada muitas vezes. Como eu o faço no titulo deste texto sobre “a objeção de consciência”.

Esse direito é pouco familiar aos brasileiros, embora nossa Constituição abra espaço para ele ao fixar a possibilidade de “eximir-se de obrigação legal” por motivo de  “crença religiosa ou de convicção filosófica ou politica”, e se discuta em meios médicos exigências éticas para os profissionais da saúde em casos de aborto e na vivissecção de animais. Mas talvez esteja chegando “a hora e a vez” de usar o direito à objeção de consciência para impedir, pacificamente, que nosso país descambe para a barbárie.

O direito à objeção de consciência começou a ser formulado em situações de guerra, Continue lendo

10/11/2018

Procurando entender, para agir – Chico Whitaker´

para artigo

Há pouco um amigo japonês que vive na França me escreveu perguntando: mas o que aconteceu que um país que há pouco mais de dez anos elegeu Lula, um operário, como Presidente da República, colocou agora em seu lugar um militar fascista? Na verdade, estamos todos nos fazendo essa mesma pergunta. E, se quisermos impedir que sejamos efetivamente empurrados para o fascismo – até como consequência de um provável insucesso administrativo de Bolsonaro – precisamos de fato procurar entender o que se passou no Brasil.

No festival de interpretações em que estamos todos envolvidos – ao mesmo tempo em que nos defendemos dos muitos retrocessos que já começam a tomar forma – cabem evidentemente muitas e variadas hipóteses, todas tendo sua parcela de verdade.

Este texto pretende focar uma dessas interpretações, a que já me referi em textos anteriores mas tratarei agora em mais detalhe: a do uso perverso dos novos meios de intercomunicação social de que hoje dispomos. A meu ver, esse foi o instrumento decisivo para a vitória de Bolsonaro e dos candidatos a outras funções que nele também surfaram.  Continue lendo

02/11/2018

Plano de sobrevivência – Chico Whitaker

Muita gente está perplexa com o que aconteceu no Brasil dia 28 de outubro ultimo. Aqui no Brasil e no exterior. Mas temos que nos sentar e conversar. Calmamente. Deixando que acabe de baixar a poeira levantada pelo desastre.

Bolsonaro já disse que, nos últimos dias, se preocupou com o resultado das eleições. Deve ter visto pela TV as imensas manifestações entusiasmadas e alegres pro Haddad nas grandes capitais. E deve ter sentido, como todos nós, a virada que vinha acontecendo. Mas nem ele nem nós sabíamos quão poderosa era a máquina de ganhar eleições que Bolsonaro comprou a peso de ouro (quanto e quem a teria pago, um dia ainda o saberemos). Uma máquina que já havia testado sua força elegendo Trump e fazendo o Brexit ganhar na Inglaterra, além de outros experimentos menores. Tanto o Congresso dos Estados Unidos como o Parlamento inglês já pediram explicações às redes sociais por ela usadas.

Pelo menos 20 milhões de eleitores brasileiros tinham sido durante varias semanas intoxicados por milhares de “Fake News” que eles liam dias inteiros em seus celulares. Era o instrumento diabólico criado por alguns matemáticos e psicólogos pervertidos, que acumularam imensas fortunas (o suficiente até para financiar Trump) inventando algoritmos para ganhar na Bolsa, até se articularem em grandes empresas mais ambiciosas, sediadas nos Estados Unidos e na Inglaterra. Quem ainda não viu veja logo um documentário alemão que desvenda tudo isso (https://vimeo.com/295576715 – São 59 minutos divididos em 4 partes, com legendas em português). Imperdível, como se diz.

Não foi portanto Bolsonaro que ganhou esta eleição. Foi esta máquina, acionada por personagens entre as quais o mais conhecido é Steve Bannon, que chefiou a campanha de Trump e depois se tornou por algum tempo seu estrategista principal. Uma ação associada em nosso país à obediência cega aos pastores das pequenas e grandes igrejas evangélicas. Bannon agora se prepara para implantar seu “movimento” no Brasil, conforme noticia a Folha de 29 de outubro. O que virá por ai, com gente sem escrúpulos desse tipo? O filho mais velho (01) de Bolsonaro esteve com ele em Nova York em agosto. Em matéria de O Globo de 26 de outubro sobre entrevista à BBC-Brasil, Bannon declarou seu apoio a Bolsonaro, por “compartilhar com ele a mesma visão de mundo”. Por isso mesmo Salvini, da Italia, que ele também ajudou, foi um dos primeiros a cumprimentar Bolsonaro pela sua vitória.

