03/11/2010

Se me permitem sonhar

Apresentação

Escrevi o texto  “Se me permitem sonhar”, abaixo reproduzido, em outubro de 2010, uma semana antes do 2o. turno das eleições presidenciais no Brasil. Era somente um “desabafo”, frente ao baixo nivel das campanhas  nesse 2o. turno. Mas o enviei a uns tantos amigos que poderiam estar frustados como eu.

As reações positivas que recebi, no entanto, me surpreenderam. Vários amigos disseram que precisaríamos aprofundar algumas das questões que levantei. E como no texto falei em achar uma “praça” para continuar a sonhar, resolvi criar este blog, como uma “praça virtual”, onde – “se nos permitem sonhar” – toda contribuição será mais do que bem-vinda.

Chico Whitaker

SE ME PERMITEM SONHAR

Enquanto na Internet e nas portas de algumas igrejas o segundo turno das eleições para a Presidência está em fervura máxima, nas ruas as campanhas estão incrivelmente mornas e mesmo frias – a não ser, evidentemente, naquelas por onde passam os candidatos… Isto nos permite, andando por elas, pensar mais serenamente no seu conteúdo, saindo do campo perigoso das balas perdidas, no intenso tiroteio com que os respectivos apoiadores tentam literalmente arrasar a imagem daquele a quem se opõem.

Mas se essas caminhadas são boas também para a saúde física e mental, a reflexão que nelas se faça pode entristecer. É o que está ocorrendo comigo, quando penso como os marqueteiros reduzem os candidatos a simples capatazes da máquina administrativa, que precisam se mostrar capazes de fazê-la funcionar, numa infindável competição de promessas frente às múltiplas insuficiências existentes no Brasil. Será que, achando-se mais bem informados do que todos nós sobre o que pensam os eleitores, eles proíbem seus clientes de dizerem que tipo de país precisamos construir, na reflexão efetivamente política que se esperaria de quem queira assumir a Presidência da República? Continue lendo

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03/11/2010

Comentários e contribuições

Seus comentários e outras contribuições são bem-vindos nesta “praça” virtual, na qual poderemos nos sentar para refletir com calma  “sobre o Brasil que queremos”. Eles aparecerão aqui abaixo. Dentro da regra dos blogs, “os ultimos serão os primeiros”… (embora a recente atualização que fiz tenha misturado a ordem dos iniciais).

Vejam nas “indicações práticas” como colocar neste blog seus comentários e contribuições, assim como textos úteis para nossa reflexão.

Enviarei de vez em quando a todos um aviso sobre o que andou entrando de novo no blog.

Espero que tenhamos uma conversa bem animada.

Meu abraço, Chico Whitaker

04/11/2010

08/08/2019

O dia em que o Japão quase desapareceu – Naoto Kan [1]

Texto de Naoto Kan, Primeiro Ministro do Japão quando do acidente de Fukushima. Publicado em Agosto de 2019 pelo Le Monde diplomatique, da França, tradução de Stella Whitaker

Com um ano de antecedência em relação aos Jogos Olímpicos de Tóquio,  o Japão quer mostrar ao mundo que a região de Fukushima, devastada pelo tsunami e pela catástrofe atômica de 11 de março de 2011, já voltou a uma vida normal. Mas isto está longe da realidade. O primeiro ministro daquele momento, Naoto Kan, dá, a seguir, um testemunho das dificuldades que tiveram para enfrentar o desastre. Desde então ele milita pela suspensão do uso civil da energia nuclear.

 

Já passados oito anos do grande terremoto no leste do Japão, o tsunami e o acidente nuclear de Fukushima, em março de 2011, continuam gravados no meu espirito. Eu estava dormindo em Kantei (residência do primeiro ministro). Nos momentos em que ficava sozinho, sempre vestido com o uniforme de bombeiro, como se é obrigado em situações extremas como aquela, eu dormitava no sofá do salão. Na realidade eu me estendia no sofá para repousar o corpo enquanto refletia sem parar nas medidas a serem tomadas.

Como eu nunca tinha tido atividade profissional ligada ao nuclear, meu conhecimento do assunto se limitava às noções de base adquiridas durante meus estudos universitários de física aplicada. Eu tinha lido relatóriossobre o desastre de Chernobyl e sobre os danos que podem ser provocados por um acidente nuclear, mas jamais tinha  imaginado que um desastre de uma dimensão ainda maior pudesse ocorrer no Japão. Continue lendo