Um dia quem sabe alguma Comissão Parlamentar de Inquérito do nosso Congresso quererá saber um pouco mais, já que nem o TSE nem o STF ainda se deram conta do enorme estelionato eleitoral que ocorreu no Brasil, pela manipulação tecnológica de que fomos vitimas. E Deus queira que no mundo todo acordem para esse grande risco que correm hoje as democracias, na medida em que para funcionar se apoiam em eleições manipuláveis. Quantos psicopatas poderão ser eleitos para dirigir seus países, pelo mundo afora? Mas já que nos lembramos do STF, quando essa Corte terá a coragem de colocar em pauta a obediência ao principio constitucional da presunção da inocência, único caminho para que Lula (e muitos outros) não “apodreçam na prisão”?

Mas agora interessa saber o que fazer, depois do desastre que ocorreu no Brasil, bem em baixo de nossos próprios narizes.

Uma coisa é certa: não podemos nos paralisar, ainda que a decepção, a tristeza e mesmo o medo possam nos reter um pouco.

Há vários modos de atuar que já começam a aparecer. Entre as quais o primeiro é simplesmente o de observar, e conversar calmamente com eleitores arrependidos que começarão a surgir na massa dos quase 60 milhões de brasileiros que escolheram Bolsonaro. Ou seja, quase bastaria ficar vendo o panorama de cima da ponte, ou sair dela e constatar de longe seu desmoronamento. Eles sozinhos logo vão fazer muita gente se perguntar se acertaram ao votar nele. E aumentar a maioria que não votou em Bolsonaro.

No seu primarismo (do qual se protegeu não indo a nenhum debate no segundo turno, graças à “providencial” facada que recebeu), ele visivelmente não está preparado para enfrentar os problemas de governo. Nestes primeiros dias depois do susto com que se viu Presidente, seu comportamento é como o de uma biruta de aeroporto: ouve o que lhe dizem e desdizem e vai tomando suas decisões segundo sopre o vento (como já disse um de nossos analistas). Nisto ele se parece bem com Trump, igualmente despreparado e com ideias absurdas em política nacional e internacional. O mesmo se passa com seus ministros, como o que será seu superministro de economia, que passou sua vida ganhando dinheiro na Bolsa (teria também usado os algoritmos do matemático e multimilionário Robert Mercer?) e já está mostrando ter modos tão brutos como seu chefe…

Mas há objetivamente riscos. Se começar a falhar como governante, ninguém garante que Bolsonaro não descambe para o que prometeu (“que saiam do Brasil ou serão presos”), ou que não chegue a comportamentos violentos como os de Duterte das Filipinas. Nem que seus seguidores mais recalcados não queiram fazer justiça e castigar com as próprias mãos os inimigos que ele indicou (“já está liberado dar porrada em negro, viado e baiano?” – perguntam apoiadores nas redes sociais). Algumas demonstrações às vezes ridículas desses ímpetos começam a ser noticiadas. Mas outras ações realmente violentas – incluindo assassinatos – começam também a aparecer. Contra os mais desprotegidos, como os indígenas e os LGBT. Deus queira que nunca cheguemos à barbárie de Duterte.

E há entre os apoiadores de Bolsonaro que assumiram cargos até a estapafúrdia ideia de se servirem de “atiradores de elite” (os “snipers”, como dizem os americanos). Sua função será a de “abater”, a grande distância, “suspeitos portando armas”. Depois saberemos se carregavam realmente um fuzil ou um guarda-chuva, ou mesmo se era simplesmente qualquer um de nós. Mais um  risco é o de um dia os militares acharem que têm que colocar ordem na casa. (“Os demais assessores que forem escalados podem ser mandados embora a qualquer momento. Eu permaneço”, já disse Mourão em entrevista). O que não é uma saída tranquila, já que até o Ministro da Defesa indicado gostou da ideia dos “snipers” (esse Ministro já não será um civil, como desde 1998 no Brasil, mas um general, confirmando o retrocesso, quanto às tendências mundiais, já concretizado por Temer, ao substituir Jungman por um militar…)

É certo que a sociedade e as próprias instituições democráticas, no seu instinto de sobrevivência, já estão reagindo, nas diferentes áreas em que será preciso resistir para não deixar que passem batidas iniciativas inaceitáveis de Bolsonaro e seus adeptos. Passado nem um dia da eleição, várias iniciativas já começaram a mobilizar as pessoas. Será sempre possível fazer abaixo assinados, ocupar galerias, chamar a policia, denunciar ao Ministério Publico. Cada um de nós poderá achar seu nicho de atuação, e apoiar ou se associar a essas reações. Mas, qualquer que seja a área de atuação em que nos situemos, precisamos fazê-lo em grupos de proteção e apoio mutuo, planejando nossas atuações e comunicando aos outros o que estamos fazendo. Tecendo uma rede solidaria cada mais diversificada e ampla, reforçando-nos uns aos outros. Para o apoio jurídico e mesmo para simples cuidados psicológicos, já que há muita gente assustada ou até sendo ameaçada. “Ninguém solta a mão de ninguém”.

Há a revisão do Estatuto do Desarmamento, a Escola sem Partido, a incitação a denunciar professores, a reforma da previdência, a Lei antiterrorismo, a maioridade penal, Moro super-ministro de combate à corrupção, o Pastor-ex-senador Magno Malta se encarregando do desenvolvimento social, poupanças recolhidas a la Collor/Zelia. Cada dia uma… Muitas outras virão. Quando Paulo Guedes e outros ministros começarem a propor e fazer coisas, a lista será infindável. Para resistir não faltará trabalho. Há também gente pensando em atividades construtivas, como uma rede inter-religiosa centrada na construção de uma cultura de Paz – ponto de encontro de todas as religiões – para reverter o aumento da violência. Ao mesmo tempo, teremos que ser muito cuidadosos, checando a origem das propostas recebidas, para não cairmos em armadilhas. Assim como teremos que não responder a provocações, nem criar nós mesmos ocasiões para virem nos provocar.

No médio e mesmo longo prazo, teremos que assumir a necessária desintoxicação dos 20 milhões de brasileiros desinformados que se deixaram enganar pelas fakenews. Para isso precisamos nos organizar bem mais do que começamos a fazer na ação pessoa a pessoa com que tentamos virar a eleição. Temos que organizar processos de formação politica a partir de cada coisa que for sendo proposta pelo governo ao Congresso ou cada iniciativa que tomar por decreto. Informar, esclarecer, explicar. Um programa de vida, que o processo será longo.

Para quem queira fazer as famosas autocriticas (sempre necessárias), estão sendo publicadas muitas analises. Aproveitemos para lê-las e discuti-las com calma e sem preconceitos, para construir conclusões que nos ajudem no futuro (próximo: a Frente Amplíssima que será necessária) ou mesmo mais longínquo (prática politica conduzida por objetivos comuns e não por disputas por hegemonias entre nós).

Ou seja, para concluir, mãos à obra. Com coragem e esperança.

Chico Whitaker, 1 de novembro de 2018

26/10/2018

No quase ultimo dia – Chico Whitaker

 

Amigas e amigos

Depois do discurso de Bolsonaro ouvido na Avenida Paulista domingo ultimo me preocupei muito com o que pode acontecer se ele for eleito, e resolvi voltar a falar, e insistir junto a quem pode estar pensando votar nulo e branco por diferentes razões (das quais talvez a maior seja “PT, não!”). Um voto nulo ou branco e mesmo uma ausência justificada ajudará Bolsonaro. Como já disse um amigo, é “meio voto” para ele. Todos podemos atuar contra maus governos e contra a corrupção. Com Bolsonaro eleito, não. É a ditadura. No domingo ele disse: quem não estiver de acordo comigo ou sai do país ou vai ser preso (e com isso pode ser torturado e morto – para ele a tortura é necessária para ter informações e “bandido bom é bandido morto”).

Como sou pela solidariedade e pela Paz, divulguei ontem um longo texto sobre isso tudo (www.senospermitemsonhar.wordpress.com/2018/10/24/carta-as-minhas-amigas-e-meus-amigos), respondendo (como disse, do alto dos meus 86 anos), a um texto que recebi. Retomo aqui algumas frases: Continue lendo

24/10/2018

Carta às minhas amigas e meus amigos – a real decisão do 2º turno – Chico Whitaker

Tenho enviado, a vocês e a outros conhecidos, textos sobre a escolha nas eleições do próximo dia 28. Como nem todos me respondem, achei que já tinham decidido votar em Haddad. Mas continuei a enviar meus textos: poderiam ser uteis para convencer mais amigos.