31/07/2019

Conto fantástico com final feliz – Chico Whitaker

I – A invasão

Um estranho Exército de doentes mentais, criminosos e oportunistas de repente invadiu aquele pais de clima ameno, convívio fácil entre seus habitantes e cheio de promessas. A força invasora surgiu de dentro do próprio país e se apropriou de todos os espaços do poder político logo que se divulgaram os resultados eleitorais,  sem perder tempo. Seu chefe era um malfeitor ignorante e violento, que conseguiu ser eleito Presidente da República graças a um atentado forjado, que levou as pessoas desavisadas a se condoerem dele e permitiu que não sofresse desgaste em debates entre candidatos. Pouco depois de empossado, viajou ao país que mais admirava e a cuja bandeira batia continência e declarou, ao primeiro grupo de políticos e empresários que encontrou, que sua primeira missão era a de destruir seu próprio país. E seu Ministro da Economia, recrutado entre economistas enriquecidos com especulações nas Bolsas, completou: “venham logo, estamos vendendo tudo”.

O Presidente tinha sido expulso da corporação militar quando oficial de baixa patente, mas continuou fiel ao anti-comunismo primário que na Guerra Fria movia essa corporação. E, como toda personalidade psicopática, Continue lendo

06/07/2019

Chernobyl e Angra dos Reis – Chico Whitaker

A minissérie Chernobyl, na HB0, impactou. Obrigando o Presidente da Eletronuclear a dizer, na Folha de São Paulo de 23/06, que os reatores brasileiros são menos perigosos, que há acidentes como esse “a cada milhão de anos”, que o medo “amplifica a percepção dos reais riscos”. Mas a culpa é do reator? E quantos anos separam os acidentes de Three Mile Island, Chernobyl e Fukushima (1979, 1986 e 2011)?

Para ele o medo do nuclear se deve ao “pior marketing da historia”, feito pela bomba de Hiroshima. Mas o que há de fato é outro tipo de medo: o do negócio nuclear ser bloqueado pela desaprovação social. O programa Átomos para a Paz de Eisenhower foi pensado por marqueteiros? Porque se se passou a falar de energia nuclear em vez de energia atômica?

Somos muito mal-informados sobre a tecnologia nuclear. E o Presidente da Eletronuclear a simplificou Continue lendo

09/04/2019

Nuclear: esclarecimentos necessários – Chico Whitaker

Dia 19 de março o Presidente da Eletronuclear, sr. Leonam dos Santos Guimarães, contestou um artigo meu publicado na Folha de São Paulo em 5 de março. No dia 21 o Presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN, sr. Claudio Almeida, respondeu a outro artigo meu publicado na Carta Capital em 11 de março.

As dúvidas que levantei seguramente incomodaram. E de fato são muito preocupantes: retomar a construção da usina nuclear de Angra 3 com o mesmo projeto de Angra 2 é um crime anunciado. Ele é da década de 70 e não leva em conta as recomendações de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA. Para que a Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN licenciasse Angra 3 com esse projeto, precisou engavetar pareceres contrários de seus próprios engenheiros e desrespeitar as determinações do MPF quando investigou a razão das divergências. Os Tribunais do Japão vem condenando os responsáveis pelo acidente de Fukushima por desconsiderarem alertas técnicos, chamando isso de negligência, enquanto a CPÌ do Parlamento japonês após o desastre disse que houve o que chamou de “conluio” entre empresas e governo.

Como muita coisa no Brasil também tem cheiro de corrupção, em Angra 3 isto ficou demonstrado com a condenação do então Presidente da Eletronuclear e mais recentemente com a prisão do ex-presidente Temer. E matéria recente do “Fantástico” da TV Globo apresentou essa usina como um espaço destinado mais do que tudo a essas práticas: https://globoplay.globo.com/v/7482395/?fbclid=IwAR0MiJhzkdwau1qA7CzhSEYHHwkecr1pytYXZ9_OmQRiQjULI8AhLLT0jdI.

Como a Folha de São Paulo só pôde abrir 500 caracteres no Painel do Leitor para a resposta ao Presidente da Eletronuclear, os interessados poderão lê-la em http://www.brasilcontrausinanuclear.com.br/2019/03/27/mais-transparencia-e-mais-cultura-de-seguranca-na-questao-nuclear. Mas a Carta Capital nos fez a gentileza de oferecer espaço para uma tréplica ao artigo do Presidente da ABEN. É o que se segue.

Na verdade os Presidentes da Eletronuclear e da ABEN se ativeram em seus artigos à defesa da opção nuclear e de Angra 3, sem trazer provas concretas sobre uma eventual atualização do seu projeto. Enquanto um documento oficial da Eletrobrás-Eletronuclear sobre os critérios de segurança para Angra 1, 2 e 3, publicado em 10 de maio de 2011 (após portanto o licenciamento de Angra 3), dá em detalhe as dimensões e características dos Prédios de Contenção de Angra 2 e diz simplesmente, sobre Angra 3, que tem “estruturas semelhantes às de Angra 2”.

Mas o segundo desses artigos surpreende de forma especial pelo nível de desinformação que revela. Continue lendo

07/04/2019

SE EU FOSSE DEPUTADO – Carlos Drummond de Andrade

SE EU FOSSE DEPUTADO

Carlos Drummond de Andrade

Artigo publicado pelo Jornal do Brasil em 21.6.1980, e republicado pela Revista da USP ESTUDOS AVANÇADOS 21 (59), 2007, com uma introdução explicativa de seu Editor

 

O testemunho do poeta-cidadão

Em 1980, já no ocaso da ditadura, a região florestal da Juréia, entre os municípios costeiros de Peruíbe e Iguape, se viu de repente ameaçada de sediar uma usina nuclear por força do acordo Brasil-Alemanha.

A população local reagiu, temendo que um acidente pudesse envenenar o seu hábitat. A lembrança do que ocorrera em Three Mile Island, em 1979, estava ainda viva na consciência ecológica mundial. Organizações ambientalistas e alguns cientistas eminentes uniram-se então e fizeram um apelo ao maior poeta vivo do país, Carlos Drummond de Andrade, para que escrevesse um artigo em apoio à luta comum.

O poeta recebeu dos cientistas as informações básicas sobre os riscos humanos e ambientais que a usina representava e publicou no Jornal do Brasil o texto abaixo transcrito.

A editoria julgou pertinente reproduzi-lo, pois nele reconhece dois méritos inegáveis:

  1. a) Trata-se de uma expressão de cidadania, cuja voz não costuma ser ouvida pela tecnocracia;
  2. b) O seu conteúdo está centrado nos perigos de doenças e mortes que correm as populações atingidas por um eventual acidente.

Releva notar que o poeta não podia imaginar que, seis anos mais tarde (1986),ocorreria o terrível vazamento de Chernobyl, na Ucrânia, cujos efeitos patogênicos ainda se fazem sentir.

A luta contra o Projeto Juréia não se deu em vão. O governo desistiu da ideia. Hoje a Juréia é uma bela reserva florestal.

                                            Editor

 

SE EU FOSSE deputado federal, estaria hoje muito apreensivo. E se fosse deputado federal por São Paulo, minha apreensão atingiria limite angustioso. Isso porque me mandaram um documento terrível, que faz perder o sono e põe a consciência em estado de guerra.

Quem o assina é o Movimento em Defesa da Vida, formado por pessoas de todas as classes, homens e mulheres, sob orientação de geneticistas reputados e físicos nucleares não menos categorizados da USP. Continue lendo

29/03/2019

Mais transparência (e mais cultura de segurança) na questão nuclear – Chico Whitaker, Heitor Scalambrini Costa, Renato Cunha e Zoraide Vilasboas

A usina nuclear Angra 3 foi licenciada em 2010 sem prever acidentes “severos” e desconsiderando pareceres de engenheiros da CNEN e exigências do MPF. Publiquei dia 5 na Folha um artigo sobre os riscos assim criados. Uma réplica do Presidente da Eletronuclear no dia 17 diz que o projeto foi atualizado mas não apresenta provas. A questão é muito grave mas a Folha não publica tréplicas. A quem quiser se informar melhor só resta ler um texto explicativo em www.brasilcontrausinanuclear.com.br (nota de Chico Whitaker publicada em 28 de Março de 2019 ao Painel do Leitor da Folha de São Paulo ).  

 

Mais transparência (e mais cultura de segurança) na questão nuclear.

Chico Whitaker, Heitor Scalambrini Costa, Renato Cunha e Zoraide Vilasboas[1]

Artigo publicado nesta Folha no dia 5 de março (Chico Whitaker: “Brumadinho, Flamengo, Angra: e o bom senso?”), pondo em dúvida a atualização do projeto obsoleto da usina nuclear Angra 3, mereceu uma resposta de Leonam Guimarães, Presidente da Eletronuclear. Isto é significativo, Continue lendo

27/03/2019

Por um levante ético: a hora e a vez da objeção de consciência – Chico Whitaker

O sinal foi dado. Em Washington, o Presidente Bolsonaro disse com todas as letras: temos primeiro que destruir muito, para depois construir.

A destruição já está em pleno curso – por trás das trapalhadas – atingindo direitos, normas e politicas que construímos arduamente, como sociedade, ao longo de muitos anos.  Ataca-se a soberania nacional, os recursos naturais e os equipamentos coletivos (venham para o Brasil, estamos vendendo tudo, disse o Ministro da Economia). A intolerância, o ódio e a violência agridem a solidariedade humana e a cultura de paz e de diálogo. A mentira usada na campanha eleitoral procura agora desarticular estruturas e processos educativos construídos para favorecer o crescimento da consciência cidadã e garantir formação para todos. O governo anuncia leis e projetos que agravam o sofrimento dos mais pobres. Há quem já identifique, nas falas do Presidente e seu entorno, desvios militarizantes que poderão levar a enfrentamentos de civis armados.