Fui surpreendido no entanto por uma resposta, em que me foi enviado um texto de alguém que explicava porque votava em Bolsonaro. Fiquei impressionado com os argumentos, calmos e refletidos, de quem o havia escrito, para afastar o PT definitivamente do poder no Brasil. Era convincente porque baseado na experiência pessoal de insegurança vivida por essa pessoa e seus familiares. Mas dizia que essa insegurança, um fato real, era culpa do PT.

O raciocínio é obviamente forçado porque de fato destina-se a aumentar o antipetismo, uma das bases da campanha do Bolsonaro. Mas é também ilógico, porque o candidato que diminuiria a insegurança é aquele que quer liberar totalmente o acesso a armas, com o que passaríamos de fato a ter medo de andar na rua. Até batida de carro poderá ser resolvida no tiro. O que ocorre nos Estados Unidos? Sem controle da venda de armas, comunidades inteiras são frequentemente vitimadas por desequilibrados.

Pensei em escrever uma carta pessoal a esse amigo, que prezo muito, discutindo essas questões. Continue lendo

19/10/2018

“Pelo amor de Deus!” – um recado de Chico Whitaker

Assisti ontem à noite o longo programa da Globo News comentando a pesquisa eleitoral do Data Folha divulgada também ontem. Não tive paciência para assisti-lo até o fim, mas o que vi já me deixou estarrecido e preocupado. Não pelos resultados da pesquisa, dando ampla vantagem a Bolsonaro, porque imaginava que hoje mesmo outras pesquisas relativizariam esses resultados – como realmente já aconteceu, com a pesquisa da Vox Populi. O que me deixou estarrecido e preocupado foram as calmas e posadas interpretações dadas pelos jornalistas presentes – o famoso “time” da Globo News – após as explicações técnicas do responsável pela pesquisa.

Era como se, ao lado da sala em que estavam, o fogo estivesse crepitando e eles nem o ouvissem nem vissem a fumaça escapando pela porta. Davam de barato que a eleição estava resolvida, certamente imaginando que poderiam dessa forma desanimar milhões de ouvintes que ainda não aceitaram Bolsonaro, levando-os a jogar a toalha e desistir de “virar o jogo” nesta última semana. Não diziam nem uma palavra – num belo exemplo de mau jornalismo – sobre a descoberta da milionária caixa 2 de Bolsonaro para disparar milhões de mensagens visando continuar a espalhar mentiras para induzir a parcela da população, que caiu na armadilha do antipetismo, a votar no capitão reformado. Continue lendo

15/10/2018

Lógica de guerra e logica de Paz – Um alerta necessário – Chico Whitaker

Toda pessoa tem o direito de mudar. E deve mudar, se sua experiência de vida, sua reflexão e sua consciência a convencerem dessa necessidade.

Começada a discussão, por toda a sociedade, para a escolha, em 2º. turno, do Presidente do Brasil, Bolsonaro, um dos candidatos, reivindica esse direito. Ele não enfrenta diretamente o outro candidato nos debates que os eleitores têm o direito de assistir, apoiado em convenientes prescrições médicas (conseguirá mantê-las até o 28 de outubro?). Enquanto isso, dá entrevistas sozinho, ao mesmo tempo em que sua máquina de produção de informações falsas nas redes sociais intensifica sua ação, manipulando os sentimentos de um grande número de pessoas desinformadas e reforçando seus erros de avaliação

No espaço que lhe é oferecido nessas entrevistas, ele diz que o que disse e fez ao longo de 20 anos como politico é coisa do passado. Que na verdade ele não é por ditaduras, nem por armas, nem contra mulheres ou gays. Que vai ter como ministros somente pessoas competentes nos seus respectivos ramos, assim como não vai fechar o Congresso. E que não apoia eleitores seus que se envolvam em atos de violência. Etc. etc.

É possível que muitos desses eleitores estejam acreditando no que ele fala. E que já estejam decididos a votar nele também no 2º. turno, e até vejam sua escolha reforçada com a ativação da estratégia de uso das redes sociais que ele adotou.

É provável, por outro lado, que todos que já se associaram ao apelo do ELE NÃO vejam sua escolha também mais reforçada por essa mudança de Bolsonaro, e até estejam se organizando para que mais gente tome consciência do que ELE significa.

A questão é saber se os que não estão aguerridos nem de um lado nem de outro da disputa podem ainda perceber que, acima de uma alternância democrática saudável, estamos todos correndo o enorme risco de um aventureiro sem escrúpulos como Bolsonaro, com a lógica destrutiva que tem entranhada em sua mente e em seu coração, assumir a Presidência do Brasil.

É dramático, mais do que triste, ver em nosso país um candidato a Presidente nos aterrorizar apontando armas, por enquanto imaginárias, para os que dele discordam – num gesto que diz ser necessário e que portanto, no fundo, está “prometendo” concretizar. Podemos estar às vésperas da implantação de um autoritarismo feroz que será talvez mais difícil e doloroso superar do que a ditadura militar imposta em 1964 – Bolsonaro já não disse que os militares que assumiram o poder em 64 não fuzilaram todos que deveriam ter fuzilado?

Pior ainda: pelo exemplo que dá em suas atitudes e pelas suas palavras, é extremamente preocupante a possibilidade de, na prática, ele liberar, logo depois de eventualmente eleito e antes de sua posse, instintos e rancores recalcados de pessoas que decidirão fazer justiça – e aplicar castigos – com as próprias mãos, desatando a violência, que aliás já está começando a grassar, entre nós. Continue lendo

08/05/2018

A objeção nossa de cada dia – Chico Whitaker

Palestra de Chico Whitaker no 120º Fórum de Cultura de Paz, sobre a Objeção de Consciência, promovido pela Associação Palas Athena em 8 de maio de 2018, em São Paulo.

A objeção nossa de cada dia

Boa noite para todas e todos.

Agradeço o convite de Palas Athena para participar deste Fórum sobre a Objeção de Consciência.

Trago-lhes aqui alguns dados e informações sobre o tema e algumas reflexões sobre a potencialidade politica deste tipo de ação cidadã na luta por mudar o mundo.

 

Como todos sabemos, este evento foi programado para o dia de hoje porque em mais uma semana, dia 15 de maio, o mundo todo será convidado a refletir sobre o Objetor de Consciência, no Dia Internacional a ele dedicado. A fixação pela ONU de Dias Internacionais – do qual talvez o mais conhecido seja o Dia da Mulher, 8 de março – tem esse objetivo: levar-nos a parar um pouco nossos afazeres e organizarmos encontros e manifestações em que reflitamos um pouco mais sobre nossos direitos e deveres em questões importantes para a vida das sociedades. No caso da Objeção de Consciência o que se busca é também ampliar a própria consciência desse Direito, ainda insuficientemente conhecido.

Por exemplo nesta sala: quantos de vocês sabem exatamente de que se trata? Quantos de vocês sabem que um dos nossos Direitos Fundamentais é recusar-nos a fazer coisas a que nos obrigam as leis vigentes mas vão contra nossa consciência, por razões religiosas, éticas, morais, filosóficas, políticas, humanistas? Quantos sabemos o que fazer quando essa situação se apresenta e que leis podemos nos recusar a obedecer?

Possivelmente depois de termos visto o filme que nos foi exibido Continue lendo

29/04/2017

Os 77 + 50 delatores e a objeção de consciência – Chico Whitaker

O 15 de maio próximo será o Dia do Objetor de Consciência, criado pela ONU. Recusar-se a fazer ou a participar de algo com que, por uma questão de consciência, não se concorda, começou a criar um novo direito na negação às guerras. Na primeira Grande Guerra, jovens norte-americanos pacifistas se recusavam ao alistamento, apesar das punições decorrentes. Um filme recente contou a história do primeiro objetor de consciência do exército norte-americano na segunda Grande Guerra, que se recusou a empunhar armas por motivação religiosa. A objeção de consciência se tornou mais conhecida por ocasião da Guerra do Vietnam: os “objetores” fugiam para o Canadá, que os protegia, para não serem presos por não aceitarem sua integração às tropas norte-americanas; e seu protesto contribuiu para o fim dessa ação militar. Durante a guerra da Argélia, na França já foi possível não se alistar e optar por um serviço civil para o Estado, com o estatuto legal de “objetor de consciência”.

O direito à objeção de consciência foi assim, pouco a pouco, se afirmando e se estendendo, inclusive no Brasil, a outras áreas da atividade humana, como na Medicina e no Direito. Mas nem aqui nem no resto do mundo se cogita na objeção de consciência contra a corrupção. Continue lendo