Mas essa destruição, para completar-se, Continue lendo

21/03/2019

Lições de Fukushima – Chico Whitaker

(Publicado na edição on line da Carta Capital em 11 de março de 2019)

Há exatos oito anos, em 11 de março de 2011, no Japão, um forte terremoto estremeceu as estruturas da usina nuclear de Fukushima, seguido de um enorme tsunami que afogou suas máquinas. Pouco depois três dos seus reatores explodiram. Do desastre natural passou-se à catástrofe social e ambiental provocada por acidentes nucleares em que os reatores derretem. Era o terceiro desse tipo que ocorria no mundo, considerado impossível até o primeiro em 1979 nos Estados Unidos e o segundo na então União Soviética em 1986, em Chernobyl.

A radioatividade disseminada pela explosão levou à evacuação de 160.000 sobreviventes do terremoto e do tsunami e os milhões de habitantes de Tóquio quase tiveram a mesma sorte. Foram para alojamentos provisórios, onde estão até hoje, recebendo ajudas do governo. Entre os deslocados mais velhos, há várias vezes mais suicidas do que vitimas do tsunami. O governo ameaça abandoná-los para pressioná-los por sua volta a áreas ainda radioativas.

Onde ficam as vidas humanas, na lógica do mundo econômico e político? Conluios Continue lendo

07/03/2019

Brumadinho, Flamengo, Angra: e o bom senso? Chico Whitaker

Folha de São Paulo de 5 de 3 de 2019

Inexiste a cultura de segurança em equipamentos

Tragédia em Brumadinho, três anos após Mariana. Desta vez foi mais duro: mais de 300 vidas perdidas. Causa, a mesma: descaso com a segurança em benefício do lucro. Onde ficam as vidas humanas na lógica do mundo econômico e político?

Nem bem identificados os responsáveis, a morte absurda de dez meninos em um centro de treinamento de futebol. E os 242 jovens da boate Kiss? E o incêndio do Museu Nacional, carbonizando a memória do país? Como sempre: falta de fiscalização, laudos ignorados.

Não temos no Brasil uma cultura de segurança em equipamentos coletivos. Com isso, é assustador o que pode acontecer com uma das invenções mais perigosas da humanidade, que importamos: as “chaleiras” para produzir eletricidade com energia nuclear, chamadas usinas nucleares. Temos duas, em Angra dos Reis. E estão programadas Angra 3 e algumas mais em outras regiões. Mas o projeto de Angra 3 é de 1977. Elaborado, portanto, antes de três acidentes com derretimento do reator, até então tidos como impossíveis —nos EUA (Three Mile Island), na então União Soviética (Chernobyl) e no Japão (Fukushima). Continue lendo

26/02/2019

Palestra de Chico Whitaker no 120º Fórum de Cultura de Paz, sobre a Objeção de Consciência,

Palestra de Chico Whitaker no 120º Fórum de Cultura de Paz, sobre a Objeção de Consciência, promovido pela Associação Palas Athena em 8 de maio de 2018.

A objeção nossa de cada dia

Boa noite para todas e todos.
Agradeço o convite de Palas Athena para participar deste Fórum sobre a Objeção de Consciência.
Trago-lhes aqui alguns dados e informações sobre o tema e algumas reflexões sobre a potencialidade politica deste tipo de ação cidadã na luta por mudar o mundo.

Como todos sabemos, este evento foi programado para o dia de hoje porque em mais uma semana, dia 15 de maio, o mundo todo será convidado a refletir sobre o Objetor de Consciência, no Dia Internacional a ele dedicado. A fixação pela ONU de Dias Internacionais – do qual talvez o mais conhecido seja o Dia da Mulher, 8 de março – tem esse objetivo: levar-nos a parar um pouco nossos afazeres e organizarmos encontros e manifestações em que reflitamos um pouco mais sobre nossos direitos e deveres em questões importantes para a vida das sociedades. No caso da Objeção de Consciência o que se busca é também ampliar a própria consciência desse Direito, ainda insuficientemente conhecido.

Por exemplo nesta sala: quantos de vocês sabem exatamente de que se trata? Quantos de vocês sabem que um dos nossos Direitos Fundamentais é recusar-nos a fazer coisas a que nos obrigam as leis vigentes mas vão contra nossa consciência, por razões religiosas, éticas, morais, filosóficas, políticas, humanistas? Quantos sabemos o que fazer quando essa situação se apresenta e que leis podemos nos recusar a obedecer? Continue lendo